A ideia dessa viagem nasceu do Barbosa — amigo de aventuras sobre duas rodas e especialista em arrumar confusão boa. Ele mandou mensagem, criou grupo no WhatsApp, chamou uma dúzia de conhecidos… no fim das contas, quatro guerreiros confirmaram: eu, claro; o próprio Barbosa; o Leão; e o Vandir.
De Lagoa Santa a Alto Caparaó
Quarta-feira, 25 de junho, 6h30 em ponto, saí de Lagoa Santa pela MG-010, ainda com aquele ar gelado de manhã mineira. Cruzei BH, peguei o Anel Rodoviário e segui para a BR-381, a famosa “Estrada da Morte” — linda, mas cheia de caminhões e curvas que exigem atenção. Nosso ponto de encontro era um posto em Sabará, às 8h. Cheguei às 7h30, seguido logo depois pelo Barbosa e o Leão. O Vandir? Atrasado — mas prometeu nos alcançar na estrada (e cumpriu).

O comboio ficou assim: Barbosa numa Suzuki Bandit 1250 S, eu na Honda NC 750X, Leão na clássica NX4 Falcon e o Vandir com sua Triumph Tiger 900. Uma mistura de estilos que deixaria qualquer encontro de motociclistas orgulhoso.
Saímos por volta das 8h30, temperatura na casa dos 20 °C, nuvens espalhadas e muito movimento de carretas — tradição da BR-381. Depois de Caeté, vem o trecho duplicado, aquele momento em que a gente respira fundo e começa a ganhar tempo. Mas a paz dura pouco: mais à frente a pista volta a ser simples e recomeça o balé das curvas e das ultrapassagens.
Paramos em João Monlevade às 10h e pouco. Uma pausa rápida pra esticar as pernas e abastecer. Seguimos pela BR-262, nos encaminhando para a divisa com o Espírito Santo — estrada bonita, cheia de montanhas cobertas de mata atlântica.
Nova parada em Abre Campo na hora do almoço. Nada de comida pesada e pé na estrada. Depois abastecemos em Reduto e seguimos pela MG-111, que estava daquele jeito… buraco disputando espaço com quebra-molas e trânsito dentro das cidades.


Chegamos a Alto Caparaó às 15h20, uma cidade que serve de porta de entrada para o Parque Nacional do Caparaó. Foram 331 km em quase 9 horas: poucos quilômetros, muitas histórias.

Ficamos numa pousada de frente para a praça da Matriz. Uma neblina bonita descia das montanhas, trazendo um friozinho gostoso.
À noite, saímos para tomar um chope e um caldo. Cidade tranquila, poucos turistas, clima perfeito para descansar para o grande desafio do dia seguinte.

Subida ao Pico da Bandeira
No dia seguinte deixamos as motos descansando e fomos encarar a estrela da viagem: o Pico da Bandeira — terceiro ponto mais alto do Brasil (2.892 m), famoso pelo nascer do sol absurdamente bonito.
Como não é permitido subir de moto dentro do Parque Nacional do Caparaó, a regra é: ou vai a pé desde a cidade, ou contrata um carro até a Tronqueira (1.970 m). O Barbosa, aniversariante do mês, queria celebrar subindo TUDO andando. Eu entrei na onda. O Leão ficou na cidade, e o Vandir — atleta nato — decidiu subir e descer tudo no dia seguinte. Loucura saudável.
Eu me preparei para acampar no Terreirão (2.370 m), mas o Barbosa sugeriu dormirmos na Casa de Pedra, um abrigo rústico construído por tropeiros. Era uma chance de carregar menos peso, e eu topei.
Começamos a subida às 7h30. A caminhada pelas ruas de Alto Caparaó até a portaria levou uns 30 minutos, passando por várias pousadas e por uma paisagem rural marcada por cachoeiras, pastagens e fornos de carvão espalhados pelo vale.


Só teve uma coisa chata: meu drone ficou retido na portaria. Regras do parque. Fazer o quê?
A subida é constante e puxada. O sol brigava com a névoa e a fumaça de fornos de produção de carvão, criando uns efeitos de luz bem bonitos. Eu suava igual tampa de chaleira, e a mochila parecia ganhar um quilo a cada curva.




Paramos na Cachoeira Bonita — nome merecido. Uma queda d’água cristalina cercada de mata. A alça da mochila do Barbosa arrebentou. Minutos depois estávamos de volta à trilha.

Às 12h44 chegamos à Tronqueira, ponto final para quem sobe de carro. Lá tem camping, água, banheiros e um mirante com vista incrível para o Vale do Caparaó. Achamos muitas barracas, mas poucas pessoas — provavelmente na trilha pro Pico.


Ficamos ali quase 40 minutos. Barbosa consertou a mochila com ajuda de um guia local. Enquanto isso, observei um quete-do-sudeste, passarinho típico da região.


Recomeçamos a subida rumo ao Terreirão. Passamos pelo Vale Encantado, com piscinas naturais e corredeiras de água transparente — um dos lugares mais bonitos do parque. Mais adiante, avistamos uma araucária solitária, espécie rara naquela altitude.


Chegamos ao Terreirão às 15h20. Área tranquila, com banheiros, água potável e espaço para camping. Deixamos as mochilas na Casa de Pedra e demos uma volta. Na Casa de Pedra, arrumamos plásticos para cobrir as aberturas das janelas. Mais tarde assistimos ao pôr do sol atrás do abrigo, junto com campistas animados de Tijuco Preto, no Espírito Santo.


O jantar foi um macarrão preparado pelo Barbosa no fogareiro. Simples, quente e perfeito.

Nascer do Sol no Pico da Bandeira
A noite foi tensa: fazia -4ºC dentro da Casa de Pedra. Meu saco de dormir era para 0ºC, então coloquei toda a roupa que tinha e ainda a capa de chuva. Os pés sofreram, mas sobreviveram.
Às 3h da manhã já estávamos subindo. Um fila de lanternas iluminava a trilha. Para reduzir o peso na subida, usei a capa de chuva de motociclista, toca e luvas de marceneiro como proteção contra o frio. O trecho final é o mais difícil, com escalaminhada em pedras, mas nada paga chegar ao cume e ver o dia nascer.

Chegamos pouco depois das 4h30. E aí… bom, não tem jeito de descrever: dezenas de pessoas em silêncio, esperando o sol aparecer por trás das montanhas. Quando ele surgiu, foi aquele espetáculo alaranjado que faz a gente entender por que o Pico da Bandeira é tão procurado pelos amantes de aventura.

Começamos a descida antes das 7h, passando por poças congeladas — prova do frio brutal da madrugada. A paisagem com as nuvens abaixo de onde estávamos, parecia cena de filme.

Chegamos ao Terreirão às 8h30. Encontramos o Vandir subindo a montanha correndo. C-O-R-R-E-N-D-O. Não sei o que esse homem toma no café da manhã. Arrumamos tudo e continuamos descendo.

Às 16h chegamos de volta à pousada, com joelhos pedindo arrego.
Pouco depois, por dica da dona da pousada, fomos conhecer a Fazenda Ninho da Águia, famosa por seus cafés especiais premiados. O proprietário, seu Aídes, nos recebeu com histórias saborosas sobre cafeicultura, família e tradição local. Uma visita que vale cada minuto.
À noite, cerveja e papo bom para fechar o dia.
No dia seguinte, as motos voltaram à ativa e seguimos para o litoral capixaba. A continuação da viagem eu conto em outra parte do diário!











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