Ser ou estar motociclista...eis aí a questão!

A grosso modo, ser motociclista é todo aquele que está habilitado para tal e anda de motocicleta, seja passeando ou mesmo trabalhando. Mas se analisarmos com alguma profundidade o lado emocional, estar motociclista não será a mesma coisa que ser, porque estar, é um “estado de espírito” e não simplesmente físico.

E para melhor esclarecer, explicarei as diferenças:

Ser motociclista mostra apenas o fato de se utilizar da motocicleta para dar um passeio, exercer atividades comerciais ou outras quaisquer, sem se importar com a classe motociclística ou até mesmo com a própria motocicleta.

Mas o estar motociclista é visto por outra ótica pelo fato de envolver solidariedade, amizades e até paixão por motocicletas.

Principalmente a sua. Haja o que houver. Aconteça o que acontecer.

É um apaixonado sem ir às raias do fanatismo e cuida dela com notável carinho por saber da retribuição que terá pelos indispensáveis serviços que ela lhe prestará, seja nas inesquecíveis aventuras estrada afora, ou no diuturno e necessário trabalho na busca da sua digna sobrevivência.

Estar motociclista, portanto, é interagir com a motocicleta por entendê-la e ser por ela entendido nas mais indispensáveis necessidades ou até nos sutís momentos de alegrias e devaneios.

Isso é, sem dúvida, estar motociclista.

Por ser um sentimento deveras sutil, fica difícil explicar. Mediante tal situação, faço uma comparação com um dos elementares naturais mais conhecido e necessário. O ar. Sabemos que existe e é graças a ele que sobrevivemos, porém não o vemos. Simplemente sentimos e utilizamos dos seus benéficos e fundamentais efeitos, que com sua sutileza mantém-nos vivos.

Isso, enfatizo, é estar motociclista!

A fim de ilustrar o que acima afirmei. Coloco aqui um exemplo:

“Certa vez um discípulo perguntou ao seu Mestre:
Mestre, como poderei tornar-me um sábio?

- Sem nada dizer, imediatamente o Mestre encheu uma vasilha com água e nela mergulhou a cabeça do discípulo. Quando este não tinha mais fôlego e debatia-se desesperadamente para poder respirar, o Mestre soltou-o e perguntou:

- O que mais você desejou agora?
- Respirar, respondeu o discípulo... Respirar!
- O Mestre então ensinou:

“Quando desejar sabedoria, tanto quanto agora desejou respirar, você a terá.”

Citei essa ilustração com o intuito de mostrar que usar simplemente uma motocicleta não representa que é um motociclista, pois só o será se souber o valor e a importância que ela representa para o motociclista. Tal qual o ar que precisamos respirar!

Então, para todos aqueles que se julgam estarem motociclistas mas não estão, aconselho que se auto analisem com honestidade.

Para os atuais motociclistas que reclamam por falta de infraestrutura nas rodovias quanto a deficiência na sinalização em razão da precária orientação por placas; pela existência de buracos nas vias; atendimentos falhos em postos de combustíveis; assistência mecânica duvidosa; dificuldades em conseguir alimentos e tudo mais pelas estradas, fiquem satisfeitos com o que têm, pois já foi muito pior. Se fizermos uma pequena comparação, atualmente os motociclistas desfrutam de um maravilhoso "ceu de brigadeiro" nas rodovias, postos de combustíveis, sinalizações e tudo mais.

Motociclistas que outrora se aventuravam estrada afora poderiam ser classificados como os antigos e históricos "Bandeirantes", que entravam por matas virgens sem saber quando, como e onde chegariam, e até se chegariam a um lugar qualquer. Não tinham socorros médicos, provisões suficientes ou até um rudimentar mapa para orientá-los, muito menos comunicação, que era praticamente nenhuma. Desbravavam adentrando pelo Brasil enfrentando todos os riscos, fossem eles fortes intempéries, perigosas trilhas, doenças ou o que mais fosse. 

Não tinham destino porque o destino eram as aventuras, fossem aonde fossem, acontecesse o que acontecesse. Buscavam o novo, o diferente e maravilhavam-se com as surpresas que pela frente iam surgindo na forma de belíssimas aparições naturais.

Mas era aí que estava o sabor da aventura.

