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Caso de paixão

  • Categoria: Argentina
Viagem de moto pela Argentina

Essa é uma história de um típico caso de paixão pelo motociclismo.

Tudo começou em 1988, quando tinha 9 anos e ví pela primeira vez em minha vida uma Yamaha Ténéré azul e amarela no trânsito de Belo Horizonte. Imponente, aquela máquina enorme, vista pelos olhos de uma criança, parecia uma nave espacial ou algo que só poderia ser pilotada por algum tipo de super-herói. Foi paixão à primeira vista. Nunca mais me esquecerei daquela cena na avenida de minha cidade.

O tempo passou, meu interesse por outras motos foi crescendo, mas sempre que ouvia um "tótótó" pelas ruas, logo identificava – "é uma Ténéré!"

Em 2007 tive a oportunidade de adquirir uma completamente em frangalhos... tudo enferrujado, motor vazando óleo por tudo que é lado, batendo biela, virabrequim empenado, rolamentos com folga, tanque amassado, farol adaptado de Brasília, enfim... um caco! Não sei porque, mas apesar de perceber todos aqueles defeitos a paixão falou mais alto e resolvi comprar aquele monte de ferro velho, para a alegria do antigo dono. Até hoje não sei como consegui chegar em casa, mas estava orgulhoso e satisfeito com a nova aquisição, mesmo sabendo que restaurar aquela moto não seria serviço de pouca monta. Dei a ela o nome de Lucrécia.

Negócio feito, iniciei a restauração da Lucrécia no final de semana seguinte, desmontando a moto completamente em minha garagem. Coloquei as peças dentro de uma caixa e fui feliz pintar o quadro, as canelas e balança da suspensão em uma indústria aqui da região metropolitana. A partir dali iniciou-se uma grande aventura, garimpando peças, substituindo parafusos, fazendo novos amigos. Posso dizer que durante dois anos me diverti muito e conheci muitos aficionados pela Yamaha XT 600z Ténéré.

Viagem de moto pela Argentina - carretera austral

Nesse período minha namorada quase terminou comigo, argumentava que eu passava mais tempo à moto do que com ela. No inicio era um fetiche, afinal, todo sujo de graxa eu era seu mecânico predileto, mas depois percebi que minha namorada estava ficando entediada com a situação. Foi aí que tive uma idéia: Propus a ela que, assim que terminasse a restauração da Lucrécia, iríamos fazer uma grande viagem pela América do sul. Acho que naquele momento nem eu e muito menos ela acreditou naquela história maluca de rodar pela América Latina em uma moto de 1990, que há dois anos atrás não passava de um caco velho. Amigos me diziam que eu era louco, que não fazia sentido arriscar tempo, grana e, principalmente, as nossas vidas em cima de uma moto antiga nas estradas de nossos países vizinhos. Escutava aquilo tudo calado e pensava comigo: "morre lentamente quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem ao menos uma vez na vida fugiu dos conselhos sensatos..." estas palavras do poeta Português Pablo Neruda ecoavam em minha mente e não me deixava abalar pelos "conselhos sensatos"

Em Setembro de 2009, montei os alforges na Lucrécia, amarrei algumas ferramentas no bagageiro, passei na casa de minha namorada, ela subiu na garupa e rumamos para o ponto mais austral do planeta, a última faixa de terra ao sul da América Latina onde é possível chegar de moto: Ushuaia! E só Ushuaia não bastava, teríamos que passar pela Ruta 40 na Argentina e pela Carretera Austral no Chile, ambas de rípio. Era um super desafio para nós e para a Lucrécia. Afinal, possuir uma moto com alma de Rally e andar só no asfalto não tinha graça nenhuma e, particularmente, acho que a Ténéré fica mais bonita quando está suja de terra.

Pois bem, após 48 dias de viagem, rodamos 13.850 quilômetros pela Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai, tomamos chuva, tempestades de neve, sentimos frio, muito frio, ventos tão fortes que não era possível passar de 50 km/h com o motor 600 da Lucrécia. Passamos por regiões de inóspita beleza, com infinitas paisagens e onde ainda é possível apreciar intactas as obras da natureza.

Viagem de moto pela Argentina

Conhecemos maravilhosas pessoas com diferentes culturas, incríveis paisagens, uma natureza hostil que deve ser respeitada, principalmente para quem vai de moto, e uma gastronomia ímpar, com cordeiros patagônicos, frutos do mar, salmões e trutas regados a muito vinho. E que vinhos... Enfim, uma viagem que, desde o início da restauração da moto até o retorno para casa em segurança, deixará histórias para toda uma vida. Histórias para serem contadas para os netos. Emoções e sentimentos que só é possível viver em cima de uma moto. Histórias que só foram possíveis devido à paixão pelo motociclismo.

Viagem de moto pela Argentina

Viajar sobre duas rodas no sul da América latina foi uma experiência inesquecível. Dias na estrada e entre a estrada. As palavras nunca serão suficientes pra dizer, e graças a Deus que não são. Uma experiência solidária e solitária. Horas sem conversar, a moto não permite isso: é limitada. Já o pensamento: ilimitado. Eternas construções, uma espécie de "elaborações livres", junto a cenários e nossas sombras, que às vezes eram as únicas companheiras. Frio, e um vento que nunca sentimos em nossa vida. O dia do tornado. O dia que nossas mãos e pés quase congelaram, a sensação de perder os movimentos. Cinco blusas no corpo. Bagagem reduzida. Moto que estragava, O calor dos corpos à noite. Anjos no caminho que nos acolheram. A diferença dos países. A língua dos povos. Baleias, muitas baleias, ali na nossa frente, bailando no mar. De onde elas vieram? Pra onde elas vão? Os pingüins - longe dos olhos. o que sabíamos era que as fêmeas estavam chegando de viagem. Guanacos, divertidos, bem humorados. Ovelhas, cavalos selvagens. A neve. O inverno que prolongou junto com a primavera que apontava doce. A solidão da ruta 40. Deserto. Pedras soltas. Refugio. Silêncio, vento, pôr do sol, que sutilmente aquecia. Medo de cair, de não estar protegido.

