195 km | Do escuro da estrada ao caos da fronteira
Saí do hotel ainda no escuro, faltava mais de uma hora para o amanhecer. O farol da moto iluminava bem a estrada, mas a atenção precisava ser redobrada: buracos surgiam a cada curva. Ainda sem sol no céu, já havia longas filas nos postos de gasolina, formadas por carros, caminhonetes e caminhões.
Quando o dia começou a clarear, parei alguns minutos à beira da estrada para registrar o nascer do sol. Logo depois, uma neblina espessa e seca encobriu parte do caminho. Mas, com a luz do dia finalmente estabelecida, eu já tinha avançado uma boa distância.
O combustível que tinha no tanque seria suficiente para cruzar a fronteira, mas queria garantir a segurança e tentar abastecer um pouco mais. Em uma vila no caminho, avistei um rapaz com uma moto e resolvi perguntar se ele sabia onde conseguir gasolina. Ele apontou para uma casa próxima, onde havia um carro parado e algumas pessoas conversando.
Ao me aproximar, o pessoal, meio desconfiado, disse que ali não havia gasolina e apontaram para frente. O rapaz da moto chegou em seguida e trocou algumas palavras com eles. Um dos homens me chamou para o quintal e perguntou quantos litros eu queria. Pedi três. Pouco depois, ele voltou com um galão e um funil. Colocamos o combustível na moto e, quando perguntei quanto devia, ele não quis cobrar. Insisti, dei a ele 10 bolívares soberanos e distribuí adesivos como agradecimento.




Segui viagem desviando dos buracos e dos muitos veículos que já circulavam. Os postos de controle da polícia, Guarda Nacional e Exército eram frequentes, assim como os quebra-molas e as vendedoras de comida no meio da estrada. A paisagem agora era de montanhas cobertas por florestas — estava na Cordilheira dos Andes.
Em um trecho à beira de um rio, a estrada estava completamente destruída. Tive que passar por um desvio de terra, bastante esburacado. Parei para fotografar e observar os veículos tentando transitar por ali com dificuldade.


Mais à frente, ao passar por San Cristóbal, vi um posto com uma longa fila de carros sendo abastecidos. Um policial organizava o acesso. Parei e pedi para abastecer, mas ele disse que não estavam atendendo motocicletas. Expliquei que era turista e precisava continuar a viagem. Ele perguntou se eu tinha o chip do governo, que controla a distribuição de combustível no país — respondi que não. Ele foi irredutível. Um homem que estava ali intercedeu por mim e, depois de alguma conversa, o policial liberou minha entrada.


Posicionei a moto entre os carros, mas outro policial apareceu mandando eu sair. O frentista, vendo a situação, gritou que ia abastecer. Levou a mangueira até a moto e encheu o tanque. Incrível a falta de sintonia entre os policiais. Perguntei quanto devia e ele respondeu que não precisava pagar. Agradeci e segui viagem.
Aproveitei para fazer um lanche na lanchonete do posto — a única que encontrei no país até então com estrutura parecida com as dos postos brasileiros: organizada, limpa, com salgados e bebidas à disposição. Comi um salgado de queijo e tomei um Gatorade.
Comi um salgado de queijo e bebi um Gatorade. Enquanto isto chegou ao local um grupo de motociclistas de San Cristóbal que tinha marcado de encontrar no posto antes de sair para um passeio pela região. Tinham motos grandes, customs e big trails. Confraternizamos e um deles brigou comigo por não ter avisado que passaria pela cidade para que pudessem me receber.
Enquanto comia, chegou um grupo de motociclistas de San Cristóbal. Tinham combinado de se encontrar ali para um passeio. As motos eram grandes: customs e big trails. Conversamos, tiramos fotos e um deles até brincou comigo, dizendo que era um absurdo eu não ter avisado que passaria pela cidade.


A estrada que segui depois era simples, sem acostamento nem sinalização, e subia e descia montanhas com curvas fechadas. Carros formavam longas filas, às vezes parados. Fui ultrapassando com cuidado, seguindo o ritmo dos mototaxistas que levavam passageiros na garupa.


Em um dos postos de controle da polícia civil, recolheram meus documentos e me fizeram esperar quase meia hora até liberar a passagem.
Finalmente cheguei a San Antonio del Táchira, na fronteira com a Colômbia. A cidade é uma das principais portas de entrada e saída entre os dois países e estava fervilhando. O cenário era caótico: camelôs ocupavam as calçadas, ruas congestionadas e um mar de gente indo e vindo, carregando sacolas, empurrando carrinhos, tentando atravessar a fronteira em busca de comida, remédios, trabalho — ou apenas uma vida melhor do outro lado.
Fui até a avenida que leva à Ponte Internacional Simón Bolívar, que liga Venezuela e Colômbia, e parei em frente a um prédio com uma placa indicando ser hotel. Negociei o valor de uma diária, levei a bagagem para o quarto e logo saí para explorar a região. O caos reinava, mas achei um armazém onde comprei alguns itens para lanche e duas cervejas. Mais à frente, parei em um restaurante para jantar.
Voltei para o hotel, me deitei e tentei dormir, já pensando no que me aguardava no dia seguinte: a travessia da fronteira e a entrada na Colômbia.












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