585 km de moto | Cruzando a Linha do Equador | A estrada não perdoa o estômago fraco
Acordei com uma baita indisposição estomacal. Culpei, mentalmente, o peixe da noite anterior — bonito no prato, traiçoeiro no efeito. O hotel oferecia um café da manhã caprichado, mas só consegui comer umas frutas. Pedi um carro por aplicativo e fui até o porto, em Santana, buscar a moto.
Ao chegar lá, a cena era a mesma do dia anterior: a moto ainda presa atrás de pilhas de mercadorias. Fui ao banheiro dos marinheiros, coloquei a roupa de viagem e encarei a realidade. Como ninguém se mexia, comecei a tirar algumas caixas para abrir um corredor. Um funcionário da empresa viu meu esforço e veio ajudar. Com o caminho livre, duas tábuas grossas viraram pinguela e, enfim, consegui tirar a moto do barco.
Já era mais tarde do que eu queria, mas segui para um ponto emblemático da viagem: o Marco Zero, em Macapá — onde a Linha do Equador atravessa a cidade.
Tirei uma foto e segui viagem, cruzando simbolicamente do Hemisfério Sul para o Hemisfério Norte.
Um marco geográfico que faz o viajante lembrar que está numa travessia maior do que a estrada.

Ainda na cidade, parei num posto para abastecer e procurei água mineral numa padaria. Não tinha. Peguei uma garrafa de água de coco, tentando domar o mal-estar. Mas não adiantou muito. Na saída do perímetro urbano, senti o estômago virar de vez. Encostei no acostamento e… não deu tempo. Vomitei parte da comida da noite anterior e me sujei.
Mais adiante, parei num posto de gasolina para me limpar. Tentei seguir, mas o corpo continuava fraco. Em outro ponto da estrada, parei num restaurante para descansar, bebi água e recuperei o fôlego. A próxima parada foi em Tartarugalzinho, onde abasteci e, exausto, me estendi num banco de concreto ao lado do restaurante. Um cochilo de vinte minutos me devolveu alguma força.


De volta à estrada, passei a reparar mais nos arredores. Nada de floresta amazônica densa, como eu imaginava. Até Calçoene, a paisagem era marcada por pastagens, plantações de eucalipto, coqueirais e palmeiras. Abasteci pela última vez antes de Oiapoque — dali em diante, nada de gasolina.
Nos 60 km seguintes, a estrada surpreendeu. Asfalto liso, curvas bem projetadas, sinalização em dia e floresta fechada. Árvores altas formavam túneis verdes, cortados por igarapés cristalinos. Um prazer pilotar ali.

Mas durou pouco. Quando o asfalto acabou, começou a temida estrada de terra. Pelas informações que tinha, o trecho de 110 km estaria em boas condições. Se tudo corresse bem, faria em duas horas. Mas eu tinha saído tarde de Macapá, com várias paradas por causa da indisposição. Eram 16h quando entrei no trecho de terra — qualquer atraso, e pegaria a noite no caminho.

Os primeiros 50 km foram bons, mesmo com pneus de asfalto. Fiz em cerca de 50 minutos, com paradas para fotos. Mas depois, o cenário mudou: buracos enormes me obrigaram a reduzir drasticamente a velocidade.
Passei por várias aldeias indígenas, mas não parei — o tempo era curto. A floresta se adensava à medida que a tarde caía, e o céu escurecia devagar, como um alerta silencioso.



Quando voltei ao asfalto, a noite já tinha caído. A estrada estava molhada, sinal de que tinha chovido pouco antes. Ainda percorri mais 50 km até Oiapoque. Entrei na cidade e parei no primeiro hotel que vi na beira da estrada. Simples, com ar-condicionado barulhento, higiene duvidosa e ótimo preço.
Não comi nada o dia inteiro. Só água. E passei quase toda a noite no banheiro.
Curioso como, depois de rodar o mundo em cima de uma moto — Índia, Bolívia, Colômbia, interiorzão do Brasil — comendo de tudo em botecos duvidosos e barracas de beira de estrada, nunca tinha passado mal.
A primeira vez foi justamente aqui, no meu país, após comer em um restaurante bem apresentável.
Ironias de uma viagem de moto. O corpo cobra, a estrada não espera.












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