A Visão do Estradeiro

A região aqui é muito montanhosa, com aclives bastante acentuados. E em conseqüência das chuvas e o esforço das trações dos veículos para subirem estes aclives ou frearem nos declives íngremes, surgem profundas valas em toda a extensão da estrada. Sem falar dos perigosos sulcos enviesados porque se uma roda da moto, principalmente a dianteira, entrar e derrapar nesses sulcos, é tombo na certa.

No subir e descer montanhas e observando com cuidado a estrada, eis que ao chegar numa elevação superior a muitas outras que estavam adiante, tive a felicidade em avistar um horizonte espetacular. Que maravilha! É indescritível! Só morros e verdes matas, mais nada, a não ser a chuva que tornava mais verde aquela natureza pura. Os morros apresentavam-se imponentes, austeros e fortes; As matas, ostentando um verde maravilhoso com belas e frondosas árvores. E quanto oxigênio puro só para nós dois! Isso é mais delicioso do que qualquer perfume raro. É vida, muita vida! É a visão da mãe natureza desnudada na sua maior simplicidade.

Mas se por um lado esta visão se apresentava espetacular com forte sensação de segurança e bem estar, por outro essa mesma vista tornava-se assustadora. E vou dizer por que: quando do alto desse morro admirei esse deslumbrante espetáculo que descrevi, vi também uma estrada infinitamente reta - muitos retões - subindo e descendo morros até desaparecer na linha do horizonte onde a vista já não mais a alcançava. Nesse momento, com sentimento de leve insegurança, disse para mim mesmo: quanto mais ainda andaremos debaixo do sol escaldante; da poeira incomodativa; da chuva que torna a lama perigosa; e do frio por demais intenso no alto desses morros?

Nesse momento senti a incrível semelhança desse fato com o que ocorre com nossas vidas.

Essa estrada descortinada à minha frente, momentos com subidas e outros com descidas, ocasiões com muita poeira e outras com lamaçais, é o espelho da nossa existência nesse mundo, pois nele vejo completa semelhança com nossas vidas, tendo em vista que existem momentos onde tudo nos transcorre com facilidade e em outros só encontramos dificuldade; ocasiões de sermos bem sucedidos comercial e socialmente e em outros momentos acontecer de cairmos devido a alguns insucessos; ora adoecemos, ora estamos completamente saudáveis; e por fim a eterna expectativa de não sabermos até onde e como nós chegaremos nessa estrada de agora, e na da nossa existência.

Desligando-me desse pensamento e voltando à realidade, percebi a importância do arrojo e do destemor para encarar desafios, vendo outrossim que para vencê-los é necessário calma, inteligência e concentração.

*Texto extraído do livro "Motociclistas Invencíveis", de João Cruz (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

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