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De Corrientes a Monte Quemado

  • Categoria: Viagem aos Andes

Corrientes

Quando estava em frente ao hostel, colocando minhas bagagens de volta na moto para partir, um grupo de motociclistas brasileiro estava preparando-se para deixar um hotel em frente ao hostel, exatamente do outro lado da calçada. Conversamos um pouco sobre o itinerário, eles estavam retornando do Atacama e penso que ficaram um pouco impressionados pelo fato de eu estar só e com uma motinho velha de 250cc, pilotada por um também velhinho. Contaram-me que alguns do grupo em que estavam sentiram o problema da altitude e não completaram a viagem, retornando antes deles. Tomei aquilo como um aviso, eu já havia passado mal em Cusco, no Peru, por causa da altitude.

Tudo arrumado, iniciei minha viagem de moto em direção à ponte sobre o rio Paraná e que é o início da RN16, que me levaria ao norte da Argentina.

Quando sai do hostel, ouvi um barulho diferente, assim como se o escape estivesse vazando pela boca do cano, junto ao cabeçote – observei por um tempinho, mas logo parou e segui tranquilo. Do outro lado da ponte está a cidade de Resistência, onde não é permitido o tráfego de motos sobre a rodovia, é preciso trafegar pela via lateral, lá chamada de coletora, até que se deixe a área urbana. Se você trafegar pela rodovia poderá ser multado e sei lá mais o quê. Há muitas placas sinalizando a proibição do tráfego de motocicletas na pista principal e deve-se observar isso, não há como dizer "eu não sabia".

Na saída de Corrientes há, inclusive, uma "pegadinha" para os motociclistas estrangeiros. A via lateral tem uma saída bem na cabeceira da ponte e a tendência é passar por ali, o que não deve ser feito porque ainda é área proibida e tem um posto policial estrategicamente colocado para fiscalizar. Deve-se continuar pela via lateral e passar esta saída, cerca de uns 150 metros à frente há um acesso à alça que leva a ponte: esse é o caminho correto e evitará uma multa ou propina. Para melhor entender, vejam o mapa do Google o endereço -27.4741054, -58.8503632 (copie e cole essas coordenadas no campo de buscas do Google Maps - onde aparece a setinha verde é o caminho errado). Essa dica quem me deu foi o Valmir, que já marchou uma vez ali e depois aprendeu e repassou a informação. Então, como eu já sabia, passei pelo local correto – apesar de que as motos locais passam pelo local "proibido" sem problemas (as estrangeiras não).

A RN16 começa como uma excelente estrada que vai degradando a partir da metade do trajeto. Havia rodado uns 120 km quando começou a chover, parei para colocar a roupa de chuva e quando fui dar partida, a bateria parecia arriada. Empurrei a moto para o outro lado da estrada, onde havia uma árvore cheia de fitas vermelhas e uma espécie de capelinha, dessas que se vê na estrada quando ocorre um acidente e morre alguém no local, toda vermelha também. Mais tarde soube que era uma espécie de oratório para um personagem bastante cultuado na Argentina, chamado Gauchito Gil. Ali tentei ajuda de uns meninos que passaram em um ciclomotor. Eles tentaram empurrar a moto, mas não havia tração na terra e a estrada estava com tráfego intenso e também molhada, não deu certo. Mais tarde eles retornaram com uma corda para me rebocar, mas fiquei receoso de andar sobre a rodovia rebocado por uma motinho com dois adolescentes, agradeci imensamente pela boa vontade, mas fiquei ali. Após 1 hora mais ou menos passou um guincho para o qual fiz sinal pedindo ajuda. Ele fez o retorno e veio até onde eu estava. A bateria dele era de 24 volts e eu não quis arriscar uma ponte e danificar algo no sistema elétrico da moto.

Em Machagai aguardando abrir a oficina
Em Machagai aguardando abrir a oficina

Resolvemos então levar a moto para uma mecânica na cidade mais próxima, que era Machagai, por 250 pesos (85 reais). Foi então que aprendi que naquela região o comércio em geral fecha às 13 e reabre entre 15 e 16 horas, conforme a vontade do patrão. Cheguei com a oficina fechada, às 13h30, e o mecânico apareceu às 15h30, examinou a moto, deu uma carga na bateria, apertou alguns contatos e a moto voltou a funcionar e novamente aquele barulho diferente, porém menos ruidoso. Tenho um problema de audição e não consegui identificar de onde vinha o ruído e como a resposta do motor não estava comprometida, mantinha a lenta inclusive, resolvi seguir.

Levava comigo um relato de outros viajantes que passaram por esta região e o roteiro deles era meu plano B. Como perdi um bom tempo em Machagai e não conseguiria chegar a Salta, que era o objetivo daquele dia, resolvi dormir em Monte Quemado, onde cheguei à noite por conta do atraso sofrido e da estrada completamente esburacada.

Na chegada pedi informações sobre o hotel e, assim que arranquei a moto, fui atropelado por dois adolescentes em um ciclomotor sem luz alguma, saído de sei lá onde. Quando me dei conta estava estatelado no chão e sentia um forte cheiro de gasolina. Atordoado, levantei-me e ainda tive tempo de ver os meninos fugindo com a motinha, uma aglomeração já ia se formando em volta de mim. As pessoas ajudaram a levantar a moto e o cheiro de gasolina vinha do meu galão que se rompeu, espalhando parte do combustível na rua. Um exame rápido e constatei que o prejuízo fora só material: um galão com 5 litros de gasolina, um pisca com a lente quebrada e guidão e manete do freio tortos – eu estava bem, foi só o susto. Um ciclista dispôs-se a me guiar até uma mecânica para desentortar o guidão e lá fomos. A oficina era, na verdade, uma borracharia e o senhor dono do local chamou um mecânico conhecido seu para examinar a moto enquanto eu fiquei sentado em uma cadeira bem confortável me refazendo do susto. Nessa hora, observando a moto, é que notei que havia perdido a tampa lateral do lado da bateria, não sei se na estrada ou no acidente recente, passei um extensor entre o quadro e a lateral da moto para evitar a queda da bateria.

Passada uma meia hora, a moto estava em condições de uso novamente e um motociclista que também estava no local me guiou até o hotel. Boa gente em Monte Quemado.

O hotel Nove de Julio era até ajeitadinho por fora, dentro era uma espelunca de última, mas era o que tínhamos para o momento. A moto ficou estacionada em frente ao quarto do hotel e eu dormi muito bem, estava muito cansado pelo dia intenso devido às dificuldades ocorridas.

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