Esse era O Dia. O mais esperado. O mais sonhado. Há mais de dois anos eu imaginava o momento em que alcançaria Khardung La, a lendária passagem de montanha que, até pouco tempo atrás, ostentava o título de mais alta do mundo acessível por estrada. Cravada a 5.602 metros de altitude, ela liga o deslumbrante Nubra Valley à cidade de Leh, no coração de Ladakh, Himalaia.
Acordei com o sol tímido das 6h30. Meus anfitriões ainda estavam roncando, mas o quarto onde eu estava tinha uma varanda com saída direta pra rua — então carreguei a bagagem, montei tudo na moto, e voltei pra fazer barulho até alguém acordar. Funcionou. O nepalês levantou meio zonzo, preparou um lanche rápido, acertamos a conta e eu segui pra estrada.
Minha primeira parada foi no posto de gasolina de Diskit. Que cena! O lugar parecia uma mistura de oficina abandonada com ferro-velho: chão de cascalho, galpão improvisado num barranco, bomba manual — literalmente o posto mais tosco que já abasteci em todas as viagens que fiz. Mas tinha gasolina, e era isso que importava.
Peguei a estrada que segue pelo vale por uns 35 km até encontrar o rio Shyok, e segui por mais uns 15 km acompanhando suas águas. Quando cheguei ao entroncamento com a estrada que vai para o Pangong Lake, a subida começou. E com ela, o desafio.
O asfalto precário logo deu lugar a um cascalho punk: pedras grandes, algumas enterradas, outras soltas sobre areia fofa. E, pra deixar o cenário ainda mais emocionante, um comboio do exército engatado numa subida lenta e empoeirada. Ultrapassar caminhão por caminhão, com risco e suor, virou o esporte da manhã.



Passei pela vila de Khardung, e então — finalmente — lá estava ele: Khardung La, imponente, frio, e cheio de história. Cheguei pouco antes das 10h30, e senti aquele misto de alívio, conquista e… falta de ar. Afinal, estamos falando de 5.602 metros de altitude.



O topo estava decorado com bandeiras de oração coloridas e uma construção budista tradicional. Havia também uma base militar e um som alto e meio desagradável vindo de umas caixas mal posicionadas. Uma placa alertava: “Permanecer aqui por mais de 20 minutos pode prejudicar sua saúde”. Fiquei meia hora. É claro.
Continuei a descida. Em um trecho estreito, dois caminhões vindos em direções opostas travaram a estrada. A negociação sobre quem daria ré levou uma eternidade, mas faz parte do charme caótico do Himalaia.

Alguns quilômetros depois, o asfalto reapareceu e a estrada ficou mais amigável.
Cheguei de volta a Leh ainda antes do almoço, por volta do meio-dia. Me hospedei no mesmo hotel de antes, almocei num restaurante ali perto e saí à caça de um HD externo novo — o meu estava falhando e me fez perder fotos e vídeos preciosos da GoPro. A frustração foi grande, mas não ofuscou o brilho da conquista.
Foram 134 km rodados nesse dia — e um degrau simbólico a mais na escadaria de memórias inesquecíveis da viagem.

Se você curtiu esse relato e quer mergulhar ainda mais fundo nessa jornada épica, publiquei um livro onde conto tudo com muito mais detalhes — desde o planejamento minucioso, as decisões sobre equipamentos, as histórias que vivi na estrada, até as paisagens inacreditáveis que registrei em centenas de fotos. É um diário completo da viagem, recheado de curiosidades sobre a cultura local, os desafios da altitude, encontros inesquecíveis e os bastidores dessa aventura pelas estradas mais altas do mundo. O livro está disponível na Amazon e pode ser adquirido pelo link: Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano. Se você gosta de viagens de moto, roteiros fora do comum e histórias reais de superação e descobertas, vai se identificar!











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