474 km | Gasolina na garrafa | Buracos na estrada | Um pouco de luxo no fim do dia
A missão do dia era clara: rodar o máximo possível rumo ao norte da Venezuela. Mas a velha preocupação com a gasolina continuava. Vários postos estavam secos, e onde havia promessa de combustível, filas quilométricas já se formavam.
Antes de partir, voltei ao Salto Kama Meru e encontrei quatro carros 4×4 com barracas de camping no teto. Não ouvi nada durante a noite — ou dormi pesado ou eles chegaram de fininho.


Comecei o dia cruzando novamente a belíssima Gran Sabana, agora sob uma neblina fria e molhada. Logo a estrada começou a descer por curvas fechadas em meio a uma floresta densa e úmida. A garoa mantinha a temperatura agradável, mas o piso molhado e com óleo exigia atenção redobrada. Carros velhos e gasolina praticamente de graça não incentivam os venezuelanos a corrigirem vazamentos.
Ainda com gasolina suficiente, ignorei os postos com filas. Segui adiante até a cidade chamada Quilômetro 88 — nome criativo. As ruas estavam esburacadas, cobertas de lama e com muita movimentação de gente e veículos. Procurei um posto e ouvi o já clássico: “no hay gasolina”. Um senhor exibia duas garrafas PET com combustível sobre caixotes. Fui lá e comprei os 7 litros que ele tinha, por um preço até camarada.


De volta à estrada, os buracos aumentaram. Em alguns trechos, moradores adotam os buracos: jogam terra em cima e pedem “contribuições” aos motoristas. Nas vilas cortadas pela estrada, todo quebra-molas vira ponto de venda — de frutas, empanadas ou refrigerantes suspeitos. Em meio a tantas barreiras militares, fui parado apenas uma vez pelo Exército. Vacilei: olhei direto para os soldados. Resultado? Fui mandado parar e tive toda a bagagem revistada.
Vi bastante gente vendendo gasolina em garrafas ao longo do caminho, mas preferia tentar a sorte diretamente na bomba.


Segui até El Callao, cidade conhecida pela mineração. Na entrada, ultrapassei um caminhão que acabava de chegar com a preciosidade líquida. Fui direto ao posto e, claro, já havia uma fila gigante de carros. Me mandaram esperar na calçada, pois a fila das motos era separada. Em poucos minutos, dezenas de motociclistas estavam ao meu redor, cheios de perguntas sobre a moto e a viagem. Um deles puxou um discurso nacionalista, elogiando a liberdade de expressão na Venezuela e dizendo que no Brasil vivíamos sob vigilância constante. Vai entender.

Na hora do abastecimento, foi o caos. Soldados tentavam organizar a fila, mas muitos furavam com a ajuda de funcionários do posto. No fim, consegui abastecer — e nem cobraram pelo combustível. Milagre bolivariano.
Depois de uma pausa para descanso e mais conversas (com as já tradicionais advertências: não viajar à noite, não parar em locais ermos, jamais parar se alguém pedir ajuda), segui viagem. O calor aumentava e os buracos também. Difícil manter a calma com tantos riscos de quebrar roda ou cair.


Nas cidades maiores, era um festival de motos pequenas com duas, três, até quatro pessoas sem capacete. Carros velhos, daqueles muscle cars americanos dos anos 60, circulavam enferrujados, com peças presas por cordas. Em contraste, carrões modernos — SUVs e pickups — passavam em alta velocidade. Alguns estavam parados no acostamento, com a suspensão arrebentada pelos buracos.


Cheguei a Ciudad Guayana e decidi parar por ali. Rodei um pouco pela cidade e, para minha surpresa, encontrei uma região moderna e organizada, com shopping centers e prédios imponentes. Achei um hotel da rede Best Western. Caro para os padrões locais, mas depois do perrengue na estrada, merecia um pouco de luxo.
Jantei no restaurante do próprio hotel. Amanhã, a saga da gasolina continua.












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