O dia começou cedo: fechei a conta do hotel, prendi a bagagem na moto e fui direto para a loja onde aluguei a nova companheira de estrada — agora com a tal exigida placa local. Quer dizer… “placa” é modo de dizer. O rapaz da loja simplesmente pegou um pincel atômico e escreveu o número de registro no espaço onde deveria estar a placa. Simples assim. Sem contrato, sem assinatura, só no fio do bigode. A única “garantia” era uma cópia do meu passaporte.
Com o aluguel pago, começou o verdadeiro desafio: trocar o suporte de bagagem da moto de Délhi para a nova. A oficina virou palco de uma batalha épica com ferramentas, martelo, marreta e muita paciência. Mas no fim, deu certo. A moto antiga ficou guardada na loja, e a nova já estava pronta pra estrada. Quase.

Hora de encarar o segundo desafio do dia: conseguir a bendita permissão para circular por Ladakh. Fui até a agência de turismo e a resposta foi a mesma da véspera: sem chance para viajante solo. O sistema de emissão só aceitava a inclusão se houvesse um grupo. A mulher até tentou, mas o sistema travava na falta de outros nomes.
Parti para o escritório do governo. Lá, a resposta também foi negativa. Voltei à agência e praticamente supliquei ajuda. A atendente manteve a postura: “tente outras agências e veja se alguma está formando grupo.” Respirei fundo e fui de agência em agência, batendo de porta em porta. Nada.
Já estava achando que a viagem ia naufragar em burocracia. Voltei à primeira agência, meio desesperado, dizendo que pagaria o que fosse se alguém conseguisse me incluir em algum grupo. Foi quando apareceu um figura carimbada, daqueles que ficam pelas redondezas tentando ganhar um troco ajudando turistas. Lembrava de ter conversado com ele no dia anterior. Ele disse: “Te ajudo.” E partimos numa nova maratona de agências.
Algumas pessoas pelas ruas já me reconheciam: “Conseguiu a permissão?” — me perguntavam sorrindo, como se torcessem por mim. Finalmente, em uma agência movimentada na rua principal (que por aqui também é chamada de “estrada”), uma mulher de traços mongóis me disse que tinha um grupo fechado e podia me incluir. Aleluia!
Fechamos por USD 11,30 — caro para os padrões locais, mas um achado diante da situação. Entreguei meu passaporte e combinamos que à tarde eu voltaria para buscar o documento.
De volta ao hotel, renovei a estadia por mais uma noite. A viagem teria um dia de atraso, mas agora havia esperança no ar. Estava tão esgotado que preferi não sair mais. Apenas almocei com um espanhol simpático que conheci no hotel e depois descansei. No fim da tarde, fui à agência, paguei e peguei a permissão e meu passaporte de volta. A partir daquele momento, eu estava, oficialmente, em um grupo formado por: um suíço, um tailandês, um bengalês, um taiwanês e um inglês. Na prática, claro, eu continuaria sozinho pelas estradas do Himalaia.
No caminho de volta, fui cumprimentado por vários comerciantes que me viram perambulando de agência em agência. Entrei na primeira agência e deixei uma gorjeta para o rapaz que me ajudou. Ele mereceu.
O dia foi tão puxado que só tirei três fotos: uma da troca do bagageiro, outra da permissão (que quase virou lenda), e uma do Palácio de Leh iluminado à noite, visto da janela do quarto.

Missão cumprida. No sufoco, mas cumprida.
Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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