20º dia – de San Antônio del Táchira a Cúcuta

15 km | Um dia tenso e inesquecível | A travessia mais perigosa da viagem

Acordei cedo, achando que estava preparado para o que enfrentaria naquele dia. Só que não. Arrumei a bagagem, coloquei na moto que estava na garagem do hotel e saí a pé para procurar um lugar onde pudesse comer algo. Encontrei uma lanchonete simples, onde pedi pão com ovo e uma limonada.

Na rua, o movimento já era grande. Muitos venezuelanos deixavam o país em busca de uma vida melhor.

Voltei para o hotel, peguei a moto e segui em direção à Puente Internacional Simón Bolívar. Precisei desviar de vendedores ambulantes, carregadores de malas e uma multidão que, aos olhos de um brasileiro, causava certo estranhamento. Logo fui parado por um bloqueio da Guardia Nacional Bolivariana. Um soldado veio falar comigo. Expliquei que tinha uma autorização do Seniat para sair com a moto do país. Ele disse que por aquele ponto não seria possível, pois a fronteira estava aberta apenas para pedestres. Mostrei o documento e ele chamou um superior, que veio de forma arrogante dizer que aquele papel “não valia nada”, porque o presidente havia determinado que nenhum veículo poderia cruzar para a Colômbia.

Perguntei se poderia conversar com alguém do Seniat e ele respondeu que eu poderia deixar a moto em um estacionamento e voltar a pé. Entrei no estacionamento e fui surpreendido pelo mesmo soldado com quem havia conversado antes. Com ele, um rapaz. Me abordaram dizendo que não adiantava tentar falar com o Seniat, mas que podiam me ajudar levando a moto para o outro lado em troca de USD$ 100. Respondi que isso era ilegal. Ele rebateu com frieza: “Na Venezuela, sim. Mas do lado da Colômbia, tudo certo. Você só vai precisar da autorização para circular, e isso é fácil.”

Fiz várias perguntas. Eles garantiram que tudo seria tranquilo e que eu teria o apoio de soldados da própria Guardia Nacional. Apesar da desconfiança, aceitei. Combinei que faria a imigração a pé e, depois, eles cuidariam de levar a moto até o lado colombiano.

Na fila da imigração, conversei com muitos venezuelanos vindos de várias partes do país, todos com o sonho de reconstruir a vida na Colômbia, Equador, Peru ou Chile. Enquanto isso, vendedores passavam a todo momento oferecendo água, refrigerantes, salgados, doces… Foi ótimo, pois o sol estava forte e era preciso se manter hidratado. Combinei com o rapaz atrás de mim na fila de nos revezarmos para ir ao banheiro, garantindo lugar para os dois. Em uma dessas saídas, aproveitei para almoçar. Comida simples, mas gostosa.

Depois de mais de seis horas na fila, recebi o carimbo de saída da Venezuela no passaporte. A entrada na Colômbia estava lotada e diziam que a espera seria de pelo menos mais quatro horas. Decidi procurar um hotel próximo da fronteira e voltar no dia seguinte para concluir os trâmites.

Voltei ao estacionamento, onde encontrei o rapaz da manhã. Ele me levou até uma rua próxima, onde estavam o soldado e outro colega, que eu não havia visto antes. Pediram que eu esperasse o “chefe”. Pouco depois, chegou um homem com quem conversaram rapidamente. Mais pessoas apareceram e me conduziram com a moto até um sítio próximo. Dali, passaram a empurrar a moto por uma trilha de terra, usada por contrabandistas que atravessavam mercadorias entre os dois países. O movimento era intenso, parecia uma trilha de formigas.

E então a situação ficou tensa. Fui levado até um ponto onde estava o “chefe” do grupo. Com uma arma na cintura, ele foi direto: queria mais dinheiro. Disse que teria que “dividir” com autoridades do lado colombiano. Respondi que não tinha mais nada — nem para a gasolina. Pretendia ir até um banco em Cúcuta para retirar dinheiro. O homem ficou nervoso, sacou a arma e engatilhou, sem apontá-la diretamente para mim, e disse que sabia que eu tinha dinheiro escondido.

Apesar da tensão, mantive a calma. Disse com firmeza que poderiam me revistar à vontade. Na verdade, eu carregava o restante do dinheiro muito bem escondido, e tinha certeza de que eles não encontrariam. Ainda assim, propus pagar o valor caso me deixassem ir até o banco. Eu sabia que precisava sair dali o quanto antes e ir para um lugar mais movimentado — longe da influência daquele grupo.

Para minha surpresa, ele aceitou. Ordenou que dois “capangas” me acompanhassem até Cúcuta, onde esperariam do lado de fora do banco enquanto eu retirava o dinheiro. Subi na moto, e os dois foram de garupa — numa cena surreal.

Guiado por eles, percorri o caminho até o centro da cidade. Cúcuta era outro mundo: maior, mais bonita e infinitamente mais organizada que San Antonio. Paramos em frente a um banco. Entrei, enquanto eles ficaram vigiando a moto.

Tentei sacar dinheiro no caixa eletrônico usando o cartão de crédito, mas sem sucesso. Várias tentativas, todas com mensagem de erro. Mas eu tinha um plano: escondido em um bolso interno, levava algumas notas de emergência. Sem que ninguém percebesse, peguei discretamente uma nota de USD$ 100.

Na saída, entreguei a cédula aos “comparsas”. Eles pegaram e foram embora. Finalmente estava livre. E na Colômbia.

Já era fim de tarde. Ainda precisava fazer a migração e a importação temporária da moto, mas não havia mais tempo para tudo isso naquele dia. Fui procurar um hotel por perto e encontrei um muito bom, com estacionamento incluso, mas com preço alto.

Descansei um pouco e, à noite, saí para jantar. Achei um restaurante excelente. Pedi um prato curioso: coxa de frango, empanadas, batata frita e rolinho primavera. Tudo acompanhado de uma Coca-Cola. Um jantar exótico e delicioso.

Voltei para o hotel decidido a dormir cedo. No dia seguinte, teria que resolver toda a burocracia para legalizar minha entrada e da moto na Colômbia, e então seguir viagem.


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