O desafio do dia era claro: encarar 470 km até Nova Délhi. Pela média da Royal Enfield 350cc e pelas condições indianas de tráfego, eu sabia que talvez não fosse possível fazer tudo em um único dia. A galera da recepção do hotel, bem pessimista, já tinha cravado: “Você não vai conseguir.”
Saí por volta das 8h30, confiante — ou teimoso, como preferir. Logo de cara, entrei numa rua errada, fui parar num elevado que acabava num estacionamento perto do Golden Temple. Voltei pela contramão. Rodei mais um pouco e… errei de novo. Outra contramão. Começamos bem! Só com essas voltas perdi uns 15 minutos, mas segui adiante.



Apesar dos tropeços urbanos, a saída de Amritsar não foi das mais complicadas. As obras pela cidade atrapalham um pouco, principalmente perto de um imenso portal em construção que, diga-se de passagem, promete ficar lindíssimo quando pronto.
Na estrada, o cenário era animador: asfalto bom, pista dupla, pouco movimento. Uma névoa no horizonte me lembrou as manhãs de inverno em Belo Horizonte, quando a inversão térmica cobre tudo com aquele véu de poluição.
Durante o percurso, passei por tratores rebocando carretas gigantescas — primeiro carregadas de colheitas, depois lotadas de retalhos de tecido, talvez rumo a alguma indústria têxtil. No trecho entre cidades maiores, o trânsito naturalmente apertava, e em algumas partes em obras precisei desviar por terra e cascalho. Nesses momentos, a moto sofria e eu também.

A velocidade máxima permitida era de 90 km/h, mas com a Royal Enfield pesada e sem muito fôlego, o jeito era manter um ritmo mais conservador. Apesar disso, o rendimento foi bom. Passei por várias praças de pedágio, mas motos não pagam nada — têm até pista exclusiva! Em algumas delas, até os tuk tuks se aproveitavam da “carona” para cortar caminho.








Pausa estratégica perto de Rajpura, onde encontrei um shopping center moderno e organizado. Aproveitei para lanchar num fast food internacional completamente vazio, o que pareceu estranho, mas garantiu um momento de paz.
Assim como no dia anterior, banheiros escassos foram uma realidade incômoda — paradas para “fisiologia básica” exigiram estratégia.


No caminho, fui presenteado com a paisagem religiosa da Índia: templos lindos, brancos e bem cuidados, frequentemente rodeados por construções feias e mal acabadas. Vacas pastando ou simplesmente cruzando a pista também marcaram presença constante, exigindo atenção redobrada. E, nas cidades, o caos tomava conta: motos, bicicletas, ônibus e até caminhões cruzando a estrada como se não houvesse perigo — ou como se fossem imortais.


Outro mistério do dia: vários carros enfeitados com flores. Casamentos? Festas religiosas? Não descobri, mas deixaram o caminho mais colorido.


Perto de Délhi, uma surpresa: uma enxurrada de caminhões estacionados às margens da estrada. Achei que era bloqueio, protesto, greve… Mas não. Era só a Índia sendo a Índia. Passei tranquilo.

Cheguei à capital por volta das 17h, já com o sol mais brando. Usei o GPS do celular para chegar à região central e, ao invés de voltar ao hotel onde havia deixado uma mala no início da viagem, encontrei outro — muito melhor e pela metade do preço. No dia seguinte fui buscar minha bagagem e deixei uma boa gorjeta para o recepcionista.
Depois disso, com meu parceiro Ankur, levei a moto para uma revisão num mecânico e, em seguida, a um lava jato. Queria entregá-la limpa e tinindo para a loja de aluguel.
Fim da jornada.
Foram 24 dias de viagem, 4.524 km rodados, a maior parte por estradas desafiadoras. A Royal Enfield Classic 350cc se comportou como uma guerreira: nenhum problema mecânico. Duas quedas, sem grandes danos — embora o ombro ainda doesse mais de um mês depois do retorno ao Brasil.
E o custo total? Cerca de US$ 2.500, incluindo passagens aéreas, aluguel das motos, combustível, hospedagem, alimentação e todas as despesas. Uma aventura intensa, rica, transformadora — e, claro, cheia de vacas, poeira e histórias para contar.
Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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