21º dia – McLeod Ganj – Mantras, cedros e uma pizza

O dia começou com um destino especial: o Tsuglagkhang Complex, em McLeod Ganj, a 9 km de Dharamshala, onde eu estava hospedado. A estrada até lá é curta, mas sinuosa, precisando de bons reparos e com trechos que contornam a montanha coberta por uma densa e perfumada floresta de cedros-do-Himalaia. No caminho, passei por uma enorme base militar indiana — presença constante nessa região de fronteiras sensíveis.

McLeod Ganj é um vilarejo com alma tibetana e coração indiano. Ficou conhecido como a “Pequena Lhasa”, por abrigar a comunidade de exilados tibetanos e a sede do governo do Tibete no exílio.

O Tsuglagkhang Complex é o centro espiritual e político dessa comunidade. Foi lá que o 14º Dalai Lama se refugiou em 1959, após a ocupação chinesa no Tibete. Hoje, o local abriga a residência oficial do líder espiritual, além de um monastério, templo, biblioteca, museu, livraria e salões de meditação. Simples e acolhedor, sem ostentação — como se espera de um lugar budista.

O mosteiro é considerado o maior centro budista tibetano fora do Tibete. E, naquele dia, parecia o coração pulsante do budismo: centenas de monges e devotos recitavam mantras em voz alta, em uníssono, folheando longas tiras de papel que compõem os livros sagrados. O som era hipnótico, ritmado, como um rio espiritual que fluía entre as paredes do templo.

Pude circular livremente pelo complexo, visitar o altar, apreciar os murais, comer pão e tomar chá quente servido pelos próprios monges. Uma atmosfera de paz e acolhimento — mesmo para quem não segue o budismo, como eu.

Na saída, uma surpresa que me trouxe um certo sabor de casa: ouvi alguém falando português! Era um grupo de cariocas visitando o local. Nos cumprimentamos, trocamos algumas palavras. Foram os únicos brasileiros que encontrei durante toda a viagem.

Na volta para Dharamshala, aproveitei para parar em um lugar que parece saído de um romance vitoriano: a Igreja de St. John in the Wilderness. É uma igreja anglicana dedicada a São João Batista, construída em 1852 pelos britânicos no meio da floresta. Com arquitetura neogótica, vitrais coloridos e túmulos antigos ao redor, ela tem aquele ar melancólico de filme de época e fica quase escondida entre as árvores. Uma pérola colonial inglesa em pleno Himalaia.

À noite, comi um sanduíche — sim, de novo no Domino’s, minha tábua de salvação urbana em meio às aventuras do dia. Depois ainda fui assistir a um teatro infantil com temática religiosa, que acontecia ali por perto. Uma forma leve de encerrar um dia cheio de espiritualidade, cultura e encontros inesperados.


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