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Projeto Ushuaia - de Harley até o fim do mundo

13 h portico ushuaia

TENHO 59 ANOS, sou mineiro, mas moro em Brasília há bastante tempo. Quando era mais jovem fui piloto de caça da Força Aérea Brasileira e, há seis anos, me aposentei como Coronel. Em junho de 2011, estava à procura de uma nova profissão e me inscrevi num curso de "coaching" que seria realizado em 2012, na cidade de Pucon, no sul do Chile, região dos lagos e vulcões. E já que havia decidido ir, pensei que seria uma ótima ideia ir de moto, aproveitando a oportunidade para cruzar a Cordilheira dos Andes em minha Harley-Davidson Electra Glide.

Tomada essa decisão, tratei de conseguir outro motociclista para ir comigo e logo meu amigo, o Rui Barbosa, topou o desafio. Passei então a fazer o planejamento da viagem e estudar as possíveis rotas. Foi nesse momento que, inspirado nas aventuras do meu amigo Artur Albuquerque (ver relato da viagem Alaska Expedition), surgiu o sonho de, como ele, também ir até Ushuaia. Para isso, bastava esticar a viagem um pouco mais para o sul, afinal, para quem já iria rodar 10.000 km de Brasília a Pucon, ida e volta, seriam "apenas" mais 5.000 km entre ir e voltar de Pucon a Ushuaia. Falando assim parece brincadeira, mas Realizar uma aventura desse porte é o sonho de muitos motociclistas, em especial de alguns apaixonados pelas Harley-Davidson como eu, o Rui e o Claudio, nosso amigo de Belo Horizonte que posteriormente aderiu ao projeto. O mais interessante disso tudo é que quando decidi ir de moto até Ushuaia, acabei desistindo de fazer o curso de "coaching" em Pucon. Fiquei só com a viagem de moto e tenho certeza que foi muito melhor assim.

Pedro Humberto só queria ir a um curso no Chile, mas acabou embarcando em uma aventura extraordinária até o último ponto de terra da América do SulUma viagem do porte do Projeto Ushuaia 2012, onde se pretende rodar de moto aproximadamente 15.000 km, passando por três países e mais de 200 cidades, não é simplesmente uma aventura qualquer. Muitas coisas precisam ser feitas previamente para que tudo saia bem na viagem e, para isso, um bom planejamento é necessário.

Como não poderia deixar de ser, a primeira e mais importante consideração a ser realizada foi quanto à época do ano mais apropriada para o desafio. Considerando que Ushuaia está situada no extremo sul do continente, ao lado da Antártida, a viagem só poderia ser feita no verão, caso contrário a neve e o frio seriam obstáculos intransponíveis. Assim sendo, após vários meses de intensos preparativos, saímos em 21 de janeiro de 2012 de Brasília, rumo a essa que seria a maior aventura de nossas vidas. Foram 37 dias inesquecíveis de estrada, montados em nossas possantes e maravilhosas Harleys onde vimos coisas incríveis e desfrutamos de paisagens espetaculares.

13 f passo

Outro ponto importante que determinamos foi que, por se tratar de uma viagem de 7.000 km na ida e 8.000 km na volta, os trechos a serem rodados por dia não podiam nem ser muito curtos, para não atrasar demais a viagem, nem muito longos, pois seria cansativo demais. Sendo assim, estabelecemos uma média de 580 km a fazer por dia. Mais uma questão fundamental foi definir que, no mínimo a cada três ou quatro dias, faríamos uma parada para descansar, preferencialmente em uma cidade onde houvesse algum atrativo especial, como uma praia, um ponto turístico interessante, etc.

A primeira parada foi em Uberaba, Minas Gerais, onde nos encontramos com Claudio, que se juntou a nós na jornada. De lá, seguimos pelo interior de São Paulo, passamos pelo Paraná, cruzamos o litoral de Santa Catarina, entramos no Rio Grande do Sul por Vacaria e rumamos para o oeste até São Borja, que era nossa última parada no Brasil. De lá, entramos na Argentina pela fronteira de Uruguaiana, a caminho do extremo sul da América do Sul.

A partir de então os desafios se tornaram maiores e mais difíceis de superar. No trecho entre Bahia Blanca e Puerto Madryn, já na Patagônia argentina, por exemplo, são apenas 22 curvas em 725 km de percurso, um martírio mesmo para os mais experientes.

