Dormi quase a noite toda — milagre! Apesar das dores insistentes no ombro e nas costas, acordei com uma sensação de leveza. Pena que a energia elétrica tinha resolvido tirar folga no hotel. Mas o céu estava limpo, o clima agradável e, depois de um lanche rápido, às 7h30 já estava na estrada rumo a Manali, a cerca de 70 km dali. No caminho: o temido e famoso Rohtang Pass.
Abasteci no posto de Tandi, curtindo o fato de me sentir bem e relativamente descansado, mesmo depois de tantos dias e perrengues. A estrada já era conhecida — tinha feito esse mesmo trecho um ano antes com o Rafael (tem relato disso no site!) — mas tudo parecia… diferente.

Trechos que antes eram um tapete agora estavam detonados, e os que eram verdadeiros campos de batalha tinham se transformado em tapetes de asfalto. É a instabilidade do terreno jogando roleta russa com a engenharia. E as construções? Casas, hotéis, lojinhas… jurava que nada disso existia no ano anterior. Mas segui firme, confiando mais no instinto que na memória.




As paisagens mudaram completamente. Ontem eu estava em desertos gelados e secos acima dos 4.000 metros, quase sem cor. Hoje, florestas de cedros, montanhas verdes e vida por todo lado. Era como sair de Marte e cair nos Alpes — só que na Índia. A borda do Himalaia tem esse poder.
Asfalto bom, asfalto ruim, buracos, curvas. E gente — muita gente. Crianças e mulheres trabalhando na estrada, quebrando pedras com marretas, varrendo areia, carregando sacos de terra. Uma realidade dura que emociona e faz pensar.





Cruzei com muitos motociclistas em suas Royal Enfield, parecendo saídos de Mad Max — roupas escuras, óculos de aviador, cara de missão impossível. Um deles parou quando eu estava tirando fotos. Queria saber se tinha passado da entrada para o Spiti Valley. Achei que sim, e expliquei… só depois percebi que eu é que tinha passado da bifurcação sem notar. Já estava na subida para o Rohtang Pass e só me dei conta quando começaram as curvas de 180 graus — um looping de emoções, barro, pedras soltas e poças de água.
Cheguei ao topo do Rohtang Pass, a 3.979 metros de altitude, pouco depois das 11h. Céu aberto, temperatura agradável e o lugar lotado de turistas — muitos indianos vêm aqui para ver neve de perto, já que é uma das passagens de montanha mais acessíveis da região. Um contraste total com o ano anterior, quando só eu e Rafael estávamos por ali, com garoa fina e clima fantasmagórico.






Fiz fotos no Stupa, enfrentei fila no marco do topo (sim, tinha fila pra selfie!) e fui “celebridade por um dia” entre os turistas curiosos com um brasileiro viajando sozinho pelo Himalaia. As perguntas clássicas: “De onde você é?”, “Está vindo de onde?”, “Vai pra onde?”, e a reação de sempre: olhos arregalados e sorrisos de espanto.








A descida foi mais tensa: trânsito pesado de carros e caminhões, além de obras em andamento. Já próximo a Manali, começou uma chuva fina que deixou tudo ainda mais caótico. Na ponte estreita que cruza o rio Beas, formada pra um carro por vez, uma fila quilométrica se arrastava. Esperei cinco minutos e depois fiz o que todo motociclista faz por lá: enfiei a moto no vão apertado entre os carros parados e a grade da ponte — na marra e no reflexo.





Fui atrás do mesmo hotel onde fiquei no ano passado, mas não achei. Depois de muita negociação com donos de hotéis e empurra-empurra de preços, consegui um quarto em outro lugar.
Planejava visitar templos nos arredores, mas o corpo disse “não” — a dor ainda era grande. Resultado: fiquei no hotel o resto da tarde e noite, recuperando as energias e digerindo tudo o que esse dia maluco tinha proporcionado.
Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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