15º dia – De Leh a Karzok – O paraíso escondido atrás do inferno: rumo ao Tso Moriri

O destino do dia era o Tso Moriri, um dos lagos mais belos e remotos do Himalaia. Para chegar até lá, eu tinha duas opções: seguir pela vila de Kiari e Chumatang, ou voltar pela mesma estrada de Taglang La, por onde já havia passado. Detesto repetir rota, mas quem já cruzou o Himalaia sabe que cada quilômetro pode ser uma surpresa — e nem sempre boa. E foi exatamente isso que me fez escolher a via repetida.

Várias pessoas com quem conversei em Leh me desaconselharam fortemente a estrada por Chumatang. Segundo eles, estava em péssimo estado. Como as informações convergiam demais para ser coincidência, resolvi ouvir a voz da experiência local.

A internet, como nos dias anteriores, continuava um item de luxo fora de catálogo em Leh — nada de contato com o Brasil.

Às 7h30, já tinha tomado um lanche, ajeitado a bagagem, pago a hospedagem e estava a caminho. Abasteci a moto num dos raros postos da região e segui pela estrada sul em direção ao Tso Moriri.

Às 9h, fiz uma pausa sob umas árvores de folhas amareladas. Enquanto bebia água e aliviava a bexiga, lembrei que ainda não tinha lubrificado a corrente. Improvisei um cavalete com pedras e fiz o serviço ali mesmo. Coisas de quem viaja sozinho e no improviso.

Passei por Taglang La sem parar — já tinha marcado presença ali antes. Em Debring, parei para confirmar qual trilha levaria até o lago. Uma senhora tibetana que mal falava inglês me indicou que era por ali mesmo. Comi uns biscoitos, bebi água e segui estrada afora.

Quer dizer, estrada é modo de dizer: o que veio a seguir era uma mistura de asfalto morto com cascalho solto. Um trecho exigente, onde qualquer distração poderia custar caro. O Tso Kar, outro lago da região, estava completamente seco, deixando à mostra um solo acinzentado e marcado pelo vento.

O cenário era ao mesmo tempo belo e desolador. Montanhas arenosas, vales com vegetação seca e um frio que me obrigou a vestir todas as camadas possíveis.

Depois, um trecho com asfalto novo — mas tão irregular que a moto pulava como um potrinho selvagem. Na sequência, mais pedras, dessa vez pontudas, ameaçando rasgar os pneus. Entroncamentos sem sinalização, e eu me guiava apenas pelas marcas de pneus na terra. Era o lugar mais isolado em que estive até então.

A certa altura, cheguei a uma vila que deduzi ser Sumdo. Nada indicava o nome, mas bati o olho e pensei: é aqui. Parei para comprar água em um minimercado quase vazio, comi mais biscoitos e tirei fotos de crianças brincando e de uma senhora com o rosto marcado pela dureza da vida.

Dali, peguei uma estrada que beirava o surreal: asfalto mal remendado, buracos pintados de preto como se fosse possível enganá-los. A compensação foi um lago belíssimo que apareceu no caminho — cenário digno de cartão-postal. Fiz questão de parar para registrar.

Antes de chegar a Karzok, passei por um posto de controle militar. Documentos verificados, perguntas feitas: se eu tinha GPS, câmeras, o que estava fazendo ali… Tudo na base do interrogatório.

E então cheguei a Karzok, uma vila com uma das paisagens mais espetaculares do Himalaia… e uma das estruturas mais feias que já vi. Uma cerca do exército margeia o lago, e as construções da vila pareciam um aglomerado improvisado. Fiquei tão decepcionado que nem consegui tirar uma foto decente do Tso Moriri.

Parei num tal de “Eco Resort”, com o dobro do preço de qualquer lugar em que eu já tinha ficado. Imaginei algo bacana. Ilusão. Era um muquifo sem banheiro. Segui em frente e achei um hostel simples, mas limpo, com jantar e café inclusos, por menos da metade do preço. Energia só das 19h às 21h. Banho? Nem pensar.

Pra fechar o dia com chave de ouro, conheci um russo completamente maluco. Misturava russo com inglês e falava por sinais, como se estivesse num teatro mudo. Um personagem à parte.


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