10º dia – de Paramaribo a Nieuw Nickerie

240 km de moto | As belezas da zona rural e os encantos do interior surinamês

O plano do dia era simples: acordar cedo, pegar estrada cedo e chegar cedo à fronteira com a Guiana para pegar a balsa antes das 8h da manhã, quando o portão fecha e só reabre no dia seguinte. A ideia era atravessar para a Guiana e seguir direto até Georgetown, capital do país, para pernoitar lá. E, pelo menos no começo, segui tudo direitinho.

Mas aí entra em cena a distração deste bocó aqui.

Às 4h30 eu já estava pronto, bagagem presa na moto, chave do quarto entregue na recepção do hotel. Montei na moto e segui as indicações do GPS — que, aliás, descobri que só funciona direito se você digitar o destino direto nele, e não seguir o trajeto exportado do computador.

A saída de Paramaribo é fácil, mas longa, porque a cidade simplesmente não acaba. São muitos quilômetros de casas enfileiradas dos dois lados da estrada. Já estava pilotando há uns 20 minutos quando me dei conta: não tinha ativado o rastreador! #%@$&! (isso é um palavrão censurado). Tinha deixado o aparelho sobre a moto enquanto ajustava a roupa e esqueci de guardar.

Parei na hora e voltei. Já tinha rodado uns 25 km. O problema era o tempo: eu imaginava que tinha uma folga para chegar à fronteira antes do fechamento, mas essa folga não incluía o tempo perdido voltando. Mesmo assim, não dava pra arriscar. O rastreador é alugado, e se eu perdesse, teria que pagar outro.

Assim que entrei no estacionamento do hotel, o vigia veio ao meu encontro. Falei que tinha esquecido um equipamento e ele perguntou:
— É pequeno?
Confirmei.
— Está na recepção, encontramos cedo.

Fui lá e me devolveram. Pensei se valia a pena tentar acelerar para chegar a tempo, mas achei melhor não. Perguntei se poderia voltar para o mesmo quarto só até o meio-dia. A moça da recepção olhou o sistema e autorizou. Levei a bagagem de volta, vesti o pijama e dormi até umas 8h. Apesar da frustração, eu estava cansado e precisava daquele descanso.

Depois de acordar, pesquisei onde poderia pernoitar mais próximo da fronteira e encontrei a cidade de Nieuw Nickerie. Vi que tinha alguns hotéis, então esse virou o novo destino do dia.

Respondi alguns e-mails e mensagens, vesti novamente a roupa de viagem, prendi as bagagens na moto e peguei estrada.

Enquanto ainda cruzava as ruas de Paramaribo, parei para tirar algumas fotos. Mas como estava vindo de um quarto com ar-condicionado, assim que saí o calor e a umidade embaçaram as lentes da câmera.

A viagem até Nieuw Nickerie é relativamente tranquila. A estrada passa por várias vilas, com tráfego intenso no início e mais calmo depois que se afasta da capital. O asfalto e a sinalização são bons na maior parte do percurso, mas há um trecho logo na saída da cidade em obras, com o asfalto totalmente removido, e outro, já quase chegando, cheio de buracos. Em boa parte do trajeto, não havia sinalização nenhuma.

Cerca de 60 km antes de chegar ao destino, parei em um posto de controle. Mas os agentes só fizeram sinal para eu seguir em frente.

Olhando agora, depois de tudo, acho que mesmo sem o imprevisto do rastreador seria bem difícil cumprir o plano original de atravessar a fronteira e chegar até Georgetown no mesmo dia. Talvez o tempo não fosse suficiente de qualquer forma.

Já em Nieuw Nickerie, parei para abastecer e perguntei ao frentista onde encontraria um hotel. Ele me deu uma direção, que segui, mas não encontrei nada. Sabia que tinha visto três hotéis pela internet, mas devia haver mais. Fui rodando pelas ruas e vi uma placa de hotel. Quando parei, um senhor na porta fez sinal de que estava fechado, mas apontou para outra direção. Fui até o final da rua e encontrei um hotel grande, parte de madeira, parte de concreto.

Uma senhora com traços indianos me atendeu. Disse que havia quartos disponíveis por um valor um pouco acima de R$ 60. Pedi para ver. O quarto era simples, mas tinha ar-condicionado e estava aparentemente limpo. Um cheiro estranho me incomodou, e depois descobri que era porque se permite fumar nos quartos. O cheiro parecia ser de algum produto usado para disfarçar o cigarro. Mesmo assim, fechei negócio. O quarto me lembrou bastante alguns lugares que fiquei durante a viagem pela Índia. Quem leu meu livro Viagem de Moto pelos Caminhos do Himalaia vai entender o que quero dizer. Até a torneira no banheiro era parecida.

Depois de um ótimo banho (a água é fria, mas parecia morna de tanto calor), saí para caminhar pela cidade. Andei por umas duas horas. Nieuw Nickerie é pequena, plana, e muitas ruas têm canais de água, que não parecem muito limpos. Vi bastante lixo e garrafas plásticas jogadas. Algumas casas são bonitas, com muros baixos (quando têm), e a maioria tem gramado entre a rua e a entrada. Algumas gramas bem cuidadas, outras precisando de corte. O tempo todo ouvi o barulho de cortadores de grama trabalhando.

Passei em um supermercado e comprei pão, refrigerante, queijo fatiado, biscoitos e água mineral para comer no fim do dia. Só vi restaurantes chineses por onde passei, e não estava nem um pouco a fim de comida oriental.

Tentei sacar dinheiro nos caixas eletrônicos da cidade, que ficam nas ruas como na Europa, mas não consegui em nenhum. No Suriname, é comum trocar moeda estrangeira em supermercados — a maioria, de chineses. Eles não falam inglês, mas a troca é simples e a cotação, boa. Fiz isso em um supermercado perto do hotel, trocando dólares por moeda local, para não correr risco de ficar sem dinheiro na travessia do dia seguinte.


Comentários

Deixe uma resposta


Para adquirir os livros abaixo, acesse o site do autor: romuloprovetti.com

Livro A caminho do céu - uma viagem de moto pelo Altiplano Andino
A caminho do Atacama
Livro sobre viagem de moto pelo Himalaia
Livro sobre viagem de moto até Ushuaia
Um brasileiro e uma moto no Himalaia indiano