22º dia – De Dharanshala a Amritsar – Adeus, Himalaia! Olá, Templo Dourado e caos urbano com pitadas de magia

O dia começou com um som que já estava virando trilha sonora urbana: buzinas. Muitas buzinas. Acordei em Dharamshala com o trânsito matinal explodindo lá fora, um lembrete claro de que a calmaria das montanhas havia ficado para trás — era hora de descer para as planícies da Índia.

Meu destino era Amritsar, no estado do Punjab, com duas metas bem definidas: visitar o Templo Dourado (Golden Temple), o lugar mais sagrado para os sikhs, e assistir à excêntrica cerimônia de troca da guarda na fronteira entre Índia e Paquistão, em Wagah.

Antes de colocar a Royal Enfield na estrada, dei aquela olhada rápida no Google Maps e memorizei o trajeto. O problema é que Dharamshala, apesar de pequena (pelo menos para os padrões indianos), é toda construída na encosta da montanha, com ruas irregulares e sinuosas que se cruzam como se fossem trilhas em uma floresta. Resultado: me perdi logo no começo e fui parar num bairro nobre, com casas enormes cercadas por áreas verdes, quase como condomínios de luxo brasileiros. O curioso é que muitas delas tinham placas com o nome e cargo do morador: “Fulano de Tal, Engenheiro Chefe do Subdistrito de Manutenção de Estradas”. “Beltrano, Juiz da Magistratura de Dharamshala”. Um verdadeiro “quem é quem” da burocracia indiana.

Depois de algumas voltas, reencontrei o caminho certo. A estrada até Pathankot era bem estreita, cheia de curvas, buracos e ladeada por florestas — com muitas casas construídas na beira da via.

Sai com o estômago vazio. Passei por uma padaria que ainda não tinha nada pronto e segui viagem. Perto de Kangra, encontrei um hotel bonitinho com um restaurante no térreo. Entrei. Tudo limpo, organizado, com um balcão refrigerado cheio de pães e doces diferentes. Apontei pra um pão redondo e perguntei ao garçom o que era. Ele não falava inglês. Veio outro, com um inglês quase tão precário quanto. Perguntei se era apimentado e ele disse que não. Pedi um.

Quando vi, o cara abriu o pão como uma tampa e começou a rechear com cremes, frutas e outras coisas misteriosas. Parecia um sorvete artístico dentro de uma tigela crocante. A parte de cima era parecida com uma coalhada doce e o fundo tinha um molho levemente picante. Uma experiência gastronômica inesperada, mas gostosa.

Segui viagem sob um céu limpo, mas com aquela névoa constante no horizonte, típica das planícies indianas. E fazia muito calor. Eu estava usando jaqueta de verão e luvas curtas, e mesmo assim sentia o bafo quente das cidades que se encadeavam umas nas outras. E como eu tomava muita água, parei várias vezes para aliviar… Só que achar um lugar para isso foi um desafio à parte.

Cheguei a Amritsar pouco antes das 14h. A cidade é gigantesca, barulhenta, caótica — com trânsito intenso, obras por todos os lados, viadutos e o festival de buzinas habitual. Parei sob um desses viadutos, num ponto mais calmo, e finalmente consegui usar a internet do celular para procurar hotéis. Achei um que parecia bom, negociei o preço da diária de 40 para 32 dólares e fechei.

Ao comentar que queria ir à cerimônia de troca da guarda, o recepcionista do hotel, Manoj, me deu a má notícia: por causa de tensões na região da Caxemira e ameaça de atentados, o evento estava suspenso há alguns dias. Fiquei decepcionado.

Ele recomendou que eu visitasse o Templo Dourado à noite, quando o lugar fica ainda mais bonito com as luzes refletindo no espelho d’água. Aceitei o conselho.

Na sequência, perguntei onde comer. Manoj indicou uma rua próxima cheia de dhabas (restaurantes locais simples). Experimentei uma comida típica… e extremamente apimentada. A culinária do Punjab é deliciosa, mas para quem não está acostumado, pode ser um desafio para a boca e o estômago.

Depois do almoço, perguntei onde trocar dólares por rúpias. Manoj disse que o lugar era longe e se ofereceu para me guiar. Subimos na moto e ele foi me orientando pelas ruas estreitas e enlouquecidas de Amritsar. Em um momento surreal, entramos na contramão de uma avenida movimentada, desviando de carros que vinham em nossa direção. Me senti dentro de uma cena de Bollywood. Mas chegamos vivos.

Antes disso, porém, minha moto resolveu pregar uma peça: não quis ligar de jeito nenhum. Tentei várias vezes, sem sucesso. Foi a única falha mecânica de toda a viagem. E justo ali, no meio da muvuca. Para completar o caos, apareceu um sujeito todo pintado, vestido com roupas coloridas, carregando um incensário fumegante. Me pediu dinheiro. Falei que não tinha (só uma nota de 100 dólares escondida no bolso). Ele olhou pra moto, tocou o tanque com o dedo, e… a moto pegou! Não sei se foi fé, coincidência ou feitiçaria, mas dei todas as rúpias que tinha pra ele. Vai que…

Mais tarde, peguei um tuk tuk e fui ao Golden Temple. Não tem muito o que dizer — é simplesmente deslumbrante. Construído no século XVI, com suas paredes revestidas de ouro e rodeado por um lago sagrado (o Amrit Sarovar), o templo é um oásis de paz em meio ao caos urbano. A energia do lugar é forte, serena, inesquecível.

Voltei pro hotel já tarde da noite, também de tuk tuk, cansado e maravilhado. Um dia intenso, com direito a templos sagrados, trânsito insano, gastronomia estranha, aventuras mecânicas e até um toque de magia de rua. E tudo isso sobre duas rodas.


Comentários

Deixe uma resposta


Para adquirir os livros abaixo, acesse o site do autor: romuloprovetti.com

Livro A caminho do céu - uma viagem de moto pelo Altiplano Andino
A caminho do Atacama
Livro sobre viagem de moto pelo Himalaia
Livro sobre viagem de moto até Ushuaia
Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano