847,2 km | Vento forte | Câmera danificada | Encontro com gafanhotos
Depois de um café da manhã bastante modesto no hotel, comecei cedo os preparativos. Lubrifiquei a corrente, conferi óleo, água do radiador e ajeitei a bagagem na NC 750X. Ainda precisava abastecer, então parei num posto logo na saída e completei o tanque. O relógio marcava pouco depois das 7h30 quando finalmente fui para a estrada, com destino a Palmas, no Tocantins.
Logo nos primeiros quilômetros, a paisagem já começava a se abrir e o vento a soprar com força, chegando a empurrar a moto de leve para fora da trajetória. Apesar disso, o tempo estava agradável e o trânsito rarefeito, o que ajudava a manter um bom ritmo.
Na divisa entre o Distrito Federal e Goiás, parei para a tradicional foto com a placa. Armei o tripé, acionei o timer e corri para entrar no enquadramento — mas aí veio uma rajada de vento traiçoeira. A câmera caiu com a lente virada para o chão. Quebrou o filtro UV e amassou a rosca. Tentei remover o que sobrou, mas um pedaço de vidro permaneceu lá, criando uma sombra nas fotos seguintes. Guardei tudo com certa frustração e segui em frente, resignado. A estrada também deixa suas marcas nos equipamentos.

A paisagem por ali era dominada por vastos campos de milho e soja, agora em entressafra. Quilômetros e quilômetros de palha seca, um verdadeiro mar dourado. Aos poucos, comecei a ganhar altitude e o cenário mudou — campos deram lugar a vegetação seca, árvores retorcidas e formações montanhosas. Cruzei uma placa: Chapada dos Veadeiros.


Parei de novo, ainda incomodado com o vidro preso na lente. Dessa vez, munido de um pequeno alicate, consegui forçar e retirar o anel quebrado. A lente resistiu bravamente, com apenas um pequeno amassado. A câmera estava viva. Respirei aliviado.
Na Serra do Pouso Alto, atingi o ponto mais alto do dia: 1.576 metros de altitude. Mais uma parada para contemplar e fotografar.
Segui a sugestão do meu amigo Maumau, de Araguaína, e peguei uma rota alternativa às sugeridas pelos mapas online. Valeu a escolha: estradas em ótimo estado, pouco trânsito e visuais belíssimos. Só o vento continuava castigando — em alguns trechos, precisei inclinar a moto contra ele para manter o equilíbrio. Me lembrou os ventos da Patagônia, com as devidas proporções, claro.
As coisas começaram a mudar ao cruzar a fronteira com o Tocantins. Na cidade de Arraias, o GPS me guiou por ruas em condições deploráveis. A estrada melhorou um pouco, mas estava longe do padrão que encontrei em Goiás. Nada de buracos profundos, mas os remendos mal feitos exigiam atenção constante.





Em determinado ponto, o asfalto desapareceu por completo, dando lugar a uma estrada de terra. Resolvi voltar até uma vila que havia passado pouco antes e, no posto local, o frentista me explicou que havia uma estrada asfaltada à direita — invisível para o GPS. Voltei e a encontrei. Estava em ótimo estado até Natividade. De lá pra frente, o caminho virou desafio: remendos sobre remendos, o asfalto original sumido, e a moto quicando como cabrito.

Ultrapassar caminhões se tornou um jogo arriscado. Eles serpenteavam na pista tentando escapar dos buracos e, sem querer, invadiam a contramão. Era preciso calma e atenção redobrada.
E então, como se a estrada já não oferecesse emoção suficiente, veio o momento surreal do dia: vi algo voando sobre o asfalto — insetos grandes ou pássaros pequenos? Num instante, o céu foi tomado por uma nuvem de gafanhotos. Um deles acertou minha bota, outro explodiu contra meu braço, espalhando um líquido verde. Abaixei por trás do para-brisa e reduzi a velocidade, sendo bombardeado por dezenas deles. Um ataque aéreo inesperado.
Depois do susto, segui até Palmas. Cheguei ao entardecer e encontrei um bom hotel perto do centro, com preço justo. Um banho longo lavou a poeira da estrada, e fui jantar em um restaurante próximo, especializado em carnes. Pedi um prato bem brasileiro: picanha, arroz, tropeiro, mandioca cozida e vinagrete, acompanhado de duas cervejinhas geladas.
Mais um dia vencido. A estrada cobra seu preço, mas retribui com histórias que valem ser contadas — e vividas.












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