Cheguei às pressas a Puerto Montt, ainda a tempo de retirar o bilhete para uma viagem de navio até a cidade de Chaitén.

Em uma região onde a malha rodoviária já é bem limitada, esta travessia de 10 horas de duração constituía uma das únicas alternativas para se chegar com a moto até o local onde efetivamente inicia a Carretera Austral, retratada na próxima parte deste relato.

A Naviera Austral é a empresa que faz a travessia. A passagem foi comprada ainda no Brasil, para que eu não corresse o risco de perder a vaga e acabasse ficando lá no porto “a ver navios”.

Ainda em Puerto Montt, enquanto aguardava o horário de embarque, tive a chance de acompanhar um festival de bandinhas de rock que por acaso estava ocorrendo na praça da cidade. Uma porcaria.

O navio deveria partir à uma da manhã, mas atrasou cerca de três horas. Este já é o trecho final da navegação, no final da manhã, enquanto eu arejava as idéias no convés depois de uma noite muito mal dormida nas poltronas dos passageiros.

A navegação é feita pelo canal de Chacao, que separa o Chile continental da ilha de Chiloé.

Durante a aproximação, percebia-se um pequeno protesto, alguns moradores com faixas e cartazes, gritando palavras de ordem e, por algum motivo, pedindo a reconstrução da cidade.

E eis que, olhando adiante, entendo o motivo: o cenário de destruição salta aos olhos. Uma cidade fantasma, destruída pela força da natureza e abandonada às pressas pela maior parte de seus habitantes.

No dia 2 de maio de 2008, o vulcão Chaitén despertou de um sono de quase dez mil anos e entrou em atividade, trazendo o caos à região.

Das casas do povoado, mais de um terço foi destruído pela chuva de cinzas e pela enxurrada de água e lama de um rio próximo que transbordou por causa da erupção.

Em certas ocasiões após o evento, ainda puderam ser ouvidas explosões subterrâneas no vulcão, situado a dez quilômetros da cidade. Uma grande quantidade de gás e cinzas também continuava sendo expelida.

A presidente Michelle Bachelet impôs um "alerta vermelho" na região e determinou que a cidade fosse totalmente evacuada. A ação supostamente autoritária desagradou a alguns. No entanto, viver ao lado de um vulcão em plena atividade, capaz de varrer o lugar inteiro do mapa não parece uma atitude muito responsável. Por outro lado, como convencer alguém a abandonar seu lar?

O governo anunciou que não investirá dinheiro na reconstrução do povoado, pois pretende transferi-lo para outra localidade. Mesmo assim, cerca de 250 moradores decidiram retornar às suas casas.

Antes da erupção, a região de Chaitén era conhecida como um destino turístico, possuía um parque e locais para camping. Hoje, a cidade devastada exibe com frieza os rastros da fúria do vulcão que ironicamente tem o mesmo nome do lugar que destruiu. Aos moradores, cabe o desafio de abandonar para sempre sua cidade, condenada à morte pela montanha que por tantos anos lhes ofereceu uma convivência pacífica.

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