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Viagem de volta ao mundo de moto em 1957

Viagem de volta ao mundo de moto - história

Uma aventura extraordinária iniciada há mais de 60 anos pelos italianos Leopoldo Tartarini e Giorgio Monetti se tornou uma das maiores aventuras da história do motociclismo internacional: eles fizeram uma viagem ao redor do mundo pilotando duas motos Ducati de 175cc.

Os anos 50 foram marcados por grandes avanços científicos, tecnológicos e mudanças culturais e comportamentais. Foi naquela década que começaram as transmissões de televisão, provocando uma grande mudança nos meios de comunicação; no campo da política internacional, os conflitos entre os blocos capitalista e socialista (Guerra Fria) ganhavam cada vez mais força; vários países sofriam com revoluções e golpes de estado; eram dados os primeiros passos para a criação do que viria a ser a União Europeia; os russos e americanos começaram a corrida pela conquista do espaço; John Lennon e Paul McCartney se encontraram pela primeira vez em Liverpool; e, 'On the Road' de Jack Kerouac foi publicado nos Estados Unidos. A década de 1950 ficou conhecida como o período dos "anos dourados".

Neste contexto de grandes transformações, dois rapazes de Bolonha, na Itália, decidiram deixar sua marca na história com uma empreitada impensável para a época: uma viagem de moto através de cinco continentes, 35 países (incluindo o Brasil) e 5 revoluções.

Viagem de moto volta ao mundo - história

Uma história extraordinária de dois motociclistas que enfrentaram a empreitada com duas Ducati 175, uma câmera fotográfica, uma filmadora de 16mm e um mapa de bolso.

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Giorgio Monetti e Leopoldo Tartarini são os dois protagonistas dessa história que encontraria grandes dificuldades para ser repetida, mesmo com as informações, os apoios logísticos e tecnológicos disponíveis nos dias de hoje.

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O objetivo da viagem, que durou um ano inteiro (de setembro de 1957 a setembro de 1958) e percorreu estradas de todos os continentes, era divulgar a marca Ducati e construir uma rede de revendedores em países onde aquela Empresa ainda era desconhecida. A ideia do campeão bolonhês de motocicleta Leopoldo Tartarini, foi apoiada pela Ducati com suas motos de 175cc, dinheiro e serviços, fazendo da aventura uma oportunidade promocional única.

Era a primeira vez que uma empresa de motos organizava uma operação de tais proporções, embora com meios limitados e pontos de apoio muito escassos.

A viagem custou cerca de 45 milhões de liras, incluindo muitas viagens aéreas e marítimas, alojamento em hotéis, alimentação, combustível e "deveres de fronteira", mas a complexidade da operação os dois protagonistas só conheceram de fato depois de iniciar a viagem, já na estrada.

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A duração e a distância a ser percorrida na viagem foi bastante subestimada: no início, a jornada duraria apenas alguns meses. Em vez dos 60 mil quilômetros previstos, na verdade foram percorridos quase 100 mil quilômetros.

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As informações coletadas antes da partida, equipamentos e roupas de viagem logo se revelaram insuficientes: as ruas, quando existiam, eram "impossíveis", quase nunca pavimentadas; dos 100.000 km percorridos, calculou-se que cerca de 85% foram por estradas de terra; e, já na primeira passagem de montanha, nos Balcãs, bem como posteriormente nos Andes, devido à inadequação da roupa de viagem, os dois viajantes quase tiveram hipotermia.

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Muitas vezes desconhecendo a situação política dos vários países pelos quais passaram, a dupla se viu atravessando tumultos e até revoluções: o primeiro problema político eles encontraram na Síria, onde passaram entre colunas de tanques e inúmeros postos de controle; depois no Iraque, onde o Rei Faisal II e toda a sua família acabara de ser assassinada, após o golpe que instituiu a república naquele país; o terceiro problema eles enfrentaram na Indonésia, em Jacarta, com o massacre de holandeses e chineses. Os dois viajantes foram presos como suspeitos de espiões e depois libertados pelo grupo do ditador Sukarno, que chegara ao poder; na Venezuela eles foram retidos por dias na fronteira por causa da revolta que trouxe Joselino Betancourt para liderar o país; e, finalmente, em Buenos Aires, na Argentina, um tumulto com tiroteio e tiros de canhão perto da Casa Rosada, imediatamente contido pelo exército para defender o recém-eleito presidente Arturo Frondizi.

