673 km | Gasolina quase de graça | Manifestações na estrada | Paciência no limite
Demorei mais do que queria pra sair do hotel. A bagagem estava pronta, mas o corpo ainda meio preguiçoso. Quando enfim peguei a moto e segui para um posto próximo, já passava das 8 da manhã. Fila imensa, com mais de 200 metros de carros — nem pensei em entrar nela. Cheguei direto na bomba e perguntei ao frentista onde era a fila das motos. Ele apontou um espaço entre as filas e mandou eu empurrar até lá.
Abri rápido o tanque, e ele completou com uns 7 litros. Perguntei quanto devia e a resposta foi a mesma de sempre: “Pague o que quiser”. Peguei cinco notas de 100 mil soberanos — moeda antiga da Venezuela, praticamente sem valor — e entreguei. Achei que estava dando uns dois reais. Na real? Cerca de três centavos de real. Por sete litros.
Tanque cheio, cabeça mais tranquila, segui viagem.


Logo nos primeiros quilômetros, peguei uma pista duplicada excelente. Mas nem cheguei a rodar 3 km quando vi dois soldados do exército descendo de uma moto e começando a bloquear a estrada. Passei antes que fizessem qualquer barreira e fiquei olhando no retrovisor pra entender. À frente, vi alguns carros atravessando o canteiro central, retornando pela outra pista. Parei também. Embaixo de um viaduto, um grupo de manifestantes bloqueava os dois sentidos da via. Fumaça preta subia — fogo em pneus ou algo do tipo.
Um grupo de curiosos assistia à cena do outro lado da pista. Um deles me disse que era uma manifestação de trabalhadores e garantiu que moto podia passar. Fui com calma pela pista marginal, e quando cheguei no viaduto, encontrei uma passagem entre os manifestantes. Ninguém me impediu. Segui viagem.
Mais adiante, vi um grupo com bandeiras vermelhas com a sigla MST — não o Movimento dos Sem Terra brasileiro, mas um movimento local, com mesmo nome. Passei por mais pneus queimados, mas já sem ninguém por perto.


Depois de uns 50 km, a estrada duplicada virou pista simples. Trecho regular, com buracos e irregularidades que incomodavam bastante. Logo mais, um curto trecho duplicado e, em seguida, de novo pista simples com muitos buracos, bastante tráfego de carros e caminhões. Um chuvisco leve ajudou a amenizar o calor.
Parei em El Tigre para abastecer. No posto, sem fila e o mesmo esquema: “Pague o que quiser”. Dei 10 soberanos — algo em torno de R$ 0,68. Quase um luxo. Por outro lado, comprei duas garrafas d’água de 500 ml de uma menina que estava no meio da pista. Pagamento em dólar, o equivalente a R$ 5,40. Caro para os padrões daqui.
A confusão das moedas me atrapalha: são duas em circulação, com valores nominais altíssimos e cotações que não fazem sentido. Fico me sentindo perdido em conta de padaria.


O dia não teve muita coisa visualmente interessante. A exceção foi uma ponte muito bonita sobre o rio Orinoco. Procurei o mirante para uma boa foto, mas não encontrei, mesmo com placas indicando. Pelo menos consegui uma foto da moto em frente a uma espécie de templo que avistei no caminho. Do litoral, só vi um pedaço de longe — e o mar, dessa vez, estava sem aquele azul típico do Caribe.
O GPS resolveu me aprontar e me tirou da autopista para uma estrada vicinal, arborizada e até bonita. Mas um soldado do exército me abordou no caminho e alertou: a região era perigosa e eu não deveria parar de jeito nenhum.

Esse mesmo soldado foi o segundo do dia a me tirar do sério. Mais cedo, um da Guarda Nacional me parou, pediu documentos e implicou com minha habilitação brasileira, dizendo que “não valia na Venezuela”. Respondi firme: “Vale sim, senhor. Tanto quanto uma carteira venezuelana vale no Brasil.” Ele ficou quieto e me liberou.
Já o outro, na estrada vicinal, quis vasculhar tudo. Pediu que abrisse o baú traseiro e começou a revirar minhas coisas. A paciência acabou ali. Disse, com firmeza, que não era contrabandista, era turista. E que turista traz dinheiro, movimenta a economia local, dá empregos. Eles deviam tratar melhor quem visita o país. Ele se assustou um pouco, parou de mexer e apenas pediu para ver as malas laterais, sem tocar em nada. Me liberou em seguida.
Saindo da vicinal, reencontrei uma ótima estrada duplicada. Alguns buracos exigiam atenção, mas o ritmo da viagem melhorou bastante.
Cheguei a Caracas ainda com luz do dia e fui atrás de um hotel confortável — pra gastar um pouco do que estou economizando com a gasolina. Amanhã o plano é seguir até a fronteira com a Colômbia. Se tudo der certo, saio cedo. Mas essa parte depende muito do tal do sono.












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