Naquele dia, meu plano era visitar o Ki Monastery, o mais cênico monastério budista que eu já tinha visto em fotos, além de outras atrações ao redor de Kaza, como o Sakya Tangyud Monastery, o povoado de Komic e alguns stupas. Desci do quarto e encontrei o Ankur, que me disse que iria comigo ao Ki Monastery, mas depois seguiria para Manali, iniciando sua viagem de volta para casa.
Ele sugeriu que eu contratasse um guia local, já que as estradas na região são meio confusas e eu poderia acabar me perdendo. Um rapaz do hotel indicou um amigo que conhecia bem a área. Negociamos e fechamos o passeio por cerca de 8 dólares. O guia, chamado Sonam, sugeriu que, além do Ki e do Tangyud, eu visitasse a vila de Langza, onde há uma enorme estátua do Buda. Segundo ele, Kibber não teria nada muito diferente do que eu veria nesses outros lugares — concordei.
Enquanto nos preparávamos para sair, Ankur descobriu que o eixo da suspensão traseira da moto dele havia quebrado — uma barra de ferro de uns 30 cm. Foi aí que percebi que aquela peça extra que ele tinha me pedido para carregar na minha bagagem não era exagero, mas pura precaução. Ele também tinha outra peça reserva, mas mesmo com muito esforço, pancadas e mais de uma hora tentando, não conseguiu remover a barra quebrada.
Ankur saiu à procura de uma oficina, e eu fiquei esperando no hotel. Foi quando escutei uma música vinda da escola ao lado. Subi até a laje para ver melhor: parecia uma cerimônia cívica e religiosa com estudantes — a maioria meninas com traços mogóis — impecavelmente uniformizadas, cantando hinos acompanhadas por dois tambores tocados por colegas.


Depois de bastante tempo, Ankur voltou com a moto consertada. Sonam subiu na garupa da minha moto e partimos rumo ao Ki Monastery, a cerca de 15 km de Kaza. A estrada era boa, mas estreita e cheia de curvas.

Assim que vi o mosteiro lá no alto de uma montanha, reconheci a paisagem das fotos que tinha pesquisado. O lugar é impressionante. Passamos por uma pequena vila aos pés do morro e seguimos até um grande pátio onde deixamos as motos. Subimos rampas e escadas até a área aberta aos visitantes. Um monge nos recebeu com um chá sem gosto em uma sala escura e rústica, com um fogão à lenha e bancos cobertos com tapetes.


Assisti a uma cena curiosa: no pátio, duplas de monges debatiam temas religiosos. Um falava com empolgação e, ao finalizar, batia palmas — sinalizando que era a vez do outro responder. Um verdadeiro debate filosófico budista.


Na descida, cruzamos com um grupo de crianças vestidas com as roupas vermelhas típicas dos monges. A iniciação ali começa cedo.










Me despedi do Ankur e segui com Sonam para a vila de Langza, a cerca de 25 km dali, por uma estrada estreita de cascalho, cheia de curvas, subidas e descidas entre desfiladeiros e penhascos. Chegamos até o topo da montanha onde fica a grande estátua do Buda, de onde se tem uma vista incrível da vila — construída sobre rochas. Fiz muitas fotos por lá.







De lá seguimos para o Tangyud Monastery, a cerca de 10 km. Trata-se de um monastério budista da linha Sakya, considerado um dos mais antigos do mundo. A construção é simples, retangular, com três andares e pintada de vermelho escuro. Do lado de fora, um grupo de mulheres carregava sacos de terra que eram içados até o teto por um monge. Fotografei a cena e entrei no prédio após tirar as botas.








Dentro, encontrei um leopardo-do-Himalaia empalhado pendurado no teto de uma sala. Em outra, um monge recitava orações e tocava um tambor. Fiz uma doação e assisti à cerimônia em silêncio. Depois, ele nos ofereceu chá e nos presenteou com cordões de lã vermelha para usar no pescoço, como proteção espiritual.


Visitamos ainda a sala de oração em um prédio mais novo, com decoração colorida e cheia de cédulas espalhadas pelos altares. O monge ali permitiu que eu tirasse algumas fotos.

Perto do monastério fica a vila de Komic, que exibe uma placa orgulhosa: “a vila mais alta do mundo conectada por estrada” — a 4.587 metros de altitude.

Começamos o retorno a Kaza por volta das 16h30, passando pela vila de Hikkim, onde fica o correio mais alto do mundo, mas não paramos por causa do frio. Quando saímos de Kaza, às 11h, fazia calor. Mas com o passar das horas e o ganho de altitude, a temperatura caiu bastante. O vento castigava e até o Sonam, acostumado com o clima da região, sofreu com o frio. Eu, que saí com a jaqueta de verão, nem preciso dizer como estava.

Quando chegamos ao hotel, a energia tinha acabado. Quando escureceu, subi à laje para tentar fotografar o céu estrelado. A cidade estava completamente às escuras, exceto por alguns hotéis mais sofisticados que tinham geradores. Pedi no próprio hotel um prato de arroz com legumes. Não consegui tomar banho de novo.

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