Anos Dourados

Atualmente, motociclistas estradeiros podem dar volta ao mundo com relativa facilidade. Acontece, todavia, que muitos deles esquecem terem sido os veteranos pioneiros que criaram e os incentivaram a trilhar essa maravilhosa modalidade esportiva que induz conhecer novas terras; outras pessoas; diferentes costumes regionais e até internacionais. Esta última, porém, exclusiva para alguns privilegiados.

O que antes era feito pelos veteranos através de estradas hostis, de terra e desertas, hoje em dia várias gerações vêm sendo até abençoadas com estradas asfaltadas, sinalizadas, povoadas, levando apenas consigo além das suas novas, equipadas e possantes motos, uma parafernália de aparelhos tais, como celular, GPS, Laptop e por aí afora. Isso sem se falar nos cartões bancários e de crédito que permitem comprar, movimentar e sacar quantias quando e onde quer que esteja o viajante, seja ele de que cidade, estado ou país for.

Nesse aspecto… um viva para a tecnologia da informática!

Será oportuno também lembrar, a dificuldade que havia para encontrar postos de gasolina e oficinas; cidades ou até mesmo simples povoados; locais onde comer e beber; inclusive abrigos para dormir com um pouco de conforto e segurança contra intempéries, insetos e animais.

Outrora, localizar um aparelho telefônico em viagens através das estradas era algo extremamente difícil e muitas das vezes até impossível. E se pensam que após conseguir localizar um aparelho a aventura acabou por aí, estão muito enganados porque, localizado um aparelho numa cidadezinha qualquer, havia a etapa seguinte para conseguir uma linha. Linha essa que demorava muito a surgir, e isso quando dava sorte da Cia. Telefônica Brasileira (CTB) estar funcionando.

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Na época havia também, em raros locais, aparelhos telefônicos mais antigos ainda, os quais eram ativados por magnetos. Para utilizá-los era necessário girar com rapidez uma pequena manivela, que após acionada ativava um magneto embutido no aparelho provocando energia; essa energia fazia determinada lâmpada acender no painel da empresa telefônica; a telefonista de plantão via, atendia, e a pessoa interessada na ligação dizia com que número queria contato; após isto o infeliz sofredor ficava esperando até a telefonista completar a ligação; então, após o milagre da ligação completada ela era finalmente transferida para o infeliz interessado.

Simples, não?

E o Bancos? Com eles a coisa também não era fácil porque cheques não eram aceitos em outros estados e até em municípios próximos por falta de tecnologia da informática. Transferência de valores através de linha telefônica? Como fazer isso depois das dificuldades antes apresentadas e ainda por cima estando em viagem por lugares desconhecidos?

Cartão bancário então nem pensar, porque não existia e nem se cogitava que um dia pudesse existir tal facilidade ou milagre.

Então, mediante tais empecilhos, o recurso era levar dinheiro em espécie. Mas fiquem tranquilos porque, para compensar essas e outras dificuldades, violência não existia, e nem a desmedida série de assaltos atualmente existentes. Eram outros tempos. Tempos nos quais, muito embora pudesse haver dificuldade por um lado, mas por outro estava a segurança e prazeres hoje considerados inconcebíveis, tais como:

Namorar, mesmo que fosse nas estradas em razão de um acontecimento casual (era maravilhoso); bater distraidamente um longo papo com amigos e familiares nas calçadas, fosse de dia ou mesmo plena madrugada; deixar a motocicleta sozinha sem qualquer dispositivo de segurança e nem pensar se ela seria roubada, danificada; dormir ao relento quando achasse divertido, ou mesmo quando necessário.

Infelizmente, esses prazeres que nos “Anos Dourados” podiam ser feitos normalmente, acabaram-se, parecendo àqueles que não os conheceram, meras utopias de um ingênuo e romântico estradeiro.

Mas malgrado toda adversidade anterior e também a atual, o espírito desafiador e aventureiro dos motociclistas de todas as gerações estão consolidados e são indestrutíveis!

Quem sabe poderão estes motociclistas dar exemplos de amizade, solidariedade e respeito, contagiando pessoas a ponto de voltarmos a viver nos fabulosos Anos Dourados?

João Cruz é autor do livro Motociclistas invencíveis
j.v.cruz@oi.com.br

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