Viagem de Shadow pela América do Sul

Depois de um bom tempo de planejamento, finalmente a grande viagem de moto chegou e foi melhor do que o esperado. Foram 9.900 km para cruzar quatro estados brasileiros, Argentina, Chile e Uruguai durante 21 dias com minha valente Shadow 750. Muitas amizades se criaram e muita gente de todo o canto do mundo e do Brasil acabaram enriquecendo mais os dias e as experiências vividas.

1º dia: Ansioso, quase não dormi direito. Acordei às 4h da manhã e parti para a estrada saindo de Jacareí, interior de São Paulo. Nos primeiros quilômetros a adrenalina estava nas alturas. Só fui me dar conta depois que passei a capital do estado de São Paulo.

Seguindo em frente, fazia paradas apenas para abastecer e para almoçar, até que uma chuva terrível me obrigou a parar em um posto por não conseguir enxergar nada. Depois disso, continuei no mesmo ritmo até chegar a Foz do Iguaçu (PR). Só neste dia foram mais de 1.000 km rodados.

Viagem de moto america do sul

2º dia: Depois de rodar até não aguentar mais, fiquei um dia em foz para conhecer a cidade e as grandiosas cataratas. Acordei tranquilo no hostel em que estava e fui fazer um incrível passeio pelas Cataratas. Na volta parei em um posto e ainda consegui lavar a moto, que estava pura terra vermelha do Paraná. Mais uma volta pela cidade e fui descansar.

3º dia: Com medo, acordei cedo e fui para a aduana. Chegando, só tinha dois carros na fila. O agente me pediu os documentos e pronto, já estava na Argentina. Segui em frente, passando por pequenas cidades até alcançar infinitas retas. Perguntei a um rapaz sobre os postos de gasolina e me disse pra ficar tranquilo. Então fui embora, chegando no posto já na reserva. O lugar só tinha diesel e o próximo estava a uns 100km, então bateu o desespero. Tentei de algum jeito um pouco de gasolina dos carros que estavam lá, mas nada, até que um motociclista uruguaio que estava passando me ajudou com uns 2 litros e fomos juntos. Nisso avistamos um vilarejo e eu fui tentar algo no lugar, chegando lá, ao pedir informação, um rapaz muito legal me levou até uma casa aonde um senhor me vendeu 5 litros de gasolina. Depois me levou até sua casa e me ofereceu almoço junto com sua família. Fiquei muito grato por toda a ajuda. Saí de lá em direção a Corrientes, mas acabei indo até Resistência, aonde um outro argentino me acolheu em sua casa ao ver que não tinha aonde dormir. Fizemos um lanche à noite e uma boa noite de sono na região muito quente do Chaco.

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4º dia: Mais uma vez acordei cedo. Me despedi da família que me deu abrigo e fui embora de Resistência. A região é muito quente. Andei um dia inteiro em uma única reta interminável. Quando estava chegando na cidade de Salta, uma chuva me alcançou, mas foi rápida. Na entrada da cidade encontrei uma turma de brasileiros em duas motos e um carro, então juntamos todo mundo e fomos para um ótimo hotel.

A moto precisava trocar óleo urgentemente.

5º dia: Não consegui trocar o óleo no dia anterior. Acordei para fazer isso, porem sem sucesso mais uma vez por causa de um parafuso teimoso. Resolvi então me juntar à galera que estava indo para a cidade de Jujuy. Saímos depois do almoço com muita chuva, por uma estradinha linda, porem perigosa. À noite fomos descontrair em um restaurante sem saber o que nos esperava no dia seguinte.

6º dia: Acordamos cedo na intenção de chegar ao Chile nesse dia, porem já saímos com chuva do hotel,. No caminho, uma barreira policial informou que a estrada estava bloqueada e que não haveria como passar. Voltamos frustrados para Jujuy e começaram as especulações do que iriamos fazer e a correria para conseguir mais informações.

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7º dia: Sem alternativas, resolvemos esperar na cidade. Conhecemos um casal, o rapaz argentino e a moça portuguesa, que nos convidou a fazer um churrasco na sua casa. Depois de andar o dia todo, fomos para a casa deles. Nos receberam muito bem, muito papo sobre culturas e diversas coisas, e também informações do ocorrido. As notícias davam conta da pior tempestade em 40 anos na região e sem previsão de quando iriam liberar a rodovia, então ou esperávamos ou retornávamos por onde viemos.

8º dia: No hotel, acabei conhecendo também um casal que estava viajando de triciclo. Conversando com eles, me disseram de um caminho alternativo que tentariam passar. Despedi amigos que fiz nesses dias, que retornariam para o Brasil, e me juntei ao triciclo.

Saímos de Jujuy e voltamos para Salta onde pegamos uma estrada que cortava o meio do deserto até uma cidade pequena chamada San Antonio de los Cobres. Só nesse dia já foram uns 50 km de rípio. Quase ficamos sem gasolina de novo e não achamos lugar para dormir. Ficamos então em uma espécie de pousada daquele jeito, mas tudo com ar de aventura.

9º dia: Acordamos com muito frio, mas determinados a ir ao Chile naquele dia. Fomos deserto a dentro por 100 km de rípio, sem contato nenhum com nada, só areia e montanhas. A estrada era horrível, quase fiquei por lá várias vezes, mas depois do sufoco, chegamos enfim à ruta 9 e à aduana chilena. Depois dos 6 trâmites e tudo mais, entramos no pais e continuamos viagem até uma tempestade nos alcançar. Um frio terrível até chegar a San Pedro de Atacama.