Além disso, eu que achava que o famigerado rípio chileno fosse o mais complicado, me enganei. O mais difícil mesmo foi vencer o furioso vento da Patagônia. Nos últimos 1.600 km antes da chegada, nos trechos entre Puerto Madryn, Comodoro Rivadávia, Calleta Olívia, Rio Gallegos e Ushuaia, enfrentamos um verdadeiro vendaval que nos açoitava quase o dia todo, por três dias seguidos. Vencer esse furacão que chegava a mais de 60 km/h de velocidade, exigiu de cada um de nós muita perícia e atenção total na pilotagem. Era necessário rodar com a moto inclinada para o lado direito, de onde vinha o vento, como se estivéssemos fazendo uma curva. Qualquer vacilo em corrigir as mudanças de direção e intensidade das rajadas poderia significar sair para o acostamento de um lado ou encarar um caminhão na pista vindo em sentido contrário.

18 os 3 no gelo

Porém, no 13o dia de viagem, depois de enfrentar uma jornada de 14 horas de estrada, a mais longa de toda a viagem, estávamos, enfim, chegando ao nosso destino. Não tenho nenhuma dúvida ao afirmar que os últimos 80 km antes da chegada a Ushuaia estão entre os melhores e mais felizes momentos que já passei na minha vida. Após cruzar a Cordilheira dos Andes pelo Passo Garibaldi, nos deparamos com uma estrada de curvas espetaculares serpenteando por entre vales verdejantes margeados de altas montanhas com seus picos nevados, numa esplêndida e, para mim, inédita paisagem.

Nesse momento, não pude conter a emoção que me dominou e chorei de felicidade e alegria dentro do meu capacete. No pórtico de entrada da cidade, paramos as três motos no acostamento e nos abraçamos para rezar e agradecer a Deus por essa conquista. A alegria era tanta que, para quem passava ali perto, nós três parecíamos um bando de doidos. Com o volume do som das motos nas alturas, pulávamos, dançávamos e gritávamos, tudo ao mesmo tempo, tamanha era a emoção de concretizar nosso sonho. Fizemos tanta festa que chamamos a atenção da polícia local, que veio nos questionar o por quê de tanta bagunça. Depois de nos explicarmos aos policiais, até eles quiseram fazer parte da brincadeira e tiraram fotos conosco.

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Depois de cumprida essa grande missão, era hora de descansar em Ushuaia. Passeamos de barco pelo famoso Canal de Beagle e fomos até o maravilhoso Parque Nacional del Fin del Mundo, onde termina a Rota 3 e seus 3.079 km de extensão desde Buenos Aires.

Partimos no dia seguinte em nossa jornada de volta, mas desta vez faríamos um caminho diferente. Ainda quando estava planejando a viagem, muitos motociclistas que já haviam ido até Ushuaia me recomendaram passar por Torres del Paine e El Calafate, lugares de beleza singular.

Dito isso, saímos de Ushuaia, voltamos por Rio Gallegos, El Calafate, passeamos pelo Glaciar Perito Moreno e enfrentamos o temido rípio chileno, um trecho de 150 km de terra e cascalho vulcânico, terror de muitos motociclistas. Mas posso dizer que passamos bem por ele, claro, três horas e 30 minutos depois...

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Como uma recompensa por tudo que havíamos passado desde nossa saída de Brasília, nossas esposas foram nos encontrar em nossa parada em Bariloche, na Argentina. Foram momentos maravilhosos para matar a saudade, descansar e passear. Durante os 11 dias seguintes, elas foram nossas companheiras até a cidade de Mendoza, onde regressaram de avião para casa, enquanto nós seguimos em nossa missão sãos e salvos até Brasília.

Havíamos chegado ao fim do mundo com nossas motos Harley-Davidson. E que máquinas maravilhosas. Elas chegaram até ali e voltaram para casa sem apresentar nenhum problema ou defeito que pudesse nos preocupar. Até mesmo um prego, que lá na Patagônia atravessou o pneu traseiro da moto do Claudio, saindo pela lateral, não chegou a ser um problema. Vez por outra íamos medindo a pressão do pneu e, como ele não estava vazando, fomos seguindo viagem. No fim, o prego foi até Belo Horizonte, depois de rodar mais de 8.000 km atravessado no pneu.

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Nesses dois meses e meio de viagem, aprendemos muito sobre nós mesmos convivendo diariamente com o desconhecido e enfrentando, solitários dentro de nossos capacetes, os mais profundos e inconfessáveis medos. Nossa amizade, com certeza, saiu dessa epopéia muito mais fortalecida. Afinal, Harley-Davidson não é isso mesmo?

Se quiser mais detalhes sobre essa viagem, acesse http://projetoushuaia2012deharley.blogspot.com.br

Texto publicado na revista HOG® de setembro 2012

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