Depois de uma noite diferente, acordamos cedo. Nossos simpáticos anfitriões prepararam o café da manhã: parantha com chá — típico e saboroso. Organizamos a bagagem nas motos e fomos para a estrada mais uma vez.





O asfalto tinha seus desafios: buracos e quebra-molas que pareciam mais rampas — saliências de mais de um metro de altura e cerca de quatro metros de comprimento, construídas para escoamento da água da chuva. Estavam bem desgastadas, cheias de fissuras, e obrigavam qualquer veículo a reduzir a velocidade drasticamente.
O tráfego era um caos típico das regiões mais populosas da Índia: caminhões, ônibus, carros, motos, bicicletas, pedestres e até animais se misturavam em um balé confuso e barulhento. Foram 80 km em mais de duas horas, num verdadeiro teste de paciência e atenção.
Em um trecho em obras, a estrada virou lama pura. Minha moto escorregava para todos os lados, o que me deixou bem inseguro. Decidi ali mesmo que, assim que chegássemos a Srinagar, trocaria o pneu traseiro por um novo.




Chegamos à cidade sob um calor sufocante. Começamos a procurar hospedagem. O primeiro hotel era exclusivo para muçulmanos. Vimos outros, mas ou eram sujos, ou caros, ou ambos. Até que encontramos um bom hotel — espaçoso, limpo, e com um dono bem falante, que ainda fez um desconto camarada.

Deixamos as bagagens no quarto e fomos resolver pendências das motos. Eu precisava trocar o pneu e comprar óleo para o motor. O Rafael queria soldar a armação de metal que segurava a bagagem, quebrada há dias pelos solavancos da estrada.


Não encontrei o pneu facilmente, mas o Ankur — nosso amigo e guia local — indicou um conhecido que foi até o hotel e nos levou até uma loja. Lá encontrei o pneu novo. Depois seguimos até uma borracharia. O rapaz trocou o pneu em poucos minutos, enquanto nós, na estrada, havíamos demorado quase três horas para a mesma tarefa. Compramos também o óleo do motor e, com a ajuda do novo amigo, seguimos até a beira do grande lago, onde conhecemos os barcos iluminados — típicos da região de Srinagar. Um lugar encantador.




Mais tarde, jantamos em um restaurante e pedimos cordeiro preparado de três formas diferentes. Uma delícia, mesmo com a pimenta forte.


Foi durante o jantar que o Rafael me contou sua decisão: cancelar a ida a Ladakh e retornar a Nova Délhi. O atraso de quatro dias no cronograma tornava impossível seguir com o plano original sem arriscar perder os voos de volta ao Brasil. Confesso que fiquei chateado. Meu sonho era seguir adiante e explorar as estradas mais altas do mundo. Pensei até em continuar sozinho. Mas, refletindo com calma, percebi que havíamos chegado até ali juntos — e seria justo voltarmos juntos também.
Abri mão de Ladakh, frustrado, mas em paz com a decisão. Afinal, a aventura já tinha nos proporcionado momentos únicos. E sabíamos que ainda havia muito pela frente antes de encerrar a jornada.











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