Disse ao gerente do hotel em Ushuaia que sairia cedo, por volta das 7 horas da manhã para retornar ao continente. Em Tolhuin o vento começou a dar as caras de que o dia seria tenso. Com ventos patagônicos extremos, a 120 km/h de frente, a moto não conseguia ficar reta e a cada caminhão que eu cruzava era como levar um soco no capacete.

A autonomia da moto despencou e ficaria pior. Fui obrigado a me garantir e abastecer em Rio Grande. Tudo certo, mas o vento não diminuiu. Rodei variando da 3ª para a 4ª marcha, com o giro por volta dos 7500 rpm. Resultado: cheguei ao Paso San Sebastian com inacreditáveis 10 km/litro. Meu tanque estava quase vazio. Abasteci e segui para a aduana, mas o aduaneiro nem conseguia trabalhar, sequer me revistaram como antes e me liberaram, tamanha ventania.

Imaginando que enfrentaria o rípio novamente com aquele vento, sabia que teria que achar gasolina no final da estrada. Eis que, para evitar o vento (estava enfrentando tempestade de rípio, pois areia não tinha) fiquei atrás de um ônibus e ele foi pela Y-79 que é pavimentada. Foi então que me dei conta que havia outro trajeto para a balsa sem o terror do rípio. Com pavimento é outra coisa.

Fui adiante e o GPS não sabia me dar o tempo de trajeto, mas as placas me indicavam e foi assim, com muito vento e inclinado, que cheguei a Cerro Sombrero, onde a única informação útil do GPS foi indicar que havia um posto Copec na cidade. Abasteci e fui para a balsa, correndo o risco de não operar nessa ventania. Já eram 15 horas e eu nem tinha lanchado e com a ventania não haveria como fazer.

A balsa atracou, mas teve que fazer algumas manobras pois o vento era intenso. Embarquei e como tem uma lanchonete na balsa iria fazer um lanche ali, mas me chamaram para segurar a moto, pois o barco estava balançando com as ondas que começaram a molhar todos os veículos dentro do barco. Junte sal com vento e verá que a moto não durará muito.

Viagem de moto Ushuaia

De volta ao continente segui na balada do vento pilotando inclinado e cheguei ao mesmo hotel de Rio Gallegos já lavando a moto com uma mangueirada de água para tirar o sal.

Um argentino com uma BMW na porta do hotel, me contou que era apicultor e só trabalha 4 meses por ano, que foi para o Brasil entrando pela Venezuela duas vezes e que faria a Ruta 40 por completo. Imaginava que ela terminava na cidade. Falei que faltavam uns 130 km para ele terminar, ele disse que ali era o final e me mostrou a foto de La Quiaca, final da ruta 40 e eu emendei com a foto do km 0 da Ruta 40 e ele ficou desanimado. Me contou que veio de La Quiaca e no caminho encontrou quatro brasileiros com motos BMW e os dois primeiros estavam parados esperando ajuda, pois um caiu e fraturou três dedos da mão direita e o amigo fraturou o braço esquerdo. Falta motivo para fazer seguro viagem?. Eu falei que há certas pessoas que dão uma de louco, compram a melhor moto, a mais potente e equipada e se aventuram sem experiência alguma no deserto sem ao menos ter ido ali na esquina andar na terra. Na minha viagem ao Chile eu enfrentei a pior estrada do Paraná, a PR-405, equivalente à transamazônica de tão caótica que é. E contou que encontrou dois dias depois uma dupla sem gasolina na Ruta 40 e doou seu galão de 5 litros para um deles conseguir ajudar o outro. Falta de planejamento?. Por fim, mas não menos importante, contou que em um hotel um argentino teve que ajudar um brasileiro que quebrou a perna voltando de Ushuaia. E eu reclamando do vento. Se alguém conhecer essas pessoas me digam se estão bem. O período desses acontecimentos foi entre o dia 21/03 a 03/04 de 2016.

Percorridos 580 km

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