Apesar do cansaço acumulado nos últimos dias, a noite em Pang foi tudo, menos reparadora. O abrigo era desconfortável, o frio apertou durante toda a madrugada e o sono foi leve, quase nulo. Assim que amanheceu, arrumei minhas coisas e fui até o dhaba para tomar um café reforçado. Mal entrei na cozinha improvisada, começou a nevar forte do lado de fora.
Sentei em uma das camas que servem de banco no lugar e pedi um chá com paratha, aquele pão típico frito na frigideira. Enquanto o cara preparava o lanche, usou um pano que, com sorte, já tinha sido branco um dia para limpar os utensílios. O charme rústico dos Himalaias.

Perguntei como estaria a estrada até Leh. Me disseram que, quando neva forte em Pang, lá em cima no Taglang La a neve costuma acumular fácil entre 40 e 50 centímetros. A dica: esperar a neve parar e sondar como estava o caminho.
Na volta pro meu quartinho de barro e zinco, encontrei o casal de ciclistas tchecos saindo de uma barraca no fundo do terreno. Conversamos sobre o tempo. A moça apontou pro céu e garantiu que estava limpo em direção ao norte. Olhei e… nuvens por todo lado. Mas eles estavam confiantes e seguiram pedalando montanha acima como se estivessem indo tomar sorvete na esquina.
Voltei ao dhaba para buscar mais informações. A dona disse que viu caminhoneiros descendo a serra e que ia perguntar sobre as condições da estrada. Fui aos fundos, onde reencontrei o inglês com quem tinha conversado no dia anterior. Ele estava se preparando para partir, mas na direção contrária à minha.
Nevava forte. O chão estava completamente branco. Fui até a moto, tentei ligá-la e ela demorou a pegar — típico de motor em altitude com frio extremo. Deixei o motor esquentando enquanto confirmava com a senhora: “Está nevando lá na passagem?” Ela respondeu: “Não, só aqui embaixo.” Decidi partir.
Corri até o quarto, me vesti em camadas dignas de uma cebola alpina, prendi a bagagem na moto e fui pra estrada.

Eram 8h30. A nevasca ainda caía. A estrada subia em zigue-zague pela montanha, me levando a quase 4.800 metros de altitude. Fui devagar, atento às poças sobre o asfalto que, naquela altura, poderiam virar pistas de patinação.

Para minha sorte, o asfalto era novo e em ótimas condições, o que ajudava bastante. Depois de alguns quilômetros subindo, o céu começou a abrir, a neve cessou e o sol apareceu tímido entre as nuvens. Apesar do frio persistente, tirei algumas camadas de roupa. O visual era surreal — viajando sobre um altiplano, cercado por montanhas de mil formas e cores.


Mais adiante, a estrada voltou a subir pela encosta de uma montanha. Era a chegada ao Taglang La, a 5.359 metros de altitude — o ponto mais alto que eu havia atingido até então. Eram 11h30 e o frio era cortante. Tirei as luvas térmicas para fotografar e logo depois a luva fina da mão direita. Arrependimento imediato: os dedos começaram a doer de um jeito que só o Himalaia entende.



Logo retomei a viagem. A estrada descia em zigue-zague até os 4.400 metros e continuava caindo, passando por 4.000, depois 3.700, até finalmente alcançar o rio Indo, a 3.400 metros de altitude.

Em Rumtse, parei em um dhaba e comi um omelete com pão, acompanhado de um refrigerante bem gelado (como se precisasse).
Mais adiante passei por Karu, onde há uma gigantesca base militar indiana. Vi alguns monastérios espalhados pelas encostas, típicos da região de Ladakh, que já revelava sua beleza mística.

Cheguei a Leh por volta das 14h. Comecei a perguntar pelas ruas até encontrar a agência onde trabalhava o rapaz com quem eu tinha trocado mensagens antes da viagem. A loja estava fechada, mas pouco depois uma mulher apareceu e abriu a porta. O rapaz estava viajando pelas montanhas com um grupo de turistas, mas ela se comprometeu a tentar me ajudar no dia seguinte com a permissão especial para viajar de moto por Ladakh. Confessou que seria difícil, por eu estar viajando sozinho — o que exige autorizações específicas.
Pedi uma indicação de hospedagem. Fui a um hotel próximo, mas estava lotado. Por sorte, havia outro na mesma rua e acabei fechando por 1.500 rúpias, depois de uma boa negociação. Um pouco mais caro do que eu gostaria, mas o conforto e o banho quente compensaram.

Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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