1º dia – De Nova Délhi a Solan – Trânsito caótico, pizza no Himalaia e os primeiros improvisos da estrada

Quando iniciamos oficialmente a viagem, o hodômetro da Royal Enfield marcava 5.486,8 km. Saímos por volta das 7h30 — um pouco mais tarde do que eu gostaria, confesso. O Ankur teve que fazer um ajuste de última hora na moto dele, o que acabou atrasando um pouco nossa partida. Quando finalmente pegamos a estrada, já passava das 8h da manhã.

Logo nos vimos rodando por uma via conhecida: a mesma estrada que eu, o Ankur e o Rafael percorremos no ano anterior. A infraestrutura é boa, com três faixas em cada sentido e bem sinalizada. Mas, como é comum nas rodovias indianas, o trânsito é uma verdadeira colcha de retalhos: caminhões lentos, ônibus antigos com cara de aposentadoria adiada, tuk tuks ziguezagueando, motocicletas, bicicletas, tratores, vacas tranquilamente passeando e até pedestres no meio da pista. E tudo isso em meio a cidades que parecem não ter fim — uma sequência interminável de casas, comércios, mercados e gente, muita gente.

Às 8h50 já tínhamos rodado cerca de 60 km e paramos para um lanche no Gulshan Dhaba, um tipo de restaurante de beira de estrada típico da Índia, famoso pela comida local barata e saborosa. Foi ali que o Ankur percebeu um problema: o suporte da bagagem da moto dele estava com um parafuso de sustentação faltando. Quando passamos por Karnal, aproveitamos para parar em uma loja de motos, onde ele conseguiu um novo parafuso e resolveu o problema.

Ao meio-dia fizemos mais uma pausa, dessa vez em um Domino’s Pizza, na cidade de Jabli. Pode parecer estranho comer pizza na Índia com tanta comida típica deliciosa por todo lado, mas naquele momento o ar-condicionado, o conforto e o sabor familiar caíram como um presente. Descansamos um pouco, recarregamos as energias e seguimos viagem.

Mais à frente, fizemos outra parada em um Dhaba para tomar um chai (chá indiano, que se tornou praticamente uma instituição nacional). Foi quando bateu aquela vontade inadiável de ir ao banheiro — o problema é que o lugar não inspirava muita confiança em termos de higiene. Felizmente, avistei uma concessionária da Royal Enfield ali perto. Fui até lá e, com aquele jeito diplomático que a necessidade inspira, pedi para usar o banheiro. Gentilmente, me deixaram entrar — e ali estava mais uma prova de que o improviso é um aliado valioso em viagens assim.

Quando estávamos chegando à cidade de Solan, já eram 17h. Paramos para conversar e decidimos que seria melhor procurar um lugar para passar a noite. Ainda faltavam cerca de 100 km até Narkanda, que era o destino previsto no meu plano original de viagem, mas as estradas estavam em condições ruins e o progresso era lento. Para se ter uma ideia, rodamos apenas 320 km em cerca de 9 horas na estrada — um ritmo que deixa qualquer planejamento no papel parecendo coisa de outro mundo.

Ankur então ligou para um amigo que morava na região, e ele nos indicou um lugar para pernoitar. Voltamos cerca de 10 km e encontramos o Valley View Service Apartment, um pequeno hostel construído na encosta de uma montanha. Fomos recebidos por uma senhora extremamente gentil e acolhedora. O lugar era simples, mas encantador, e os quartos eram amplos e confortáveis — e melhor ainda, éramos os únicos hóspedes daquela noite. Um verdadeiro achado!

Mais tarde, ainda fomos jantar na cidade e aproveitar o clima fresco da região montanhosa. No total, percorremos 339 km no primeiro dia. Cansados, mas animados com o que ainda estava por vir, encerramos o dia com a sensação de que a aventura estava, de fato, começando.


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