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10º dia: Depois de todo o perrengue do dia anterior, tirei o dia para turistar. O casal seguiu sua viagem com destino ao Perú e eu voltei a ficar sozinho. Curti uma piscina, dei uma volta para conhecer a cidade e à tarde fiz um passeio ao Vale de la Luna e ao Vale de la Muerte. A região do deserto é incrivelmente linda, vale muito a pena conhecer. Depois retornei para comer uma bela empanada e dormir na minha humilde barraca emprestada.

11º dia: Precisava voltar à estrada. Peguei a neguinha e fui para la Mano del Desierto para tirar a foto clássica. Lá encontrei um alemão que estava também de moto e seguimos juntos até encontrar pela primeira vez o Oceano Pacifico. O visual é incrível. Depois de rodar bastante, cheguei à cidade de Copiapó, aonde encontrei 5 motos de brasileiros.

12º dia: Pulei cedo mais uma vez e segui viagem sozinho. A estrada no Chile é muito bonita, cercada de montanhas do deserto e do mar ao mesmo tempo. Assim foi até a cidade de Viña del Mar, aonde fiquei um bom tempo perdido até achar o hostel que iria dormir. Cheguei, deixei as coisas e corri pro mar. Depois de um banho no pacifico, encontrei uma brasileira de Floripa no hostel e acabamos ficando até tarde conversando.

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13 dia: Depois de uma noite muito legal com o pessoal do hostel, peguei a neguinha e fui sentido Argentina. Na região mais ao sul, nessa época, a Cordilheira dos Andes, a estrada e os caracoles são ainda mais incríveis e gelados com os picos nevados. Depois de uma boa fila na aduana, estava de volta à Argentina, aonde segui até a cidade de San Luís.

14º dia: Fiquei em um hostel muito legal, aonde conheci um motociclista argentino que estava fazendo sua primeira viagem de moto, o que rendeu um bom papo. Mas neste dia acordei tendo como destino à capital do país. E assim, fui o dia inteiro de estrada com muito vento e calor.

Chegando a Buenos Aires, uma manifestação enorme bem na praça do obelisco me esperava. Assim, tive que descer e ir empurrando minha leve moto no meio da multidão ate chegar ao hostel, aonde conheci um mineiro que estava estudando na cidade. Não teve jeito, à noite fomos curtir os bares e as baladas da capital e valeu a pena.

15º dia: Acordei tarde devido à noite anterior. Iniciei viagem e, depois de perder quase uma hora tentando sair da capital, consegui chegar à estrada que me levaria à aduana uruguaia. Passei por lá sem problemas e, como estava atrasado, segui direto pelas estradas esburacadas do Uruguai até a cidade de Punta del Este, aonde de novo fiquei perdido para achar o endereço do Hostel em que ia ficar. Quando achei o lugar já eram 9h30 da noite.

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16º dia: Sem condições de seguir devido ao cansaço, resolvi ficar um dia na cidade. No hostel estavam vários brasileiros fazendo mochilão, então depois do almoço fomos juntos à praia. Ao voltar, juntamos com alguns uruguaios em uma partida de futebol na rua. Muito legal. À noite fui conhecer o cassino famoso da cidade e o centro de Punta que é incrível. Acabamos voltando para dormir com o sol já nascendo.

17º dia: Levantei tarde e sai de Punta com destino ao Brasil. Avistar a aduana e meu pneu traseiro furou. Tentei usar o reparo em spray, mas nada. Voltei então a uma borracharia na beira da estrada, aonde o cara disse que não podia mexer na minha moto. Sem conseguir mais andar, larguei tudo lá e sai à pé ate a cidade mais próxima procurando uma borracharia aberta em pleno domingo. Depois de andar muito, achei um senhor que pegou uma carretinha e fomos buscar a moto. Desmontamos o pneu, ele remendou o furo da câmara e deu tudo certo. Me despedi dele e de sua família, que me ajudaram e consegui entrar no extremo sul do Brasil. Nesse dia dormi em Rio Grande.

18º dia: O cansaço já estava batendo, mas levantei mais tranquilo e fui para a estrada. No caminho, pude ajudar um motociclista que estava com uma pane elétrica na estrada. Após resolvermos o problema, fui embora. Cheguei a Gramado e fui dar um passeio no Museu da Harley, no Museu de Cera e na cidade. À noite fiquei em um Camping muito bacana, aonde as estrelas estavam de uma maneira única no céu.

19º dia: Sai tranquilo de Gramado, pois não queria andar muito neste dia. Percebi que no dia anterior minha bolsa de ferramentas ficou pela estrada e nem vi. Cheguei a Florianópolis ainda no começo da tarde, aonde pude curtir mais um pouco do mar e um pôr do sol na praia.

20º dia: Sai de Floripa com chuva e muito trânsito na rodovia. Foi até o almoço, quando o tempo melhorou um pouco. Decidi não tocar direto pra casa e fazer mais uma parada no meio do caminho. Fiquei em Cajati, em uma pousada na beira da estrada só para pernoitar.

21º dia: Ultimo dia de viagem sem pressa. Sai de onde estava, botei a neguinha na estrada sentido São Paulo. Como sempre, a Serra do Cafezal estava em obras, então tudo parado. Depois disso, quando avistei a capital de São Paulo, uma chuva me pegou e assim cruzei a cidade caótica até pegar a Dutra, aonde já estava praticamente em casa. Cheguei a Jacareí por volta das três da tarde com um enorme sorriso e a sensação de dever cumprido.

Depois de tudo que aconteceu em todos os dias de viagem, as amizades que se criaram, as dificuldades enfrentadas e as estradas percorridas, tive a certeza que o que importa nessa vida são os momentos que levamos dela e que para uma grande jornada começar você precisar apenas dar o primeiro passo.

E assim se encerrou a expedição de um jovem de 20 anos e sua moto, uma valente Shadow 750, pela America do sul.

Última modificação: Seg 30 Jan 2017

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