Que noite terrível! Não só pelo frio cortante e pelo desconforto do lugar, mas principalmente pela dor no ombro — que me fez duvidar se conseguiria continuar a viagem… ou até se valia a pena seguir em frente. Ainda tinha muitos quilômetros pela frente e boa parte deles em trechos complicados.
Como se não bastasse, lá pela meia-noite, chegou um caminhão lotado de trabalhadores da estrada. O motorista e um colega se jogaram nas camas do dormitório comunitário, enquanto o restante ficou enrolado em cobertores na carroceria, conversando sem parar. Tive que sair no frio e gritar pra ver se calavam a boca. Funcionou — mais ou menos.
Quando amanheceu, ainda rolando na cama, tomei uma decisão: não valia a pena ficar parado esperando a dor passar. Se fosse devagar, talvez conseguisse seguir. E, se o sono apertasse, era só montar a barraca em algum canto e descansar o necessário.
O banco da moto amanheceu coberto por uma fina camada de gelo. Às 7h30, parti de Sarchu. A estrada? Uma tragédia: cascalho, buracos e muito desconforto a cada solavanco — dor no ombro garantida. O frio era tão intenso que os dedos pareciam congelar, mesmo com luvas duplas. Às 9h, depois de uma hora e meia, eu tinha feito apenas 30 km — e sem uma única parada.
Finalmente apareceu um trecho asfaltado! Não que estivesse perfeito — cheio de irregularidades — mas deu pra acelerar um pouco. Pena que durou só 10 km. Mesmo passando por paisagens deslumbrantes, não tive ânimo para fotos. Só parei quando realmente fui obrigado, como numa cachoeira que cruzava a estrada — precisei estudar como atravessar sem encrencar.

Cheguei ao Baralacha La, a 4.890 metros de altitude. Parei rapidinho pra beber água e aliviar a bexiga, mas o frio era tanto que fiquei só o tempo mínimo ali. Com a descida da montanha, a temperatura ficou um pouco mais suportável, mas a ponta dos dedos continuava doendo — e depois descobri que os dois indicadores estavam com a pele preta e rachada. Congelamento leve, provavelmente.
Cada buraco era um tormento nas costas e no ombro. Passei por um pequeno riacho parcialmente congelado e nem pensei em parar pra foto. Segui direto. Voltei a pegar trechos asfaltados, mas muitos estavam destruídos por avalanches e deslizamentos. Em várias partes, precisei atravessar água corrente por cima de pedras escorregadias — travessias complicadas e dolorosas.

Em Darcha, parei em um posto de controle e mostrei os documentos. Menos de 1 km depois, novo posto, mesma coisa.
Cheguei a Keylong por volta do meio-dia. Ainda cogitei seguir até Manali, mas as dores me convenceram a ficar. Voltei pro mesmo hotel da ida, e peguei até o mesmo quarto.
Precisava consertar o suporte da bagagem e o protetor de motor — e encontrei uma serralheria na beira da estrada. O serviço ficou ótimo e custou pouco mais de 3 dólares. Ali perto, uma oficina fez a revisão completa: troca de óleo, ajuste da corrente, limpeza de vela e filtro de ar, checagem dos freios. Tudo por 8 dólares e duas horas de serviço. Foi a primeira manutenção na Royal Enfield desde o início da viagem — e já tinham sido mais de 2 mil km de estrada, boa parte em condições hostis.
A internet do hotel estava péssima quando cheguei, mas à noite melhorou. Consegui subir algumas fotos e vídeos no Facebook e falar com a família. Isso me deu um gás! O ânimo voltou. Decidi: no dia seguinte, a estrada me veria de novo.
Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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