Viagem de moto pela Argentina

Isso foi sair do lugar comum porque o comum nos protege. Depois da longa distancia, chega o Chile. Carretera Austral, cheia de vida! Sem frio, sem vento. Rios, lagos, bichos, e cores. O verde toma espaço e despede do deserto e aos poucos da neve. Mas já dava saudade da força da Patagônia. As vilas e quem ali habita. Vivem de que? De que sofrem? Existe angustia? Vulcão em erupção. Digo que a Patagônia é linda. Existe mudança após patagônia? Não sei. Sei que vivemos após Patagônia. Pulsamos. E após o estradar, chegamos ao último ponto de terra do planeta, sozinhos. O ultimo ponto é o fim. E é isso. Ponto que nos aponta pra um belo ponto final.

(mas audaciosamente digo: continuemos (...))

Comentários (15)

  1. Marcelo Dias

Parabéns! Que linda história e viagem! Em.2002, fiz também em uma Yamaha Tenere 600cc! Saímos de Porto Velho de barco até Manaus, e de la seguimos ate a Isla de Margarita na Venezuela!

No retorno resolvi encarar a Br 319 de Manaus a Porto Velho, no período de chuvas! Que moto valente!

  1. Carlos

Me identifiquei bastante com vc, também queria fazer uma viagem pro Atacama, até Santiago com uma Tenere 600, não lembro o ano, mas também era azul, com dois faróis, mas o meu mecânico de confiança não me aconselhou a fazer isso. Acabei não adquirindo a Tenere e troquei minha esportiva CBR 600...

Me identifiquei bastante com vc, também queria fazer uma viagem pro Atacama, até Santiago com uma Tenere 600, não lembro o ano, mas também era azul, com dois faróis, mas o meu mecânico de confiança não me aconselhou a fazer isso. Acabei não adquirindo a Tenere e troquei minha esportiva CBR 600 por uma Hornet, me preparei com ela e deu tudo certo a viagem. Agora to vendendo a hornet e vou adquirir uma Triumph 800Xc e vou preparar Ushuaia e Macho Picchu. tenho algumas informações sobre a viagem no site www.comdestinos.com.br. Abraço pra vcs.

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  1. Marcos Wellington

Parabéns pela aventura! Não é pra qualquer um e não é pra <br />qualquer moto. Tenho muita vontade de fazer uma viagem dessa! A moto eu já tenho(uma TÊNÊRÊ 88),so falta o tempo e a<br />coragem!!!rsrsrs!<br />Um Grande Abraço!

  1. Armando Vidigal

Parabéns pela viagem, grande aventura, grande moto. O "tótótó" da Ténéré realmente é um barulho que faz o coração bater com mais força.

  1. Wagner

Me identifiquei na parte onde quase terminou com sua namorada, enquanto reformava a moto.<br />Já fiz a mesma coisa com minha atual esposa, que na época, era minha namorada. Até li para ela este trecho.<br />Parabéns pela coragem. Dizem que quando estivermos bem velhos, só nos sobrarão as...

Me identifiquei na parte onde quase terminou com sua namorada, enquanto reformava a moto.<br />Já fiz a mesma coisa com minha atual esposa, que na época, era minha namorada. Até li para ela este trecho.<br />Parabéns pela coragem. Dizem que quando estivermos bem velhos, só nos sobrarão as histórias para contar.<br />A sua aventura me deu novo ânimo, e com certeza a todos motociclistas de coração que leram este texto.<br />Fica a frase:<br />"Não tento explicar às pessoas porque viajo de moto.<br />Para os que compreendem, nenhuma explicação é necessária.<br />Para os que não compreendem, nenhuma explicação é possível."

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  1. Sergio Borges

Beleza e viagem, principalmente tua decisão em realizar. Tambem viajo muito de moto e sei o quanto é recompensador. Os amigos que fiz por causa da motocicleta são em numeros muitos superiores dos que fiz durante toda minha vida e que não estão relacionados a moto. Parabéns. No nosso site tem...

Beleza e viagem, principalmente tua decisão em realizar. Tambem viajo muito de moto e sei o quanto é recompensador. Os amigos que fiz por causa da motocicleta são em numeros muitos superiores dos que fiz durante toda minha vida e que não estão relacionados a moto. Parabéns. No nosso site tem alguns relatos e fotos de nossas aventuras pela américa. www.cuturneiros.hd1.com.br

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  1. SANTOS DUMONT C VIEIRA

PARABENS PELA GRANDE AVENTURA DE VOCES,EM JANEIRO PROXIMO SERA MINHA VEZ.

  1. Cláudio Botelho

"A moto nos permite um contato direto com a natureza, o que não acontece com a caixa de lata e vidro que é o carro". Também possuo uma Ténéré 600, ano 92, moto que me proporciona momentos de emoção em minhas viagens.Parabéns pela coragem e determinação. Abraço ao irmão da estrada.

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