Eu tinha feito a minha parte…

Dei duro por vários meses, Office-boy bancário, salário pequeno porém totalmente guardado. Morava com meus pais, não tinha despesas além das pessoais e estas, bem, estas podiam ser negligenciadas em favor de um sonho.

Havia anos que eu consumia avidamente as revistas especializadas, procurando sempre os detalhes, os lançamentos, as novidades. O mundo das duas rodas me encantava desde que me lembro, desde quando me apaixonei pela primeira bicicleta, pelo vento no rosto, pela velocidade e por toda a sensação de liberdade que ela transmite.

A infância, deixada pra traz pela adolescência, porém transformara a bicicleta não mais uma novidade emocionante, mas em veículo corriqueiro do grupo de amigos. O sonho agora ia mais longe, queria mais…

Eram anos difíceis aqueles em que as importações estavam cerceadas e uma motocicleta se tornava um sonho ainda mais distante. Ao passar defronte às lojas, as últimas motos importadas, caríssimas, eram a cada dia mais escassas, arrebatadas por outros apaixonados que tinham condições de pagar por elas.

Mas as revistas traziam novos sopros de esperança, vindos da emergente indústria nacional. Nada do glamour das vitrines internacionais, eram motos de baixa cilindrada e tecnologia vulgar, porém estariam logo disponíveis ao público médio. Eu tinha que conseguir me incluir dentre estes…

Obter um emprego foi apenas o primeiro “round” vencido a partir do qual as lutas da vida adulta iriam imperceptivelmente enlaçando-me, hipnotizado pelo sonho de consumo possível. Chefes, obrigações, hierarquia, horário, responsabilidades. Nada poderia se interpor entre ela e eu.

A escolha foi fácil, afinal o dinheiro que obtivera, mesmo com a relutante ajuda de meus pais, não permitia comprar nada além da tão desejada Yamaha RS-125. Entrar na loja e fechar negócio era outro caso, exigia uma coragem que apenas a presença e apoio paternos poderiam conferir. A única unidade disponível era verde e embora não fosse minha cor preferida, eu não poderia suportar a ansiedade da espera por outras cores. Comprei-a e como não fosse habilitado, mandei entregá-la emplacada diretamente em minha casa, processo que levaria três intermináveis dias nos quais eu só tinha o “manual do proprietário “ e o estojo de ferramentas.

Na tarde do terceiro dia, ao voltar do serviço, incrédulo, avistei-a na garagem. Num misto de medo e ansiedade girei a chave e a luz verde acendeu no painel. Acionei a pedivela, ouvi o ronco do motor e senti o cheiro do óleo 2 tempos, meu coração bateu mais rápido. Agora, a liberdade era só questão de tempo…

A moto eu já tinha !


Comentários

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  1. Avatar de João Vicente Cruz Jr.
    João Vicente Cruz Jr.

    Olá Caetano, achei ótima sua colocação ao apresentar um texto claro, conciso e que, com leveza envolve fantasiosa adoração à 1ª moto e o empenho em possuí-la para que o sonho se torne realidade. Por coincidência, logo no início da sua exposição, suas palavras comprovam meu pensamento no texto: Minha 1ª Motocicleta, cuja ‘chamada’ encontra-se um pouco acima da sua. Notei tratar-se de veterano motociclista, pelo fato de invocar os anos 70 ao citar a proibição (anos 60) nas importações de veículos, e a fabricação de motos no Brasil (Manaus-AM) logo depois. Após luz verde do painel acesa, pedivela (pedal do quique) acionada e sentido o aroma da mistura do óleo com a gasolina no motor 2 tempos, aguardarei interessado a continuidade da sua história.


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