3º dia – De Recong Peo a Nako: estradas épicas, burocracias e o início do Spiti Valley

Acordei antes das 7 da manhã, animado feito criança em manhã de Natal. Afinal, era o meu primeiro encontro com a neve nessa viagem! As montanhas ao redor de Recong Peo estavam com os picos branquinhos, e o céu azul tornava a cena ainda mais cinematográfica — cenário digno de pôster de aventura.

O plano era pegar a permissão para entrar no Spiti Valley — uma exigência comum nessa região de fronteira entre Índia e Tibete, cheia de restrições militares por causa da proximidade com o Tibete (China). O escritório só abria às 10h, mas um pouco antes já havia fila de estrangeiros doidos pra cruzar esse trecho lendário do Himalaia.

Na fila, um grupo de motociclistas europeus chamava a atenção: todos com motos big trail, carro de apoio e aquela estrutura que faz parecer que você está numa expedição da National Geographic. Entre eles, um motoqueiro solitário de Bangladesh — infelizmente, ele foi barrado na porta. O funcionário do governo avisou que não poderia emitir o passe por conta da nacionalidade dele. Índia e Bangladesh são vizinhos com uma relação diplomática meio complicada, e isso pesa nessas autorizações.

Minha autorização saiu sem problemas, embora o processo tenha sido bem burocrático — típico da Índia.

Às 11h, partimos. Primeira parada: Chandika Devi Temple, um templo hindu encravado nas montanhas de Recong Peo. Para entrar, como manda a tradição, tirei as botas e as deixei do lado de fora. Fiquei por lá uns 30 minutos, observando os detalhes e sentindo o clima espiritual do lugar.

Depois, seguimos até Kalpa, uma vila charmosa pendurada na encosta da montanha. A estrada até lá é asfaltada, mas cheia de curvas em cotovelo (aquelas de 180 graus) que fazem qualquer GPS pedir arrego. No alto da cidade, visitamos o monastério budista, onde vi pela primeira vez as rodas de oração tibetanas — aquelas que você gira com a mão enquanto faz um pedido ou mantra. Mística pura.

Já passava da 1 da tarde quando finalmente pegamos a estrada de verdade, voltando pra NH 5, uma rodovia que acompanha o leito do rio Sutlej. Nosso destino era Tabo, a cerca de 150 km. Só que, no Himalaia, 150 km podem ser uma eternidade. A estrada virou uma mistura de areia, terra solta e cascalho — e rodar em duas rodas ali exigia muita atenção (e paciência).

Com uma hora de viagem, tínhamos feito apenas 20 km. Paramos numa fonte à beira da estrada. O Ankur, meu parceiro indiano nessa aventura, disse que a água era “sagrada” e abençoada por um dos deuses hindus. Ele encheu a garrafa com fé. Eu, com meu estômago sul-americano desconfiado, preferi não arriscar.

Seguimos mais 25 km em uma hora e meia até avistar o templo Shrimati Dhang, cravado na rocha, bem na beira da estrada. Uma cena surreal! Paramos, tiramos fotos e o Ankur me passou um “tilak” (aquela marquinha vermelha na testa), dizendo que isso e o templo de Recong Peo me protegeriam na estrada. Fiquei na torcida.

A estrada seguiu alternando trechos razoáveis com verdadeiros campos de batalha. Às 17h, havíamos feito só metade do caminho até Tabo. Paramos numa vila pequena pra esticar as pernas e tirar fotos de uma ponte de engenharia duvidosa, mas visual incrível.

Alguns quilômetros adiante, cruzamos novamente o rio Sutlej, e a paisagem começou a mudar. As montanhas ficaram mais secas, pedregosas, e o cenário ganhou aquele ar de faroeste tibetano. Era o início oficial do Spiti Valley — uma região remota, quase lunar, com cultura budista e altitudes de tirar o fôlego. Literalmente.

As curvas em zigue-zague voltaram com tudo e a estrada subia sem parar. Chegamos a mais de 3.000 metros de altitude. O frio ficou mais intenso, o vento cortava e o sol já tinha dado tchau. Viajar à noite por ali foi pura adrenalina: precipícios de um lado, paredões de pedra do outro, e um silêncio gelado que parecia de outro planeta.

Às 19h30, com 122 km percorridos desde Recong Peo, chegamos exaustos a Nako, uma vila a 3.600 metros de altitude, pertinho da fronteira com o Tibete. Encontramos vaga no Lovon Hotel, mas o nome bonito não combinava com o conforto: sem água quente (segunda noite sem banho!), sem toalha, sem papel higiênico e com lençóis suspeitos. Dormi no saco de dormir, coberto por camadas de mantas pesadas pra aguentar o frio.

Mas quer saber? A aventura estava só começando — e o Spiti Valley prometia muito mais surpresas nos dias seguintes.


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