Acordei antes das 4 da manhã, naquele ritmo de quem dorme mal por causa do frio e da altitude. Fiquei enrolando um pouco no saco de dormir, até que o sol ameaçou aparecer e resolvi sair pra explorar a vila. Nako é minúscula, mas charmosa: construções de pedra, casas tradicionais, alguns hostels e um belo monastério budista com muros que parecem ter séculos de história. A paisagem ao redor é de tirar o fôlego — literalmente, já que estamos a mais de 3.600 metros de altitude.

Voltei pro hotel e o Ankur já estava pronto. Tomei um paratha com chai — o clássico café da manhã indiano — e começamos a preparar as motos. Quase 9h quando pegamos a estrada, a já conhecida NH 505.

A rodovia é mais um conceito do que uma realidade. Trechos estreitos, pedregulhos, poças d’água, lama, buracos e curvas em cotovelo de enjoar cabrito. Em alguns pontos o asfalto até aparecia, mas era só pra enganar o motociclista desavisado: logo vinha mais cascalho e buraco pra nos lembrar onde estávamos.

Pouco depois, paramos num trecho onde trabalhadores estavam provocando um deslizamento controlado — prática comum por aqui, usada pra limpar pedras soltas das encostas e evitar acidentes maiores. Esperamos sob um sol escaldante enquanto as rochas rolavam montanha abaixo. Depois da liberação, cruzamos por cima de pedras roliças com muito cuidado.

Enquanto isso, alguns locais vieram bater papo com o Ankur. Queriam saber de onde éramos, pra onde íamos e quem era o “turista estrangeiro de moto”. Curiosidade é uma constante no Himalaia — principalmente quando você aparece com uma Royal Enfield carregada e cara de quem não sabe onde está se metendo.




Rodamos mais um pouco e encontramos um pequeno engarrafamento: um carro e um caminhão haviam se enroscado em uma curva apertada. Nada grave, mas mais tempo parado. Poucos quilômetros depois, nova interrupção, agora por causa de obras. Um caminhão bloqueava totalmente a pista. Enquanto esperávamos, me distraí fotografando uma plantação de maçãs — comum nessa região árida, graças à irrigação inteligente e ao trabalho duro dos agricultores locais.

Um morador viu a cena, avisou o motorista do caminhão, e ele gentilmente deu uma recuada que abriu passagem pra nossas motos. Seguimos por uma pista cheia de lama até conseguir sair dali.

Às 11h30, tínhamos feito apenas 60 km. Tabo, uma das vilas mais antigas da região, apareceu no horizonte e paramos pra comer e descansar. A cidade é famosa pelo seu mosteiro milenar, considerado um dos mais antigos em funcionamento contínuo no Himalaia.


Seguimos viagem e a estrada continuava desafiadora, mas compensava a cada curva com paisagens surreais: picos nevados, encostas secas, vales verdes só onde o rio Spiti permite vida. Em certos pontos, víamos o rio serpenteando lá embaixo, a centenas de metros do nível da estrada. A temperatura variava conforme a altitude, o vento e o humor do Himalaia: às vezes quente, às vezes gelada.


Após Dhankhar, a estrada deu uma trégua e conseguimos acelerar um pouco — 60 a 70 km/h, que ali é quase um milagre. Mas durou pouco: em menos de 20 km, voltamos para o modo “rali”.

Chegamos a Kaza por volta das 15h. A cidade é a “capital” do Spiti Valley e um dos poucos lugares com algum sinal de civilização. Paramos no centro, mas a internet estava fora do ar (pra variar). O Ankur tentou contato com um amigo e, depois de muito custo, conseguiu. O tal amigo mandou o dono de um hotel simples nos buscar. Sem internet, sem água quente, sem energia… mas com um bom preço. Luxo zero, mas abrigo garantido.

O dono do hotel nos sugeriu um passeio até Hikkim, uma vila a 4.440 metros de altitude, famosa por abrigar o correio mais alto do mundo. A estrada teria cerca de 15 km e, segundo ele, estava “ótima”. Caímos nessa.

Os primeiros 7 km até que foram tranquilos. Depois, o asfalto sumiu e começou um trecho de cascalho cruel. Esqueci as luvas na pressa e, à medida que subíamos, o frio foi apertando. O sol começou a se pôr, a temperatura despencou, e minhas mãos estavam congelando. Não encontramos a tal vila (talvez já tivéssemos passado por ela sem perceber) e decidimos voltar.
Já era noite quando entramos em Kaza. Cansado, com frio e distraído, freei a moto sobre um trecho de cascalho solto e… chão! A moto tombou em câmera lenta e eu fui junto, “catando cavaco”. Sem ferimentos, só um susto e o orgulho levemente arranhado.

Tentei tomar banho, mas com aquele frio e sem água quente, só consegui me refrescar com um pano molhado — o terceiro dia seguido sem banho de verdade.
Nos fundos do hotel, rolava um festival local no pátio de uma escola. Subimos na laje pra ver a movimentação: música alta, muita gente reunida e uma vibe alegre. Aproveitei pra tirar algumas fotos do céu noturno, que estava espetacular — a Via Láctea visível a olho nu, um espetáculo que só o Himalaia pode proporcionar.


No fim da noite, Ankur me contou que teria que começar o retorno pra casa no dia seguinte. Queria que eu fosse com ele pra cruzarmos juntos o temido Kunzum Pass, um dos trechos mais difíceis da viagem. Mas eu ainda queria explorar os monastérios da região, especialmente o Ki Monastery, que estava nos meus planos desde o início. Conversei com ele e decidimos que ele seguiria sozinho.
Percorremos 153 km nesse dia. Cansativo, intenso e absolutamente inesquecível.

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