Alma de Condor

Prudhoe Bay/Deadhorse – No topo das Américas

"O que é bom, [Wagner],
e o que não é bom –
será preciso pedir a alguém que nos ensine isso?"
(Robert M. Pirsig)
Acordei um pouco nervoso para o dia mais importante, desde que tudo isso começou. Era bem cedo ainda daquele sábado quando reuni as coisas sobre a moto e parti. Mas rodei só poucos metros, até o posto de gasolina quase em frente ao Ranch Motel. A ocasião merecia um pouco de cerimônia, pelo menos para um copo de café. A cidade estava vazia, por ser ainda muito cedo, e o dia tinha "amanhecido", se se podia dizer assim, simplesmente GLORIOSO. Tempo estável e muito sol. Na roupa de cordura já sentia um pouco de calor. Sobre mim pairavam os olhares curiosos dos funcionários da conveniência, e, na saída, enquanto checava a moto e terminava de comer um chocolate, de um cara numa moto que estava por ali provavelmente zarpando para um passeio local. Mas não me perguntou nada. Já devia ter visto outros assim como eu por ali e provavelmente deduzia minha proa para aquele dia.

Fairbanks

Alaska 6O dia amanheceu carregado de nuvens. Não havia breakfast no motelzinho. No quarto ao lado, o meu colega harleyro já tinha saído para Anchorage, a cidade mais populosa do Alaska, ao sul do território. Metódico, ele tinha um paninho pra polir cada pedacinho de sua Harley, que piscava de limpa, apesar da chuva, ou pelo menos assim me pareceu em comparação com a pobre V-Strom. À noite, a Harley dormiu sob uma capa; a V-Strom, na chuva.

Comi um Kit-kat, tomei água e, depois do cerimonial de todo dia com relação às cargas e à moto, abasteci no posto ao lado. Um adolescente mimado me atendeu. Devia ser o filho do dono. Passou o cartão negligentemente e não funcionou. Insisti para tentar novamente, e nada. Tive que abrir o top-case pra pegar uns dólares enfiados lá no fundo, no meu porta-dólares. Contrariado, paguei em cash. Eu evitava de gastar essa grana, porque ainda teria muitas despesas pela frente, sobretudo o transporte da moto de Panamá City para Bogotá, caso não a enviasse de Chicago, situação ainda não claramente definida, mas que naquele momento não me preocupava. Além disso, na América Central e na América do Sul é sempre bom ter uns dólares à mão. Nunca se sabe o que pode acontecer. Em todo caso, esses dólares também estavam ali para isto, ou seja, quando não desse certo abastecer com cartão. E ainda restava a possibilidade de sacar dinheiro em algum ATM, como são chamados os caixas eletrônicos. Mas não gosto de depender disto, pois a experiência já demonstrou que ora dá tudo certo, ora não funciona. Aproveitei para tomar um copão de café e saí satisfeito tomando o rumo da Alaska Highway.

Tok

FinalmenteAi, que dor de cabeça! Foi assim que acordei em Watson Lake. Acho que tinha viajado um pouco demais na cerveja. Quando cheguei na cidade, no final da tarde do dia anterior, outras duas motos estavam chegando também, e os caras ficaram hospedados no andar de baixo do mesmo hotelzinho. Cumprimentamo-nos brevemente. Mais tarde, no restaurante, estavam lá os dois, mas com certeza não falavam a minha língua, e então nem conversamos. Era até mais cômodo pra mim ficar sozinho, com a minha cerveja. Mas é engraçado, porque na estrada sempre todos se cumprimentam acenando com a mão esquerda aberta e para baixo, o braço esticado. E é legal essa atenção durante o dia, nas estradas, porque há poucas pessoas, e principalmente poucas motos, e isso transmite uma energia muito boa. Mas depois, já apeados das motocicletas, ninguém é muito de papo não. Deve ser porque todos estamos sempre cansados e já conhecemos bem os temas das conversas etc.. Melhor economizar energia, cuidar de comer, beber, mandar notícias, planejar brevemente o dia seguinte e dormir.

