Com a permissão na mão, a viagem finalmente podia continuar! Eu estava de volta à estrada e com um objetivo claro: alcançar as passagens de montanha mais altas do planeta, no coração gelado de Ladakh.
Acordei cedo em Leh. E que sufoco sair do casulo de cobertores e do saco de dormir! O frio era cortante — sem aquecedor, sem piedade. Fui ao banheiro praticamente tremendo, mesmo usando segunda pele e pijama. Os lábios estavam rachados, e ao assoar o nariz… sangue. Sim, o Himalaia não dá boas-vindas com gentileza.
Passei protetor solar no rosto e protetor labial nos lábios sobreviventes. Peguei uma garrafa de água mineral, fiz um lanche rápido, ajeitei a bagagem na moto e parti para abastecer. Eram 8h30 da manhã. Enchi também os dois galões de 5 litros, porque dali pra frente, só muito vento e zero posto até o retorno a Leh.
Saí pela mesma estrada que me trouxe à cidade, margeando o rio Indus até chegar a Karu, onde há uma grande base do exército indiano. Recebi orientação de um soldado e segui por uma estradinha de terra. Ao longo dela, uma cena curiosa: homens e mulheres quebrando pedras com marretas, como se estivessem esculpindo o Himalaia à mão.
Passei perto do monastério de Chemrey — que eu nunca tinha visto em foto, mas me deixou encantado. Fica encravado numa montanha e lembra o monastério de Ki, no Spiti Valley. Parei pra várias fotos, claro.

Logo depois cheguei a Serthi, onde a estrada principal estava bloqueada para obras. Um garoto fez sinal para eu pegar outro caminho. A estrada era boa, asfaltada, mas estreita e cheia de curvas. Depois de uns 5 km, cheguei à vila de Sakti, onde vi um pequeno monastério colado às rochas. Bonito, mas… algo não batia. Eu tinha memorizado o mapa da região e aquela estrada me levava pra outro destino.
Vi um senhor tocando uma vaca e tentei pedir informações. Nada feito, ele não entendia uma palavra. Voltei até o bloqueio e, por gestos, o funcionário me explicou que havia uma entrada à direita alguns quilômetros antes. Voltei e encontrei uma parede onde, com carvão, alguém tinha escrito “Pangong” com uma seta. Peguei a trilha indicada — isso mesmo, trilha! — e encarei 5 km de subida esburacada até encontrar a estrada principal, que também estava bem detonada.
Um comboio do exército passava por ali. Tive que esperar todos os caminhões e depois fui ultrapassando um por um — tarefa difícil em estrada estreita, cheia de buracos, beirando abismos.
A viagem seguiu acima dos 4.000 metros de altitude. Após 80 km, a estrada começou a subir em zigue-zague a encosta de uma montanha. Passei por soldados, caminhões e paisagens cobertas de neve. O frio doía nos ossos, mesmo com o sol.
Às 11h cheguei ao ChangLa, a terceira estrada mais alta do mundo, com 5.391 metros de altitude. Havia uma base militar e até uma lanchonete, mas estava lotada de soldados. Desisti de parar.

A estrada seguiu por um trecho mais plano, gelado e árido, até descer de novo a cerca de 4.000 metros, em um festival de curvas. Em Durbuk, parei num dhaba (restaurante simples de beira de estrada). Pedi omelete e chá. Dois motociclistas que vinham na direção oposta alertaram: “Não tente ir de Pangong para Nubra direto, a estrada está horrível.” E perguntaram como estava o caminho até Leh.






Mais adiante, em TangTse, precisei parar num posto de checagem e mostrar os documentos. Alguns quilômetros depois, o cenário mudou: um pouco de vegetação, animais pastando, um rio cortando a paisagem e vistas de tirar o fôlego. A estrada? Virou um desafio com obstáculos. Em determinado ponto, tive que cruzar uma área alagada, com muito cuidado.




Finalmente cheguei a Spangmik, uma vila sazonal que só “existe” entre maio e outubro — no restante do ano, fica isolada pelo frio e pela neve. Fui direto para uma área com tendas próximas ao famoso Pangong Lake, um lago azul-turquesa hipnotizante, na divisa entre Índia e Tibete.


Negociei com o dono e aluguei uma tenda com cama e banheiro. Conheci dois casais de Calcutá, simpáticos, hospedados nas tendas ao lado. O jantar estava incluso: arroz, dal, couve-flor e uma sopa rala, mas gostosa.





Mais tarde, saí para fotografar o céu estrelado — que estava um espetáculo! Mas o frio não me deixou curtir por muito tempo. Voltei para a tenda, entrei no saco de dormir e ainda me escondi sob quatro cobertores grossos. Foi o jeito.








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