Acordar em Solan foi como despertar dentro de um sonho. A cidade está encravada nas encostas das montanhas e, quando abri a janela do quarto, me deparei com um vale completamente coberto por uma neblina densa e mágica. A névoa subia pelas colinas como um véu dançando ao vento, revelando e escondendo paisagens como se estivesse brincando de esconde-esconde com o viajante. Um daqueles momentos que fazem qualquer esforço valer a pena.

A dona do hostel nos recebeu com um sorriso acolhedor e um chá quentinho com biscoitos. Uma gentileza simples, mas que aquece mais que qualquer cobertor em terra fria. Pouco depois das 6h30, com o espírito renovado, seguimos viagem.
A estrada… ah, a estrada! Estreita, esburacada, repleta de curvas fechadas – era como andar em cima de uma corda bamba à beira de abismos. Mal cabiam dois veículos lado a lado e, com frequência, era preciso parar para deixar o tráfego contrário passar. Mas o esforço compensava: o Himalaia começava a se mostrar, grandioso e imponente. Era como se as montanhas dissessem: “Bem-vindos, aventureiros!”

Duas horas depois, com cerca de 70 km rodados, paramos num típico dhaba (restaurante de beira de estrada) para um lanche simples, mas cheio de sabor e energia. De lá, seguimos mais 100 km até Duttnagar, onde aproveitamos para abastecer as motos. Já eram mais de 16h, então resolvemos fazer um jantar antecipado por ali mesmo, aproveitando para relaxar um pouco.

O caminho nos levou até o Rio Sutlej, onde a estrada descia até cerca de 1.000 metros de altitude – e o calor veio com tudo. Logo depois, voltamos a subir acompanhando o rio e, com isso, veio o alívio térmico. A estrada parecia esculpida na pedra, abraçando as curvas do rio em um cenário digno de documentário.

Um dos momentos mais marcantes do dia foi quando passamos por um trecho de estrada onde a rocha havia sido talhada como um túnel natural. Parecia que a estrada tinha sido moldada à força no meio da montanha, com pedras enormes pendendo sobre nós. Era estreito, quase claustrofóbico, mas ao mesmo tempo impressionante. Fotos foram tiradas, claro – ainda que nenhuma delas consiga capturar de verdade a dimensão daquele cenário cinematográfico.






Durante todo o percurso, a altitude ditava o clima: em Solan, a cerca de 1.500 metros de altitude, o clima era ameno e agradável. Mas, conforme subíamos e descíamos pelas curvas da montanha, a temperatura parecia brincar com a gente. Em algumas partes, o calor era de derreter capacete. Em outras, especialmente quando voltávamos a subir em direção a mais de 2.000 metros, o frescor voltava a dar as caras. Tivemos uma verdadeira montanha-russa térmica durante o dia.

Já passava das 19h quando chegamos a Recong Peo, uma pequena cidade com vista privilegiada das montanhas nevadas. Eu já estava exausto, e sugeri ao Ankur que parássemos por ali mesmo. Ele ainda pensava em seguir até Kalpa, apenas 9 km adiante, mas depois de um breve bate-papo, acabamos concordando em ficar. Nos hospedamos no modesto Hotel Snow View — sem luxo, mas funcional. E, naquele momento, tudo que eu precisava era de um lugar para deitar.
Foram 293 km percorridos em 12h30 de estrada. Pouco em distância, muito em experiência. E assim terminou mais um capítulo da jornada. Cansado, sim. Mas com o coração cheio. E o melhor ainda estava por vir.

Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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