Entre os desafios mais icônicos do motociclismo mundial, a travessia dos Himalaias pela estrada que liga Manali (no estado de Himachal Pradesh) a Leh (capital da região de Ladakh) ocupa lugar de destaque. São 475 km cortando uma das cadeias montanhosas mais altas e inóspitas do planeta, em uma rota que chega a ultrapassar os 5.000 metros de altitude. A aventura é considerada um verdadeiro rito de passagem para motociclistas mais experientes.
A forma mais tradicional — e simbólica — de realizar essa jornada é a bordo de uma Royal Enfield, motocicleta de origem britânica, atualmente fabricada na cidade indiana de Chennai. De estilo retrô e mecânica simples, a Royal Enfield não é exatamente moderna, mas se adapta como poucas às estradas esburacadas e aos trechos de cascalho e lama que caracterizam esse percurso extremo.
Essa mesma estrada foi cenário do livro Um brasileiro e uma moto no Himalaia Indiano, onde relato minha própria experiência nessa travessia inesquecível, enfrentando os desafios do clima, da altitude e da cultura local em uma Royal Enfield. Para quem quer uma visão em primeira pessoa da jornada, o livro está disponível na Amazon, neste link.
Uma estrada nos limites do céu
Grande parte da rota permanece acima dos 3.000 metros de altitude e atravessa cinco passagens de montanha, sendo a mais alta Tanglang La, com 5.328 metros. A primeira é a famosa Rohtang La, destino turístico popular entre os indianos por conta da neve. A partir dali, a estrada se torna domínio quase exclusivo de caminhões de carga, veículos do exército e aventureiros sobre duas rodas.

A estrada só fica acessível por um curto período do ano: geralmente de maio a outubro, dependendo das condições climáticas. O resto do ano, ela é fechada devido à neve intensa. Mesmo no verão, a rota apresenta riscos reais: enchentes por degelo, deslizamentos de terra, mudanças bruscas de clima e falta de estrutura médica tornam o trajeto desaconselhável para iniciantes.
Planejando as paradas
A maioria dos viajantes leva entre dois e três dias para completar o percurso. Um dos pontos estratégicos para pernoite é Keylong, a cerca de 3.100 metros de altitude. A cidade é o último local com hospedagem convencional — hotéis e pousadas — e oferece a chance de aclimatar o corpo para as altitudes mais extremas à frente.
O segundo pernoite mais comum é em Sarchu, onde há acampamentos improvisados e algumas opções mais estruturadas conhecidas como “luxury camps”, com tendas espaçosas, camas e até banheiros. As opções mais econômicas incluem tendas feitas com paraquedas usados, colchões rudimentares e nenhuma instalação sanitária.
A partir de Sarchu, a estrada ganha contornos ainda mais dramáticos. Os Gata Loops, uma sequência de 21 curvas fechadas, levam ao Lachalung La (5 059 m), seguido pelas paisagens surreais das Gargantas de Pang. Depois vem o Planalto de Morey e a subida final para Tanglang La, antes da descida para Leh.

Enfrentando o mal da altitude
Um dos maiores perigos da jornada é o Mal Agudo da Montanha (AMS). A partir de 3.000 metros de altitude, os sintomas podem aparecer mesmo entre os mais preparados: dor de cabeça, insônia, náusea, falta de ar e tosse seca são os mais comuns. Em casos graves, pode ser fatal.

Entre Baralacha La (4.950 m) e Tanglang La, a estrada permanece por longos trechos acima dos 4.000 metros. A noite em Sarchu, situada a cerca de 4.200 metros, costuma ser a mais crítica. A melhor prevenção é subir devagar e se aclimatar bem, além de estar preparado para descer imediatamente caso os sintomas se agravem.
O que levar na bagagem
Roupas impermeáveis e quentes são essenciais, assim como um bom saco de dormir — especialmente para a noite em Sarchu. Capacete e equipamentos de proteção não são exigidos por lei nessa parte da Índia, mas são altamente recomendados.

Também é importante levar lanches leves, já que os dhabas (restaurantes simples de beira de estrada) servem basicamente dhal (lentilhas), arroz, omeletes e macarrão instantâneo. Não se esqueça de óculos escuros, protetor solar e protetor labial, pois o sol forte combinado com o vento frio pode causar queimaduras mesmo com céu nublado.
Gasolina e manutenção
Outro ponto crítico é o abastecimento. A última bomba de gasolina depois de Manali fica em Tandi, a 365 km de Leh. Se sua moto não tem um tanque de pelo menos 25 litros, é fundamental carregar gasolina extra em galões. O consumo aumenta consideravelmente nas grandes altitudes.

É altamente recomendável saber resolver problemas mecânicos básicos. Royal Enfields são resistentes, mas não imunes a falhas. Não há oficinas ao longo da estrada. Leve peças sobressalentes como câmara de ar, vela de ignição, cabos de acelerador e embreagem, freio dianteiro e uma lâmpada para o farol. Caso tenha um problema sério, a única saída pode ser convencer um caminhoneiro a rebocar sua moto até Leh — o que pode custar caro e levar horas (ou dias).
Conclusão:
A estrada Manali-Leh não é apenas uma viagem; é uma provação. Mistura de desafio físico, resistência psicológica e contemplação espiritual, esse percurso pelo topo do mundo exige preparo, respeito e coragem. Para quem consegue completá-lo, as memórias duram para sempre — assim como o orgulho de ter domado um dos caminhos mais extremos do planeta sobre duas rodas.











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