Desconhecidos e perigosos desafios quando surgiam em forma de armadilhas, tinham de ser enfrentados e principalmente vencidos. Hoje, numa modesta comparação que me atrevo fazer, existe a modalidade esportiva através das trilhas, do motocross e até do Rally Dakar, que seriam modernas simulações daquela realidade de outrora, com a diferença que hoje vemos caravanas compostas de carros, ônibus e até helicópteros com equipes médicas e mecânicas acompanhando os atuais participantes a fim de dar-lhes o máximo de assistência e segurança durante todo o transcorrer da competição. Isso é mordomia que antes não havia em razão da época.

Mas como para tudo na vida existe uma compensação, antes nada disso havia, mas onde veteranos “desbravadores” montados em rudimentares motocicletas chegavam eram alvo de festas e gentilezas prestadas desde os mais aristocratas aos mais simples e acanhados moradores dos locais visitados. Perguntas mil eram-lhes feitas a fim de saberem das novidades pois até um modesto rádio, na época, era artigo de luxo, havendo até locais onde eram completamente desconhecidos. Televisão, computador ou tudo mais, nem pensar, porque isso não existia e se alguém falasse que um dia apareceria, diriam ser mentiras inventadas por algum ´lunático'.

Eram outros tempos. Mas se por um lado haviam dificuldades, por outro os veteranos motociclistas eram premiados ao receberem afeto, carinho e respeito em todos os locais por onde passavam ou chegavam. As pessoas eram mais confiáveis, mais generosas.

Eram anos dourados, poéticos, onde amizade, solidariedade e confiabilidade emanavam dos poros e contagiavam pessoas.

Hoje temos motocicletas com maior conforto, mais modernas e avançadas com múltiplas versões para se escolher. Sofisticaram o seu visual, alteraram potências, modernizaram seus sistemas motores, elétricos e de injeção, mas a forma tradicional e clássica perpetua-se devido ao seu carisma e imutável personalidade. Características essas impossíveis de serem alteradas, porque têm de ser naturais e espontâneas, coisa intrínseca e inexplicável, que só as clássicas possuem!

E para os autênticos motociclistas, existem coisas que também são imutáveis. Tais como dignidade, amizade, união. Porque essas qualidades estão na essência das pessoas.

E você, como se sente? Na classe do Ser, ou do Estar?

Eis aí a questão!

João Cruz
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  • Cabral

    Acompanho os sites sobre motocicletas,e fico "embasbacado"com as "pseudas"dificuldades apresentadas pelos atuais motociclistas.Muitos colocam suas histórias[para eles,façanhas]de suas viajens "mirabolantes" de 500km,pilotando Twister ou Falcon. Tem aqueles que fazem suas viagens dormindo em bons hotéis e comendo em respeitáveis restaurantes. Já que o assunto é sobre os "velhos motoqueiros",quero contar[pela primeira vêz na internet]resumidamente minha viagem que fiz em 83 ao Rio de Janeiro com uma moto 80cc[oitentinha]motor dois tempos:Total da viagem 3640km[Porto Alegre/Rio-ida e volta]velocidade média 65km/h,consumo 36km/l,tempo de viagem:4 dias[passei um dia inteiro,perdido em São Paulo],vêzes que fui chamado de louco:1.369,5986[talvêz um pouco menos]. Comi comida de caminhoneiro,acampei[de barraca a noite]no trevo de acesso a Basílica de Aparecida,onde passei a noite,acampei na beira do mar,em Santa Catarina[onde passei a noite],presenciei acidente[passei segundos após]onde morreram[infelizmente]várias pessoas na Dutra[rodovia],me perdi de noite no sul do estado do Rio[inventei de ir por lá para evitar a baixada fluminense,que na época era o centro da criminalidade carioca],etc,etc,etc. Estou contando essa história[não estória,pois é veridica]não com a finalidade de enaltecimento[até porquê muitos a fazem de bicicleta]mas para ratificar seu comentário a respeito dos "velhos motoqueiros"! Atualmente não possuo moto,mas quando me aposentar[daqui a tres anos]sairei por aí afora[com minha espôsa é claro]viajando pelas Américas,quiçá o mundo! Ser motoqueiro é amar o lúdico que a moto ofereçe,estar motociclista é utilizá-la como um mero meio de transporte!!! Abraço. Eis a questão!

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