344 km | Do barro ao asfalto | Despedida da Guiana e reencontro com o Brasil
O esforço do dia anterior na difícil estrada entre Linden e Lethem deixou suas marcas. Mesmo depois de uma noite de sono pesado, acordei com o corpo dolorido – braços, pernas e especialmente o joelho esquerdo, que sempre reclama quando exagero no esforço físico.
A casa onde eu estava hospedado começou a se agitar ainda no escuro, com choro de criança e conversas. O gerador estava desligado, mas logo foi ligado e a casa se iluminou. Levantei, organizei minhas coisas, vesti a roupa de viagem e coloquei o baú da moto próximo à janela para pegar do lado de fora.
No pátio, uma van e uma caminhonete estavam estacionadas. Tinham chegado à noite, mas não ouvi nada. Algumas pessoas dormiam em redes presas às colunas de grandes quiosques com cobertura de palha. Todos seguiam para Lethem, como eu.
Coloquei a moto sobre o cavalete, lubrifiquei a corrente, instalei o baú e a levei para a frente da casa. Um brasileiro da van veio puxar conversa. Era garimpeiro e morava na Guiana havia 13 anos. Disse que não pretendia voltar ao Brasil. Quando perguntei sobre a estrada até Lethem, ele disse que estava ainda pior que o trecho anterior. Como assim, pior? Dei a ele um adesivo e fui me despedir da dona da casa, que pediu desculpas pelo barulho do neto. Tranquilizei-a: já estava acordado antes do choro começar.

A caminhonete partiu primeiro. A filha da senhora veio me oferecer café, mas recusei com educação. Precisava pegar a balsa — ela só atravessa o rio quando há carros. Motos não pagam e não justificam a travessia por conta própria.
Fui até o embarque. A pick-up já estava na rampa. Esperei, subi com cuidado pela tábua de acesso e estacionei. Em seguida chegou a van, que atolou ao passar pelas tábuas. Depois de alguns minutos, conseguiram liberá-la.
Uma senhora da van me pediu se algumas moças poderiam tirar fotos com a moto. Autorizei e virou uma pequena procissão.

Do outro lado do rio, encontrei uma barreira policial e uma alfândega — no meio da floresta! Primeiro registrei os dados da moto com os agentes alfandegários, depois com os policiais. Tudo tranquilo, sem pedidos de “drink”.
O trecho inicial da estrada, com cerca de 60 km cortando a floresta, estava ótimo. Máquinas trabalhavam na terraplanagem e parecia que iam asfaltar. Mesmo em obras, consegui completar esse pedaço em pouco mais de uma hora.
Mas, quando terminou a mata e começou a savana, o pesadelo voltou. A estrada virou um caminho de cascalho claro, cheio de buracos secos e pedras do tamanho de tijolos. Era praticamente intransitável. Tive que seguir entre 10 e 20 km/h, com a moto e meu corpo sendo castigados sem trégua.
O calor era intenso, sem uma sombra sequer para parar. Vacas, cabritos e pessoas começaram a surgir pela estrada — o isolamento da floresta deu lugar a fazendas e pequenas vilas bastante rústicas.
Cheguei a Annai, onde planejava abastecer, mas o posto indicado no mapa não estava lá. Rodei até encontrar uma lanchonete com a bandeira do Brasil na fachada. Perguntei a uma moça, que respondeu em português que o posto ficava logo à frente. Estava mesmo, meio escondido. Pedi para completar o tanque. O valor passou o que eu tinha em dólares guianenses. Perguntei se aceitava reais. Aceitava. Dei R$ 20, ele disse que o equivalente era uns R$ 15, e falei para ficar com o troco. Depois fiz as contas: no máximo valia R$ 5…
A estrada continuou ruim por mais 50 km. Foram quase 3 horas de sofrimento, sem sombras para parar e beber água.

Vi um carro com placa brasileira e fiz sinal. O motorista parou e disse que 5 km adiante a estrada virava “um tapete”. E virou mesmo. Asfalto lisinho, mantive 70 km/h com facilidade, mas dava para passar de 100 — só não arrisquei por causa do risco de escorregar.
Finalmente, cheguei a Lethem. Típica cidade de fronteira, feiosa, com muitos carros com placas brasileiras. O GPS me mandou para o lugar errado. Voltei e perguntei num posto, que me indicou o caminho certo para a aduana.
Por volta das 15h, cheguei à fronteira. Os carros passavam sem parar, mas eu parei para registrar minha saída da Guiana.
E então, de volta ao Brasil. Um alívio. Concluída a parte mais desafiadora da viagem, em termos de cultura, idioma e estradas.
Passei pelo prédio da Polícia Federal, e um senhor fez sinal para que eu seguisse. A estrada em direção a Boa Vista era novinha, impecável. Cheguei rápido e fui atrás do hotel que tinha anotado, mas não o encontrei. Abasteci em um posto e pedi indicação. Um frentista me sugeriu um hotel a poucas quadras. Fui para lá e me instalei.
Mais tarde, fui buscado por Jean Brustolin, o Brutus — motociclista local, professor e autor do livro sobre viagens Sonhos de um motociclista — com quem eu vinha mantendo contato. Me mostrou um pouco da cidade e depois fomos tomar uma cerveja e comer um sanduíche num quiosque na avenida central.
Decidi ficar mais um dia em Boa Vista. Precisava descansar. Também levei a moto para uma revisão, mesmo fora da quilometragem prevista. Queria garantir que estivesse em perfeitas condições para a próxima etapa da jornada.












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