Watson Lake

Yukon Canada território selvagemCedo, pela manhã, abri as cortinas e vi que o tempo estava bom. Tinha parado a chuva. Olhei a V-Strom no estacionamento em frente à recepção. Estava ali tranquilinha, me esperando. É, vamos lá V-Strom, vamos para mais uma jornada.

Até Watson Lake, no Yukon, seriam mais 900km. Minha mente estava serena nessa manhã. Tinha dormido bem, depois de mandar notícias e também recebê-las do Brasil, e, como já estava mergulhado num ponto bem avançado da viagem, com tudo bem até agora, não tinha mais aquela ansiedade.

Fort St. John

em Dawson Creek inicio da Alaska Hwy-perto de Fort St JohnO dia de hoje trazia uma novidade, que era o rumo norte, depois de tantos dias rodando a oeste. Sinal que eu começava a atingir um ponto crucial na viagem. Saí não muito cedo, após o café da manhã no hotel, que não dava pra recusar. No Voyager Inn o breakfast não era daqueles tão automatizados, padronizados, pasteurizados, artificializados e outros zados, graças talvez à atmosfera mais relaxada de Banff. Sentia um certo frio na barriga, por deixar a segurança e o acolhimento dessa cidade para zarpar rumo a lugares remotos e pouco habitados. Ops, talvez precisasse era de um banheiro ...

O primeiro passo era tomar a Trans-Canadá, da qual eu finalmente me despediria, para depois pegar a chamada Icefields Parkway ou Highway 93, que leva até Jasper, a 289km. Uma linda estrada em meio às montanhas cobertas de gelo. Despedi-me das ruas de Banff, num dia lindo de sol e céu azul. Segui pela estrada reta até a altura do Lake Louise. Logo depois há uma bifurcação, e tomei a Hwy 93.

Banff

Castle MountainsDessa vez eu tinha comprado um relógio de pulso, contrariando totalmente o que o Wyatt, personagem do Peter Fonda em Easy Rider, faz logo no início da jornada deles para o leste dos EUA, de Los Angeles a New Orleans. É legal essa cena. Ele e o amigo Billy (Dennis Hopper) tinham contrabandeado uma razoável carga de drogas do México para Los Angeles, e a venda lhes proporciona uma grana alta para viver sem trabalhar. Decidem ir de Harley-Davidson pelas estradas americanas, gozando a pura liberdade, e logo no início da viagem tem essa cena emblemática do Peter Fonda jogando fora o relógio de pulso e arrancando com a moto. Bela tentativa Wyatt! Na prática a teoria pode ser outra. Mas estou dizendo por mim mesmo. No ano anterior eu tinha ido sem relógio, e toda hora ficava acordando, nas madrugadas, pensando que já estava atrasado para sair. Então, para a nova etapa, comprei um relógio digital barato com despertador. Aí ficou chique. Contudo, no meu motelzinho em Moose Jaw, foram um passa-passa e uma gritaria de jovens na minha janela que me despertaram na madruga. Eram quatro horas da manhã de domingo. Caramba, esse pessoal se diverte até tarde mesmo. E começam tarde, porque eu não tinha visto nenhum movimento à noite. Àquela hora eu estava na cama, como convinha ao tiozinho aqui, e essa galera me fez demorar pra dormir outra vez. Logo o despertador tocou. O dia clareava. Tudo calmo. Organizei a tralha. Higiene pessoal, limpeza da viseira do capacete, protetor solar no nariz, então visto a roupa molhada da moto com uns agasalhos por baixo, dobro as roupas que usei e ponho no top case, instalo as três malas na moto, coloco de volta o GPS, engraxo a corrente, amarro o galão de gasolina e a bota na garupa, dou aquela última verificada no quarto pra ver se não esqueci nada, largo a chave do motel sobre a cama, monto na V-Strom e vazo para Banff.

