O 16º dia da viagem amanheceu com uma sensação nova: preguiça de pegar a estrada. Pela primeira vez, bateu aquele desânimo. Talvez fosse o peso da altitude, talvez o cansaço acumulado, ou talvez o fato de eu ter que encarar exatamente o mesmo caminho de volta até Leh. Pior: um russo doido que conheci na véspera — que se comunicava por mímica — me garantiu que a outra rota alternativa era ainda pior. Sem atrativos e num estado lamentável.
A noite anterior foi tão sem graça quanto a vila de Karzok. Energia acabou cedo, não tinha o que fazer, e fui dormir por volta das 21h — mais por tédio do que por cansaço. Às 4h da manhã já estava rolando na cama, sem conseguir pregar o olho de novo. Quando levantei, não tinha água nem para lavar o rosto. Escovei os dentes com água mineral, comi o lanche incluso na hospedagem e arrumei a bagagem na moto.

Por volta das 7h30, já estava na estrada. Sujei as mãos durante o processo de amarrar as coisas na moto, mas não havia onde lavá-las. Uns 10 km depois, parei na beira do lago para tirar umas fotos. A paisagem é espetacular, mas é triste ver o descaso com o lugar — tanto a estrada quanto a vila não fazem jus à beleza do lago.


Na saída da vila, precisei parar no posto de controle do exército para que um soldado anotasse minha saída. Ficha, papel, caneta — tudo bem analógico.

Onze quilômetros depois, cheguei novamente ao Kyagar Tso, o lago menor que me encantou mais que o próprio Tso Moriri. Resolvi descer até a margem para lavar as mãos, filmar e contemplar a vista. A 4.705 metros de altitude, cercado por montanhas nevadas e cavalos pastando no capim seco à margem salgada, o cenário era de tirar o fôlego — literalmente.

Enquanto admirava a paisagem, vi o russo passando apressado ao longe, como se estivesse fugindo de alguma coisa. Voltei para a moto e segui viagem pela mesma estrada horrível da ida.

Cheguei a Sumdo por volta das 9h30. Parei para beber água e vi alguns iaques pastando por ali. Tirei fotos deles e também de duas crianças brincando por perto. Foi um dos momentos mais autênticos do dia.

A estrada começou a subir até os 5.000 metros de altitude, e depois desceu até os 4.530 metros, na área do Tso Kar, o lago seco e desolado. Cheguei lá perto das 11h, parei para algumas fotos rápidas e continuei.

Pouco antes do meio-dia, finalmente reencontrei o asfalto. Foram 200 km sofridos (100 para ir, 100 para voltar), por estradas ruins e paisagens repetidas. Os trechos menos inspiradores da viagem até então.

Ainda passei pela terceira vez pelo Taglang La, a 5.328 metros. Uma família colocava bandeirinhas de oração no monumento budista e parei para observar e registrar o momento.

Às 15h15, cheguei novamente ao hotel em Leh. Só que o quarto que eu vinha usando já estava ocupado. O gerente não estava, e o substituto me colocou num quarto horrível no térreo: roupa de cama suja, banheiro idem. Recusei na hora. Ele então me arrumou outro quarto no primeiro andar, mais decente.
Deixei as coisas, fui até a loja da locadora para trocar de moto. O rapaz deu só uma olhadinha e disse que estava tudo certo — mesmo com a sujeira que a coitada carregava.
Mais tarde, terminei o dia comendo uma pizza. Sem grandes aventuras. Só o cansaço natural de quem vive dias duros na estrada.

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