295 km de moto | Um domingo tranquilo | Boas surpresas pelo caminho
Passei boa parte da madrugada no banheiro. Não sentia dores, mas bastava levantar que a vontade de voltar para o trono era imediata. Entre uma ida e outra, reparei na vida noturna do quarto: muitos pernilongos, mesmo com o ar-condicionado ligado. E ainda tive ânimo para correr atrás e matar uma barata enorme.
Assim que amanheceu, fui verificar o óleo e a água do radiador, calibrar os pneus com o mini compressor que levo na mala e lubrificar a corrente. Acho que acordei alguns hóspedes com o barulho.
Nesse processo, notei que a tampa e as duas porcas de ajuste da corrente haviam caído durante a viagem. Provavelmente foram mal apertadas na troca do pneu, em Belém. Passei em uma loja de peças de motos e, para minha sorte, eles tinham reposição — especificadas para outros modelos da Honda, mas que serviram perfeitamente. O dono da loja mesmo instalou e cobrou só R$ 10.
Fui à Polícia Federal perguntar se precisava registrar a saída do Brasil. O policial disse que não. Achei curioso, porque na viagem ao Peru isso foi exigido.
Segui para a fronteira. Parei na ponte e na placa da Comunidade Europeia para as tradicionais fotos. Depois fui ao complexo aduaneiro, onde um agente francês me indicou uma cabine com cancela. Ele só falava francês, mas consegui me fazer entender. Carimbou o passaporte e me liberou.


Já estava indo para a estrada quando lembrei que precisava regularizar a entrada da moto no país. Voltei, e outro agente apareceu. Perguntei, com meu inglês precário, sobre como fazer esse processo, e ele respondeu que não era necessário — só precisava pagar a taxa do seguro. Me indicou onde ir. Um senhor que falava português explicou que o valor era de 75 Euros. Falei um “UAU!” alto, e ele e outro senhor caíram na risada. Pegaram meus dados, passaporte, documento da moto e me pediram para aguardar. Esperei quase meia hora pela emissão da Carte Internationale d’Assurance Automobile.




Liberado, segui viagem. Logo me dei conta de que não havia abastecido. Pensei em voltar — afinal, gasolina no Brasil é bem mais barata —, mas achei melhor evitar confusão e segui até São Jorge do Oiapoque em busca de um posto. O GPS mostrava a estrada, mas não indicava postos de gasolina. Rodei pelas ruas, admirando como a cidade era mais organizada que a do lado brasileiro. Vi um rapaz em uma esquina e perguntei. Era brasileiro. Disse que o posto ficava na estrada. Onde exatamente? “Segue reto que você vai ver”, respondeu.
Fui seguindo, curtindo a paisagem, fotografando e filmando. Mas nada de posto.


A estrada em vários trechos é cercada por árvores gigantescas que se encontram no alto, formando túneis verdes. Muito bonito.
Fui parado em uma barreira da Gendarmerie. Pediram os documentos e logo me liberaram. No mapa, vi uma cidade chamada Régina, onde imaginei que encontraria combustível. Mas era apenas uma vila. E a gasolina não daria para chegar até Caiena.

Até ali, vinha curtindo a estrada, acelerando nas retas e deitando nas curvas. Passei a controlar o consumo. Faltavam 60 km para Caiena e eu tinha gasolina para cerca de 20. Em um entroncamento, vi uma placa indicando um posto a 14 km, na cidade de Cacao. Agradeci à sorte. Mas não durou muito. Na metade de uma subida, a moto parou: gasolina acabou.
Peguei uma garrafa de água para buscar combustível e comecei a caminhar. Depois de 50 metros, três carros passaram. Fiz sinal, mas nenhum parou. Pouco depois, o último deles voltou de ré. Corri para agradecer. Era uma moça e um senhor que trabalhavam para a TV francesa e estavam fazendo uma matéria na região. O senhor falava português. Me levaram até o posto — que, para minha surpresa, estava fechado. Só abriria às 16h. Eram pouco mais de 12h.
Ele me ofereceu carona até a cidade para almoçar. Concordei. Passamos em frente a um restaurante rústico e pedi para ficar ali. Ele disse que voltaria por volta das 16h para me levar de volta à moto. Agradeci demais.

Pedi um hambúrguer, mesmo sem fome. Foi a primeira coisa que comi desde a manhã anterior. Estava bom. No balcão, dois senhores conversavam. Escrevi uma frase no aplicativo de tradução e perguntei se algum deles teria gasolina para vender. Um respondeu: “Moi” (eu). Ufa!
Perguntou quanto eu queria e pedi só uma garrafa. Depois pensei melhor e falei que seriam 2,5 litros. Ele mediu mais ou menos e me entregou em um galão. Quando disse que a moto estava a 7 km, ele fez uma cara de pena. Paguei os 5,50 Euros, agradeci e me preparei para sair. Pouco depois, ele me chamou: ia me levar até a moto.
Fomos conversando, cada um no seu idioma, mas nos entendendo. Ele esperou eu colocar a gasolina e ligar a moto. Agradeci, devolvi o galão e segui para Caiena.

Cheguei ao primeiro posto e abasteci no sistema de autoatendimento. Depois entrei na cidade. Avenidas largas, muitos comércios modernos com grandes estacionamentos na frente — lembravam os dos Estados Unidos — levavam ao centro histórico, onde reservei um hotel. Foi o mais barato que encontrei na internet, mas ainda assim caro: 75 Euros. Pelo menos, o hotel era muito bom — só a internet é que era lenta.
Depois de um banho revigorante, saí para uma caminhada. Caiena é bem diferente do que eu imaginava: plana, com prédios históricos de 2 a 4 andares, muitas lojas, carros nas ruas, pessoas conversando e crianças brincando. Em uma praça, um grupo de idosos puxou conversa quando me viu com a câmera. Um falava português, uma senhora falava espanhol. Muito simpáticos.
Voltei ao hotel para descansar e me preparar para seguir viagem rumo ao Suriname.












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