Moose Jaw

A Trans Canada tem 8030km e Liga St John na Terra Nova ate Victoria na British Columbia“O motociclismo é uma atividade que tem nas viagens de longa distância um de seus pontos de maior significado. Existem outros: técnica de pilotagem, consciência dos limites, espírito de liberdade, índole gregária, rebeldia contra valores antigos e sonolentos, etc...

Mas é quando a estrada parece não ter fim e o objetivo a ser alcançado está além da imaginação que o motociclista encontra um ponto em comum com o universo, com as forças que permeiam nossos dias na Terra. Então se ouve mais nitidamente uma voz que dentro de nós nos diz que o mundo é maior, mais pleno, mais interessante do que velhos hábitos e costumes nos sugerem. Não deixar que esta voz se cale é a maior missão do motociclismo.” (Clodoaldo Turbay Braga)

Winnipeg

Ate Winnipeg  460kmAcordei cedo, imagina se não. Não havia café da manhã no hotel, o que não chegava a ser uma coisa ruim. Composto novamente para a estrada, encontrei o Steve já junto à sua Super Ténéré, malas prontas, de partida. Nós nos despedimos, eu dei a ele uns adesivos de bandeirinhas do Brasil, e depois dos Take care e Drive safely saímos ao mesmo tempo, cada um em uma direção. O Steve tem uma serenidade incrível. Gostei muito de tê-lo conhecido.

O caminho estava iluminado naquela manhã. Estrada livre, reta, tudo bastante plano, nem dava vontade de parar. Mas eu tinha que comer alguma coisa. E lá pelas tantas resolvi experimentar o Tim Hortons. É aquela coisa do fast-food mesmo, com uns toques de pimenta. As pessoas olhavam minha roupa, a moto, aquela placa estrangeira, ficavam curiosas. Na porta, umas pessoas me pararam para cumprimentar e dizer algo.

Ignace

Na Trans Canada desde Sudbury no 1º diaA jornada deste segundo dia de estradas canadenses era de 927 km. Levantei cedo.

No café do hotel, aquelas máquinas que deixam a gente constrangido de mexer. Você quer apenas umas salsichas quentes, mas deve abrir um compartimento na parte de cima de uma maquineta, aí ela vai rolando numas esteiras e depois de um tempo, com sorte, sai grelhada lá na parte de baixo. Outras pessoas podem fazer fila atrás de você, e é chato quando isso demora. Há um sistema especial para pegar cereais, tem a máquina do leite, a do café, a de suco, uma geladeirinha com vários tipos de embalagem. As garrafinhas de leite parecem de agrotóxico. Tudo bem diferente. As frutas não dá vontade de comer, pois são maçãs verdes e bananas nanicas verdolengas, de cascas perfeitas que parecem de plástico. Se quiser panquecas então, boa sorte! As massas já estão separadas em copinhos de isopor, e você tem que por isso também numa máquina! Aí gruda tudo, faz aquela meleca, e você tenta fazer cara de brisa passando o maior carão perante os demais hóspedes. Eu tentava observar o que os outros faziam, mas muitos deles também se atrapalhavam. Em resumo, dada a ansiedade de cada partida, as dificuldades com esse nível de automatização e a comida não muito convidativa, preferia pegar pouca coisa, o mais simples e óbvio.

Sault Ste. Marie

1º pouso Sault St. Marie 681kmAssim cheguei em Sault Ste. Marie, que se pronuncia "Su San Merry", uma cidade canadense bem próxima da fronteira com os Estados Unidos, com 75.000 habitantes, uma calma, uma ordem absoluta. Cheguei até cedo, umas oito da noite (ou dia) local. Tudo fechado, mas ainda com luz do sol.

Foi muita chuva nesse dia. Usei capa o dia todo, contrastando bem com os dias secos de 18.000 km anteriores.