Apesar de ainda ter muitos dias de estrada pela frente, a sensação era de fim de viagem. A partir dali, começaria oficialmente meu retorno para o sul, deixando para trás a imensidão de Ladakh. Mas não seria um simples “tchau”: o trecho entre Leh e Manali é um dos mais desafiadores do Himalaia. Eu tinha pela frente 480 km em três dias de muita poeira, altitude, emoção… e um pouco de sofrimento.
O dia começou esquisito. Acordei com uma mancha de sangue no travesseiro – resultado de mais um sangramento nasal por causa da altitude. Isso já vinha acontecendo de leve nos últimos dias, mas dessa vez foi mais intenso e me deixou preocupado. Somado à saudade da família, me bateu um baixo astral daqueles. Mas como desistir não era opção, sacudi a poeira e fui em frente.
Saí do hotel pouco antes das 8h30. Já tinha passado por aquela estrada outras vezes, mas nunca tinha parado para ver os palácios e monastérios budistas ali por perto. Então aproveitei o clima ensolarado e fiz algumas fotos da fachada do Palácio de Shey, dos stupas em Thiksey e do imponente Monastério de Thiksey.




Logo adiante, dei de cara com um comboio interminável de caminhões do exército. Eles tomavam toda a estrada e ainda atrapalharam minha tentativa de registrar um trecho lindo da paisagem, com árvores de folhas amarelas dançando ao vento. A estrada estava com asfalto novo, mas cheia de curvas que não deixavam a viagem render.




Às 10h, parei em um dhaba numa vila chamada Lato para comprar água. Nada feito. Fui encontrar água só mais adiante, em Runtse, onde parei em outro dhaba à beira da estrada. Paguei mais caro porque a dona não tinha troco – típico golpe leve de turista desavisado.

À medida que subia a montanha, a temperatura despencava e a moto perdia potência. Nas subidas, mal passava dos 50 km/h. A estrutura que segurava minha bagagem ainda quebrou num ponto de solda, e tive que improvisar com arame.

Cheguei ao passo de Taglang La (5.328 metros) perto do meio-dia – minha quarta passagem por ali. O vento estava cortante e a sensação térmica despencava. Conheci dois indianos de Amritsar, cidade que eu ainda pretendia visitar nos próximos dias.


Antes de Debring, enfrentei um vento forte e carregado de areia. Atravessei com cuidado e, felizmente, sem incidentes.




Parei em um dhaba simples (como todos por ali), onde comi um lanche feito por uma senhora com zero preocupação higiênica – como comprovam as fotos que tirei dela em ação. O local tinha camas para abrigar viajantes perdidos pela noite fria. Era 13h.



O vento contrário seguiu firme, exigindo esforço da moto e de mim. Passei por Pang, que dias antes estava coberta de neve. Dessa vez, céu limpo, mas o frio seguia implacável. Como ainda era 14h30, resolvi seguir até Sarchu, 60 km adiante.
Mal sabia eu que seriam os 60 km mais sofridos da viagem. A estrada estava horrível: cascalho solto, muita poeira, vento lateral e pedras traiçoeiras. A traseira da moto dançava, a frente saía da linha e quase caí várias vezes. Até parei para ver se o pneu tinha furado, de tão instável que estava. Passei por uma cachoeira congelada – uma beleza congelada, literalmente.





Cruzei três passagens de montanha praticamente em sequência: KangLa (4.878 m), LachungLa (5.065 m) e NakeeLa (4.739 m). A falta de oxigênio pesava. Cada metro exigia esforço.








43 km antes de Sarchu, em uma descida com curvas fechadas, dei de cara com uma pick-up subindo. Estava distraído, e a estrada estreita não permitia passagem dos dois veículos. Fiquei nervoso, freei com tudo, a roda da frente derrapou na areia e fui ao chão. Bati forte o ombro e deslizei por alguns metros estrada abaixo. A moto vazava gasolina. Levantei rápido e a coloquei de pé. O motorista, que não falava inglês, só conseguiu fazer sinais. Parecia mais assustado que eu. Sumiu na poeira.
Resultado da queda: protetor de motor quebrado, punho e manete arranhados, espelho ralado, bolsa lateral com um rasgo… e meu ombro doendo muito. As costas também. Não conseguia levantar o braço direito. Ainda assim, subi na moto e segui viagem.
Sofrimento. Cada buraco era como uma martelada nas minhas costas. Passei pelos temidos Gata Loops, um trecho com 21 curvas em zigue-zague pela encosta da montanha. Nem tive ânimo para apreciar.
Um trecho com asfalto surgiu – irregular, mas era asfalto! Ainda assim, a moto pulava e doía tudo. No caminho, cruzei com um lobo do Himalaia caminhando solitário pela estrada. Parei longe e fiz a única foto pós-acidente.

Cheguei a Sarchu às 17h30. O cenário era de fim de mundo: cerca de vinte dhabas feitos de zinco, com camas encardidas lado a lado. Consegui um “quarto” individual para ao menos ter alguma privacidade. O banheiro? Um buraco com um barril de água.



Foi a pior noite da viagem. Frio, dores, desconforto e o pensamento martelando: o Himalaia cobra seu preço.
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