Acordei ansioso. Nesse dia eu finalmente chegaria a Ladakh, região onde estão as estradas e as passagens de montanha mais altas do mundo, algumas das paisagens mais fantásticas do Himalaia e o destino principal desta minha jornada.
Demorei um pouco para pegar a estrada. Fiz um lanche no restaurante do próprio hotel, paguei as despesas, arrumei a bagagem na moto e iniciei a viagem por volta das 8h30.

Como a moto é muito econômica, acreditei que os 13 litros do tanque seriam suficientes para percorrer os 480 km até Leh, que eu faria nos próximos três dias. Ainda assim, planejava abastecer em Jispa, 23 km adiante, no último posto do percurso. Mas, apesar de ter olhado atentamente, não encontrei o posto quando passei pela cidade. Segui viagem mesmo assim.
Seis quilômetros depois, em Darcha, precisei parar em um posto policial para apresentar documentos e preencher meus dados em um enorme livro.

Logo depois, me vi preso atrás de um comboio de caminhões do exército indiano. A estrada de cascalho era estreita, cheia de curvas, subidas e descidas, o que dificultava ultrapassagens. Em um ponto, um caminhão vindo no sentido contrário bloqueou completamente a passagem. Nem para a moto havia espaço. Levei um bom tempo esperando que ele desse ré até encontrar um ponto onde fosse possível passar.
Passei por uma base do exército num lugar belíssimo, com casas metálicas que me fizeram imaginar o frio que aqueles soldados enfrentavam ali. Nesse trecho, havia uma fina camada de asfalto, o que ajudava um pouco a manter um bom ritmo.


Mais à frente, o asfalto desapareceu completamente, dando lugar a uma estrada de terra e pedras com várias quedas d’água cruzando a pista — algumas com fundo pedregoso, difíceis de atravessar com a moto.
O tempo estava ótimo: ensolarado, temperatura agradável. A estrada começou boa, com alguns buracos aqui e ali, permitindo certa velocidade. Mas à medida que os quilômetros avançavam, o piso se deteriorava. O asfalto sumiu e o cascalho tomou conta.




A altitude, que no início variava entre 3.200 e 3.600 metros, foi subindo: 3.800, 4.000, 4.200… até chegar aos 4.850 metros na primeira grande passagem do dia, o Baralacha La. Eram 11h30. As montanhas ao redor estavam cobertas de neve.





Às 13h30 cheguei a Sarchu, povoado sazonal a 4.300 metros de altitude, que só existe de maio a outubro. Nos outros meses, a neve cobre tudo e bloqueia o acesso. O vilarejo é formado por dhabas — restaurantes simples de estrutura metálica — que oferecem comida e pernoite a quem se aventura pela região. Um verdadeiro oásis no deserto gelado das montanhas. Logo na entrada, mais uma base do exército e um novo posto de checagem de documentos.
Parei em um dos dhabas, onde fui atendido por uma senhora de mãos calejadas. Apesar das condições de higiene precárias, pedi dois omeletes com pão e chá de gengibre e limão. O óleo da frigideira parecia ter sido reutilizado incontáveis vezes. Nos comunicamos por mímica. Tirei algumas fotos dela e, quando mostrei, ela sorriu, perguntou meu nome e escreveu os sons em seu caderno com a escrita local.




Na saída da vila, outro posto de checagem, pouco mais de 500 metros depois do anterior. Mais documentos.

Segui viagem, e a paisagem ficava cada vez mais impressionante. A estrada passou a acompanhar o rio Tsarap, de águas azuladas e cristalinas. Logo cheguei ao famoso Gata Loops — um trecho em zigue-zague com 21 curvas fechadas que fazem a estrada subir rapidamente dos 4.200 para os 4.700 metros. O asfalto está sendo refeito nessa parte, o que dificultava um pouco a passagem. No topo, um marco indicava a chegada ao Nakee La, a 4.739 metros de altitude.




No local, encontrei um ciclista da República Tcheca com duas bicicletas. Perguntei onde estava seu companheiro e ele respondeu que viajava com a namorada, que havia ido ao “toilet”. Pretendiam chegar também a Pang naquele dia. Enquanto tirava fotos do lugar, uma moça muito bonita saiu de trás de um barranco, me cumprimentou, pegou a bicicleta e os dois seguiram viagem.


Segui também. A estrada agora apresentava asfalto em péssimo estado, com ondulações que faziam a moto saltar como um cabrito. A altitude seguia elevada — sempre acima dos 4.700 metros — até alcançar o ponto mais alto do dia: o Lachulung La, a 5.065 metros. Eram 16h.

Durante todo o trajeto, a vegetação era quase inexistente. Um verdadeiro deserto de altitude: seco, arenoso, frio, cortado por quedas d’água vindas do degelo que descem em direção aos rios nos vales. Muitas curvas e pisos variados: terra, areia, pedras.


Pouco depois das 17h30 cheguei à vila sazonal de Pang, a 4.602 metros. Ao contrário de Sarchu, os dhabas ali eram feitos de pedra e barro. Parei em um e perguntei se havia lugar para dormir. O rapaz me mostrou um cômodo com várias camas lado a lado. Perguntei por um quarto individual e ele me levou aos fundos, onde havia um barraco simples com paredes de barro e teto de zinco. Dentro, uma cama com tapetes improvisando o colchão e uma mesinha de madeira no canto. Aceitei a hospedagem.

Depois de fechar o valor, fui até o “restaurante” e pedi arroz com vegetais cozidos e chá. Sentia uma leve dor de cabeça por causa da altitude, mas preferi não tomar remédio.
Conversei com um inglês que também viajava de moto, vindo de Leh. Ele conhecia o Brasil e pretendia voltar para viajar pelo país. Comentei sobre os perigos das nossas estradas — o movimento intenso e a velocidade dos veículos — e ele ficou um pouco desanimado.
Foram 9 horas para percorrer os 116 km entre Keylong e Pang. Um dia exaustivo, duro, belíssimo — e absolutamente inesquecível.

Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











Deixe uma resposta