6º dia – de Belém a Macapá

0 km de moto | Amanhecer amazônico | Navegar é preciso, reclamar também

Dormi bem com o balanço do navio e o barulho compassado do motor, que vinha abafado do porão e acabava soando como uma canção de ninar. Ao acordar, fui direto para o banho. A água era “na temperatura ambiente”, ou seja, quente — típica de quem navega no coração da Amazônia. Sem toalha disponível, me enxuguei como deu: com uma velha camisa de algodão.

O café da manhã foi simples: leite com café, um pão doce e uma fatia de melancia.

Logo depois, subi ao convés e fui presenteado com um espetáculo silencioso e grandioso:

O sol surgia timidamente por trás da floresta, tingindo o céu com pinceladas laranjas e douradas.
As árvores pareciam acordar junto com o rio.
O vapor denso que subia das águas se misturava aos primeiros raios, criando um cenário mágico.

O barco seguia lento, enquanto o mundo despertava à sua volta.
E ali, naquele instante, tudo parecia se encaixar.
Navegar pela Amazônia é, antes de tudo, um privilégio.

O restante da manhã foi dedicado a observar uma das cenas mais marcantes da viagem: dezenas de pequenas embarcações — conduzidas por crianças, mulheres e homens — se aproximavam do navio para vender ou receber doações. Passageiros jogavam roupas e alimentos embalados em sacolas plásticas, que eram recolhidas com impressionante destreza.

Outros, mais ousados, vendiam açaí, palmito, camarão, farinha e outros produtos direto das canoas — tudo acondicionado em vasilhas plásticas, e os negócios fechados num piscar de olhos.

Essas embarcações, frágeis e rápidas, circundavam o grande navio com a agilidade de peixes curiosos em torno de uma embarcação adormecida. Os rios e canais amazônicos, cada um com um nome e personalidade diferentes, permitiam essa circulação intensa.

Alguns trechos eram largos como lagos. Outros, mais estreitos, ainda assim abrigavam grandes barcaças carregadas de caminhões — uma amostra da grandiosidade da hidrovia amazônica.

No início da tarde, fui até o bar e tomei uma cerveja com o Leandro, um empresário gaúcho que conheci a bordo. Ele viajava com o filho e contou que estava iniciando um negócio de açaí no Amapá. Logo apareceram mais passageiros para a roda de conversa: um cearense, um paraense, um baiano… e até um sujeito que morava na Guiana Francesa, que me deu dicas valiosas para minha futura passagem por lá.

O almoço, vendido à parte, era simples, barato e bem gostoso. A chuva caiu forte pouco antes da chegada, como se anunciasse a mudança de cenário.

O navio atracou no fim da tarde em um porto particular na cidade de Santana, que fica ao lado de Macapá. Fui até o porão buscar a moto, mas encontrei um obstáculo: ela estava no fundo, encoberta por mercadorias. Um tripulante me tranquilizou:
— “Pode deixar, tiramos isso rápido.”

Na frente da moto, uma barreira de caixas de ovos, sacos de trigo e cestos de açaí. Começaram a descarregar lentamente. Quando perguntei a um dos trabalhadores, ouvi que só terminariam por volta das 10 da noite. Não esperei. Peguei um táxi e fui para Macapá.

O Leandro indicou um hotel que ele costuma usar por ali. Mais caro do que eu vinha pagando, mas com boa estrutura. Combinamos de jantar juntos. Fomos a pé até um restaurante chamado Peixaria do Jairo, indicado pelo rapaz da recepção.

Pedimos um peixe com camarão e legumes. Estava excelente, e eu me esbaldei.

Na hora de pagar, dividimos a conta, e eu, distraído, não conferi o valor passado no meu cartão. Ao chegar no hotel e lançar a despesa no meu controle, vi que tinham cobrado quase o dobro do valor que cabia a mim.

Voltei lá, reclamei e me devolveram a diferença. Depois, repassando mentalmente os valores, desconfiei que, além de tudo, a conta foi inflada na base também. Não voltei para reclamar de novo, mas fica o alerta para quem um dia visitar o local.


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