Saímos de Timisoara e rumámos para a Hungria, apenas uma passagem para a nossa viagem de moto, não havia tempo para parar, infelizmente. Passamos a 5 km de Budapeste, mas era impossível parar. A etapa era muito grande, cerca de 800 km.

Tínhamos que rumar para ocidente. Estar a mais de 3000 km em linha reta de Portugal e a 300 km da Moldávia e da Ucrânia.

Toda a viagem foi programada para fazer muitos quilômetros no início (apoiados pelos ferry) e no fim para que pudéssemos apreciar as etapas do meio, nos Balcãs.

Quando você entra na Hungria, as estradas melhoram consideravelmente. Quando chega à Eslovênia, está no primeiro mundo!

A Eslovénia é um País onde já se sente bem os ares dos Alpes Julianos. Já os tínhamos sentido na Transfagarasan, nos Alpes Cárpatos, mas ali nota-se bem o fresquinho.

Chegar a Ljubljana é uma descida que não acaba mais… descemos, descemos, descemos… (a moto começou a descida com 50 km de autonomia e depois de 30 percorridos, tinha 60) sempre com as montanhas no horizonte.

Viagem de moto Europa Balcas - Ljubljana

Bem aos pés dos Alpes fica a capital da Eslovênia, Liubliana ou Ljubljana, uma cidade muito eclética, bonita, arrumada, organizada, limpíssima e cheia de vida.

É uma cidade antiga, Celta. Os edifícios são majestosos e muito bem cuidados. Respira-se cultura.

A arquitetura vinca bem a mudança do regime comunista para o regime capitalista. Os edifícios portantes, cinzentos e frios, contrastam com as armaduras de ferro e vidro dos novos edifícios ocidentais.

Mas ali, preservou-se a história, manteve-se com todo o esplendor os portentos edifícios que, depois do fim da União Soviética, mostram que afinal, mesmo feios, guardam em si uma certa beleza no meio de uma paisagem rodeada de montanhas íngremes, escarpadas, rochosas e gélidas.

- “epá o que é aquilo nos telhados?”

- “são as anteparas para a neve, para que, quando do degelo, evitem a queda de grandes maciços de neve do telhado e esmague as pessoas que passam na rua” - fala o nosso Mike, luso-canadense muito habituado à neve.

Segundo conta uma lenda, Liubliana, no ano de 1144, era uma cidade dominada por um terrível dragão que costumava atirar fogo para aterrorizar seus habitantes a partir de uma das torres do castelo. Depois de muito tempo de solidão e destruição, o dragão apaixonou-se por uma doce fêmea e deles teria nascido o primeiro dragão artista do mundo, um menino que não fez as vontades do pai…

(conheço alguns Dragões assim, quando vêm um fêmea deixam logo de atirar fogo e mais tarde nem nos putos mandam, mas isso são outras cenas, hehehe)

O rio Lublianica marca e divide o centro da cidade em dois, com as três famosas pontes e com os dragões esculpidos à entrada de cada uma delas.

Nota-se uma forte influência Alpina, Austríaca.

As pessoas são muito simpáticas, cultas, falam facilmente o Inglês e outras línguas e nota-se uma organização disciplinada.

Os Eslovenos tem características físicas nórdicas, são claros, altos, de olhos claros. Nesta viagem percebe-se claramente a diferença entre os povos. A segregação das raças e da religião é por demais evidentes, todos os povos são diferentes em termos físicos, basta passar uma fronteira e você nota logo isso, muito embora se trate de poucos quilômetros, porque há países nos Balcãs que você atravessa facilmente num dia e ainda te sobra tempo. As marcas da separação não deixam os povos misturar-se.

Por incrível que pareça, foi a guerra que misturou algumas raças, com as atrocidades. Mas o povo faz questão de não se misturar.

Viagem de moto Europa Balcas - Ljubljana

Outra coisa curiosa é que, muito embora a Eslovênia tivesse participado da guerra separatista relativamente recente (foi o primeiro país a sair da Jugoslávia) no Travel Risk Map é um dos países mais seguros do mundo, e só rivaliza com 2 ou 3 nórdicos. É um claro sinal do desenvolvimento humano!

Ficamos um dia sem andar de moto, somente a visitar a cidade. No sábado de manhã fomos à feira, bem no centro da cidade. Uma feira muito bem organizada, com uma mescla de cores inebriante, flores, frutas, artesanato, tudo. Havia ainda uma festa na cidade com diversos petiscos de rua e churrascos de deixar água na boca.

Imagine-se agora, era uma festa muçulmana!!!, com música muçulmana e comida muçulmana, no centro da cidade, num país com 91% de cristãos católicos e com uma guerra na memória que, também ela, foi religiosa. Tiro-lhes o chapéu! É uma lição de tolerância para o Mundo e um sinal de desenvolvimento humano que, infelizmente, no mundo moderno, deixa muito a desejar. Parabéns!

PS: uma coisa única e engraçada, você pode comer uma refeição muçulmana, ouvindo música muçulmana acompanhado por uma cerveja. Coisa impensável, por exemplo, na Bósnia.

As ruas estão cheias de gente. Em alguns locais, artistas mostram as suas habilidades, os sons dos saxofones espalham-se pelo ar, junto com uma bateria a compasso, as esplanadas estão cheias, muito bem decoradas e com uma arrumação quase militar.

Foi uma tarde muito bem passada, numa cidade onde se respira cultura, tolerância, alegria, beleza, tranquilidade e com o frescor dos Alpes nas costas…

Vale a pena visitar e passar um fim de semana em família! Já passei por muitas capitais europeias, mas por esta, fiquei apaixonado.

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