13º dia – De moto na fronteira: A caminho de Turtuk, o fim da linha no Himalaia

Enquanto ainda estava no planejamento dessa aventura pelas alturas do Himalaia, um lugar saltava constantemente nos relatos que eu lia sobre o Nubra Valley: Turtuk, um vilarejo isolado espremido entre as montanhas, lá na beiradinha entre a Índia e o Paquistão.

É como se alguém planejasse uma road trip até Uiramutã, em Roraima, aquele município brasileiro que fica enfiado lá no extremo norte, na divisa com a Venezuela e a Guiana. Só que, em vez de savana e floresta, aqui a paisagem é de pedra, neve, e vento gelado cortando a pele.

Então, claro, incluí Turtuk na lista de destinos do dia.

O dia começou com um café da manhã reforçado e uma cena inusitada: uma mulher de traços mongóis entrou na casa com uma vasilha fumegante, caminhando de cômodo em cômodo e entoando cânticos budistas enquanto purificava o ambiente. O cheiro era forte e marcante, misturando ervas e incenso.

Antes de sair, registrei o momento com fotos com o Manoj e o Khadur — o garoto de Bangalore e o nepalês simpático que tocam o hostel — e também com a animada família de Mumbai que estava hospedada por lá.

Com o equipamento de fotografia amarrado na moto, parti estrada afora. Fiz uma rápida parada na área onde ficam os famosos camelos bactrianos, tirei umas fotos, mas decidi não montar — não parecia lá muito confortável, e eles também não pareciam muito animados com a ideia.

Segui então rumo ao norte. A estrada era daquelas bem típicas de Ladakh: estreita, serpenteando montanhas imensas, em bom estado na maior parte do tempo, mas com um detalhe extra — muito tráfego militar. Caminhões do exército indo e vindo sem parar, bases militares em quase toda vila por onde passei. Dava pra sentir que eu estava entrando numa área sensível.

As placas de sinalização eram escassas, e, pra ajudar, Turtuk simplesmente não aparecia em nenhuma delas. Os cruzamentos eram raros, mas quando apareciam, não diziam nada útil. Então, fui no estilo old school: instinto e perguntas. A parte difícil? A comunicação. Quase todo mundo falava apenas dialetos locais. Acabei errando o caminho uma vez e fui parar perto de uma ponte estaiada lindíssima, mas que aparentemente não levava a lugar nenhum. Por sorte, encontrei um caminhoneiro simpático que me pôs de volta no rumo certo.

A única “lanchonete” que encontrei no caminho vendia apenas biscoitos e sucos de caixinha. Foi isso que me sustentou o dia todo.

Em determinado ponto, parei num posto de controle militar — o mais rigoroso da viagem até então. Teve preenchimento de formulários, perguntas detalhadas e revista completa da bolsa. O clima por ali era tenso, mas os soldados foram educados.

Cheguei, enfim, a Turtuk. E… bom, não era exatamente o que eu esperava. O vilarejo era meio feioso, com clima pesado, cheio de soldados e uma enorme base militar. O que salvou o momento foi a paisagem ao redor e um riacho cristalino correndo entre pedras e árvores tortas pelo vento. Tirei uma foto em frente à placa da cidade, sob os olhares curiosos de crianças e moradores.

Fiquei por ali um tempinho, só absorvendo o lugar. Depois, montei na moto e voltei para Hunder, com a sensação de ter ido até onde o asfalto acaba e os mapas hesitam.


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