20º dia – De Manali a Dharanshala – Macacos na estrada, pizza no jantar e o Dalai Lama logo ali

O plano do dia era chegar a Dharamshala para visitar o Tsuglagkhang Complex, onde vive o Dalai Lama. A distância parecia tranquila — pouco mais de 200 km — mas como tudo no Himalaia, a coisa não seria simples. As estradas cortam montanhas por rotas estreitas, cheias de curvas e buracos, com manutenção duvidosa. Nada de “cruzeiro de domingo”.

Saí tarde de Manali. Precisava trocar dólares por rúpias e tive que esperar a casa de câmbio abrir. Esperei, esperei… e às 10h ainda nada. Desisti, subi na moto e fui encarar o asfalto remendado.

E que estrada! Estreita, esburacada, curvas mal-feitas e trânsito pesado de motos, carros e caminhões. Numa dessas curvas, eu estava atrás de um ônibus esperando a chance de ultrapassar, quando um Suzuki Maruti me passou buzinando alucinadamente. O motorista — um velhinho de turbante e barba branca — quase bateu de frente com outro carro que vinha no sentido contrário. Um susto. E não foi o único. O dia teve vários momentos tensos, tudo cortesia da imprudência generalizada no trânsito.

Seguia firme e atento, sempre desconfiando do que vinha na próxima curva.

Ao contrário do isolamento nas montanhas centrais do Himalaia, agora eu passava por uma região mais povoada, cheia de vilas e lombadas naturais (leia-se: crateras). O tempo todo com gente, movimento, buzinas e calor. Nada de tranquilidade tibetana ainda.

Sem GPS nem mapa, eu me guiava pela memória e pelas placas — quando legíveis e em inglês. Sabia que precisava passar por cidades como Kullu e Mandi. Depois da cidade de Naggar, me deparei com uma bifurcação em Y com placas em hindi. Escolhi o caminho “mais promissor” e segui. Parei um pouco depois pra perguntar a um grupo de rapazes, usando a velha tática de dizer os nomes das cidades. Com gestos e sorrisos, entenderam e me explicaram que eu estava no rumo errado. Voltei só alguns quilômetros. Nada grave.

Passei por um túnel escuro onde vacas andavam livremente, um risco para quem não tem farol potente. Mais à frente, encontrei uma turma de macacos na beira da estrada, parei para tirar fotos e aproveitei para trocar a jaqueta: agora o calor apertava.

Enquanto fazia isso, um casal com uma filhinha no colo — que eu havia conhecido no Rohtang Pass no dia anterior — parou para me cumprimentar. Estavam a caminho de Délhi e se lembraram de mim. Pequenos encontros que fazem parte da magia da estrada.

Mais adiante, parei em frente a um templo hindu lindíssimo e fiz várias fotos. Depois de Mandi, a estrada finalmente deu um refresco: 5 km de pista duplicada e asfalto lisinho. Mas só 5 km mesmo — e voltamos à programação normal.

Em determinado ponto, confundi o nome de uma cidade no caminho com outra mais distante e quase errei a rota de novo, mas percebi a tempo. Erros leves e parte da diversão. O importante era continuar rodando.

A fome bateu e parei numa barraca à beira da estrada. O dono fritava pães recheados com batata em uma panela cheia de óleo escuro e escorria tudo em cima de jornais. Comi um. Estava gostoso. E custou só 0,16 dólares. Gourmet não é, mas é autêntico!

Mais tarde, atravessando um trecho de mata, vi um grupo grande de macacos. Parei novamente para fotos, mas a cena virou drama: um filhote foi atropelado por um carro. Em segundos, um macho alfa saiu da mata, gritando e avançando na minha direção. Não esperei a continuação do filme — dei partida e saí voando dali.

Cheguei a Dharamshala pouco depois das 17h. Passei em frente ao Centro de Turismo, que parecia aberto, mas já não atendia. Um senhor me informou que o expediente era só até às 5. Nesse momento, um rapaz numa moto parou e perguntou se eu procurava hospedagem. Disse que tinha um quarto em um hostel fora da cidade, com bom preço, mas sem internet. Agradeci — internet era essencial — e preferi procurar algo no centro.

Achei um hotel, deixei a moto, tomei banho e fui matar a saudade de pizza: jantei no Domino’s ali perto. Nada como terminar o dia com carboidrato ocidental e ar-condicionado.


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