9º dia – de Caiena a Paramaribo

0 km de moto | A capital multicultural do Suriname

Acordei às 4h para sair o mais cedo possível rumo aos 246 km que separam Caiena de Saint Laurent du Maroni, de onde parte a balsa para atravessar o rio que divide a Guiana Francesa do Suriname. A primeira travessia do dia seria às 9h.

Assim que levantei, senti que a indisposição estomacal que começou lá em Macapá ainda não tinha passado. Acabei demorando mais do que o planejado para me aprontar.

Quando desci com a bagagem até o saguão, assustei o vigia, que deu um pulo do sofá onde dormia. Perguntei se falava português ou inglês e ele respondeu que não. Falei “motô” e ele entendeu — afinal, eu estava carregado com capacete, jaqueta e o baú nas mãos. Ele apontou para a porta da garagem, e então perguntei em inglês se havia água, fazendo gestos. Ele ficou me olhando sem entender, mas depois de alguns segundos saiu correndo e voltou com uma garrafinha de água mineral. Fiz sinal de “quanto?” e ele acenou que não precisava pagar. Agradeci com um “merci”.

Levei o baú, instalei rapidamente na moto, e enquanto vestia a jaqueta e o capacete, ele me disse: “vrum, vrum, no”. Entendi: não podia ligar o motor ali dentro, para não incomodar os hóspedes. Empurrei a moto até a rua, liguei, despedi do amigo com um aceno e às 4h43 parti para minha primeira jornada do dia.

Em poucos minutos, as ruas desertas e retas da cidade me levaram até a estrada. Havia algum movimento no sentido contrário e poucos veículos indo na mesma direção que eu.

Alguns amigos haviam me alertado sobre os rígidos limites de velocidade na Guiana e no Suriname. Disseram que havia radares por todo lado, e que, ao tentar sair do país, se tivesse cometido alguma infração, eu teria que pagar uma multa altíssima. Fiquei com isso na cabeça — sem saber se era verdade ou exagero — e segui um pouco acima do limite de 80 km/h.

Logo depois, passando pela cidade de Tonate, um clarão pipocou à minha direita. Não consegui saber se foi atrás ou na frente da moto. Segui viagem, na dúvida se isso me traria problemas na fronteira.

O dia amanheceu, e logo tive que redobrar a atenção: centenas de crianças uniformizadas, com mochilas nas costas, andavam ou esperavam o ônibus no acostamento.

Vi pelo retrovisor o sol nascendo às minhas costas. Deu vontade de parar para fotografar, mas com o horário apertado, preferi seguir.

A viagem até Saint Laurent du Maroni foi tranquila. Chegando à cidade, o trânsito ficou intenso e lento, com uma rua de mão dupla sem possibilidade de ultrapassagens. Comecei a ficar aflito com o horário.

Cheguei à imigração meia hora antes da saída da balsa. O prédio, simples, parecia um armazém, com um guichê e uma cancela de cada lado. Estacionei a moto ao lado e fui até o guichê. Uma moça me cumprimentou com um “bonjour”. Respondi e perguntei em inglês se ali era o local para dar saída da França. Ela confirmou com a cabeça, pegou o passaporte, carimbou e devolveu. Só isso? Voltei para a moto e fui até a rampa de embarque.

Um senhor me cumprimentou, e perguntei a ele que horas o barco chegaria. Disse que provavelmente antes das 9h — e acertou. Pouco depois, a balsa chegou com alguns carros e vans, que desembarcaram rapidamente. Um funcionário me sinalizou para embarcar com a moto.

Estacionei e fiquei aguardando. Patrick e Laurent, que trabalhavam no barco, vieram olhar a moto. Patrick me perguntou de onde eu era. Quando falei “Brasil”, ele começou a falar um português bem claro. Era francês, filho de brasileira com haitiana, nascido na Guiana Francesa, e já tinha visitado o Brasil algumas vezes. Laurent estava curioso com a moto. Fazia perguntas em francês, que o Patrick traduzia. Me mostrou fotos da sua Yamaha — não consegui identificar o modelo.

Poucos minutos depois partimos. A balsa levava apenas eu, minha moto e mais um passageiro. Patrick comentou que por isso as viagens são poucas por dia, só aumentando nos feriados. Ele também me deu algumas dicas para a entrada no Suriname.

Desembarquei, estacionei em frente ao prédio da aduana e entrei. Um rapaz carimbou meu passaporte. Perguntei onde era o escritório da aduana e ele apontou uma porta. Outro rapaz me atendeu em inglês. Entreguei os documentos e ele perguntou se eu tinha o seguro. Como não tinha, disse que eu deveria ir ao banco para contratar. Me levou até a rua e apontou o caminho.

O banco ficava numa esquina, a uns 300 metros dali. Perguntei ao vigia e ele me indicou uma moça. Entreguei os documentos, ela começou a digitar os dados, mas na hora de inserir o modelo da moto, ele não estava no sistema. Perguntei se não dava pra escrever à mão, ela disse que não. Ligou para alguém e me pediu para aguardar. Perguntei onde trocar euros por dólar surinamês, e ela indicou a rua ao lado. Lembrei da dica do Patrick, entrei num supermercado e troquei com a caixa.

Voltei ao banco e ainda não estava pronto. Esperei mais de uma hora, até que a moça me chamou. Paguei e voltei para a aduana com o documento do seguro. Outro agente me atendeu. Enquanto esperava, um rapaz me viu suado e perguntou se eu queria uma das latas de energético que ele carregava. Aceitei. Perguntei quanto e ele disse que era um presente.

Com a moto liberada, fui procurar o posto que o Patrick tinha indicado, mas não achei. Segui para um que estava no GPS. No Suriname dirige-se pela mão inglesa, mas me adaptei rápido.

A estrada até Paramaribo é muito boa, limite de velocidade de 80 km/h — que poucas vezes ultrapassei. Mas fui ultrapassado muitas vezes.

Chegando em Paramaribo, peguei uma avenida com trânsito pesado de caminhões. Fui até um guest house que tinha pesquisado. Um jovem holandês, com cara de surfista e quase dois metros de altura, me atendeu. Pedi para ver os quartos: 15 euros por uma cama em quarto compartilhado, 30 pelo quarto privativo. Banheiro comunitário, sem ar-condicionado nem café da manhã. Perguntei se teria ventilador, ele disse que arrumaria. Ainda pensava se valia a pena quando ele voltou dizendo que tinha se enganado e o quarto já estava reservado.

Pedi para usar a internet, encontrei um hotel próximo e fui para lá. Paguei 59 dólares por um hotel com piscina, ar-condicionado, estacionamento, cama e quarto gigantes. Acima do que eu tinha previsto, mas a cidade é bem cara.

Almocei no bar do hotel enquanto esperava o quarto ser liberado. Escolhi um prato típico do Suriname, com frango e legumes. Muito bom. E caro. Uma cervejinha local: 2,50 dólares.

Saí para caminhar um pouco pela cidade, pena que não levei a câmera, só o celular. A região por onde andei é muito bonita.

Amanhã terei que sair antes das 5h para chegar à fronteira antes do fechamento do portão.


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