350 km de moto | Uma fronteira burocrática e estradas perigosas | A cidade menos simpática da viagem
Como eu tinha perdido um dia no cronograma, decidi compensar e seguir além de Georgetown, capital da Guiana. A ideia era andar mais e tentar equilibrar o tempo da viagem. Mas sabia que não seria moleza: essa fronteira com a Guiana é uma das mais lentas e burocráticas da América do Sul.
Saí cedo do hotel, ainda no escuro, por volta das 6h da manhã. O céu carregado já anunciava chuva. Eu estava com uma dúvida martelando na cabeça desde o dia anterior: será que o seguro da moto, feito lá em Albina, cobria também a Guiana? O documento não dizia nada sobre isso. Descobri que a seguradora tinha um escritório em Nieuw Nickerie. Passei lá no fim do dia anterior, mas já estava fechado. Aqui tudo começa e termina cedo por causa do calor.
A dona do hotel disse que, às vezes, o pessoal da seguradora chega antes das 7h. Às 6h30 eu já estava na porta, quando desabou uma chuvarada daquelas — com direito a relâmpago e tudo. Mas foi rápida. Em poucos minutos o céu limpou e o dia começou de verdade. Às 6h45 chegou uma funcionária. Expliquei a situação e, com toda simpatia, ela confirmou que realmente faltava um documento específico para a Guiana. Pediu para esperar e, dez minutos depois, voltou com o papel pronto. Nem cobrou nada. Disse que já estava incluído no seguro feito em Albina. Que alívio!
Peguei a estrada e em cerca de meia hora cheguei à fronteira. Uma fila de vans, ônibus e carros já se formava. Parei no fim da fila e fui me informar. Um senhor de rastafári me disse que motos podiam ir direto para frente. Obedeci, claro. Pouco depois, abriram o portão e fui orientado a estacionar. Comprei o tíquete da balsa (188 dólares surinameses – só para o piloto, a moto não paga), depois fui carimbar a saída do Suriname e fazer a papelada da moto. Se eu não tivesse resolvido o seguro cedo, teria que voltar no dia seguinte.



Apesar de eu achar que o portão fechava às 8h, ele só foi fechado às 9h – no horário da Guiana, que tem uma hora a menos. Mesmo assim, é bom chegar cedo: só tem uma balsa por dia e ela vai lotada. Hoje, cinco carros ficaram para trás.


A travessia é curta. O complicado é do outro lado. Tudo é lento e burocrático. Primeiro, você entrega o passaporte e um formulário preenchido na balsa. Carimbam a entrada. Depois, uma nova fila para preencher outro formulário, agora com os dados da moto – duas vias, sem carbono. Em seguida, outro guichê para conferirem os dados, os documentos e ainda verificarem o número do chassi e da placa da moto. Por fim, o agente anota tudo à mão em um caderno (!), assina o papel e te devolve uma via. E só depois disso tudo é que você passa por mais um posto policial, já do lado de fora, para fazer um cadastro.


Finalmente, estrada!
A caminho de Georgetown, são uns 160 km de comunidades praticamente emendadas, uma após a outra. A estrada é cheia de vida: carros, caminhões, bicicletas, tratores, vacas, cabritos… tudo junto. A velocidade máxima é 80 km/h, mas o tráfego é tão intenso que não dá pra manter. Apesar disso, achei as construções muito interessantes, lembram bastante as que vi na Índia – casas coloridas, enfeitadas com flores, imagens religiosas e até animais. Muitos templos: cristãos, hindus e muçulmanos. Parei várias vezes para fotografar.
A travessia por Georgetown foi como me disseram: trânsito horrível, cheio de obras. Levei mais de uma hora para cruzar a cidade. E os motoristas… bom, são um caso à parte. Imprudência é pouco: correm muito, fazem manobras arriscadas, param no meio da rua como se estivessem sozinhos no mundo.


Aliás, o clima na Guiana é bastante hostil. As pessoas são menos simpáticas, abordam menos, falam um inglês difícil de entender e, muitas vezes, não têm paciência nenhuma. A diferença em relação ao Suriname e à Guiana Francesa é gritante.
Antes de chegar à capital, parei em dois postos policiais. No primeiro, só acenaram para eu seguir. No segundo, um policial me pediu dinheiro para “comprar algo pra beber” – não entendi direito o quê. Falei que não tinha e que precisava sacar num caixa eletrônico. Ele respondeu, com a maior cara de pau, que eu deveria sacar e voltar. Está esperando até agora.


Mais à frente, já depois de Georgetown, outro policial no meio da pista mandou parar. Pediu os documentos e, de cara, questionou sobre a placa dianteira da moto. Expliquei que no Brasil não é exigido. Ele retrucou dizendo que na Guiana era obrigatório. Tentei argumentar dizendo que os países são signatários de convenções internacionais e que veículos estrangeiros não precisam seguir essas exigências locais. Ele duvidou e começou a falar que isso não existia.
Por sorte, chegou um policial mais velho, mais tranquilo, que se interessou pela viagem e começou a fazer perguntas. Mas o primeiro policial insistia na história da placa dianteira. O mais velho balançou a cabeça como quem diz “deixa isso pra lá”. E aí veio a segunda bronca: perguntou onde estava o galão de gasolina extra. Respondi que não levava. Ele não acreditou. Falei novamente com o mais velho: minha moto é econômica, faz 30 km/l, não preciso carregar combustível extra. O veterano riu e disse pro outro me liberar. Dei um adesivo da viagem para cada um e segui viagem.


Logo depois o tempo fechou, caíram umas gotas grandes e ameaçadoras, mas o temporal não veio. Segui seco.

Cheguei a Linden no fim da tarde. Que cidade feia! Foi difícil achar um lugar pra dormir. Estou num hotel (é o que diz a placa) com um quarto minúsculo, mal cabe minha bagagem. Tem pernilongo pra todo lado, mesmo com o ar-condicionado ligado, e um bar do outro lado da rua com música alta, que parece estar tocando dentro do quarto. E ainda cobram 40 dólares a diária – e isso depois de pechinchar!
Depois de um banho, fui procurar um lugar pra comer. Só comida chinesa. Resolvi encarar. Pedi dois pratos: um com frango frito e batata frita (super saudável) e outro com arroz frito e ovo. Veio tanta comida que parecia para três pessoas. Comi um terço de cada e o resto ficou. Não por falta de fome, mas por excesso de quantidade.
Amanhã começa a etapa mais desafiadora: 450 km de estrada de terra até a fronteira com o Brasil. Se tudo der certo, levo dois ou três dias pra cruzar. Até lá, sem comunicação – a estrada corta a floresta e a savana. Que venha a aventura!












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