Os contatos telefônicos com a Ducati foram muito raros e difíceis durante a viagem, devido aos longos tempos de reserva para chamadas intercontinentais. Os pontos de referência eram as embaixadas ou os raros comerciantes da Ducati, presentes apenas em alguns países, e através dos quais eles geralmente receberam o dinheiro para continuar a viagem. Frequentemente, os dois se encontraram sem dinheiro e procurando soluções de sorte para alcançar o ponto de suporte mais próximo. No deserto australiano e na Nova Zelândia ou no trecho entre Mendoza-Buenos Aires, eles tiveram que empurrar suas motos ou procurar alguém para rebocá-las com uma corda para economizar combustível.

Para a mesma necessidade, subindo os Andes e o Aconcágua, eles empurraram as motos com os braços, fazendo as descidas em ponto morto ou com o motor desligado. Em outras situações eles literalmente carregaram as motos nos ombros, como nos pântanos de Guayaquil, no Equador, onde, sem terem ouvido os conselhos dos moradores sobre uma rota alternativa, levaram uma semana para percorrer 30 quilômetros em uma estrada de lama.

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A comida, quando, com frequência, não podia ser feita em hotéis, era absolutamente "intragável", mas muitas vezes, por cortesia e fome, não podiam recusar. Na Tailândia e no Mato Grosso, eles comeram olhos de peixe e insetos vivos, cozidos ou fritos. Com sede, eles não tinham formalidades na frente de poças de água ou se valer de bebidas com conteúdo duvidoso.

Mas graças ao intenso programa de vacinação que tiveram antes da partida, além de alguns fenômenos de disenteria ou intoxicação, os dois não tiveram grandes problemas de saúde.

A vida eles arriscaram em outras ocasiões, como na Índia, onde Monetti, desacostumado ao fluxo pela mão inglesa de circulação, foi salvo de um acidente, jogando-se no chão com a moto, que ficou presa entre um carro e a calçada; nos Andes à noite, quando Tartarini, que seguia à frente do seu companheiro inconscientemente ultrapassou o limite de um trecho de estrada interrompido, para a consternação de Monetti que percebeu a coisa apenas no momento de sua passagem; ou quando, sem bússola, se perderam na floresta amazônica no Mato Grosso e foram resgatados por uma comunidade de nativos.

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No último trecho africano, Dakar-Gibraltar, mesmo com os motores ainda funcionando bem, mas os quadros das motos no final, sempre sem bússola e sem um mapa detalhado, viajaram sem referências, senão pelo sol, através do deserto mauritano e de Marrocos. Quando finalmente chegaram à Espanha, pensaram que tinham deixado para trás todos os problemas. Mas no sul da França, receberam uma ordem da Ducati para não retornar para casa na Bolonha, mas continuar uma espécie de "giro pela Itália", para receber homenagens e promover a marca nas principais cidades do país. Um jogo que ainda lhes custou entre 2500 a 3000 km de estrada.

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Apesar do contexto social diferente e até mesmo as divergências de opinião sobre determinados assuntos, Tartarini e Monetti eram bem parecidos do ponto de vista técnico e psicológico. A paixão pelo desconhecido e pela aventura, as habilidades mecânicas e motoras, a capacidade de viver o dia, a tenacidade e a vontade de se ajudar e apoiar-se mutuamente em momentos difíceis juntaram-se a eles.

Houve também discussões e confrontos, nascidos da coabitação forçada, às vezes separações, como na Austrália e no Brasil, mas houve um entendimento básico que lhes permitiu retomar o diálogo e a viagem, sempre e de qualquer maneira.

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No final da viagem eles tomaram caminhos diferentes, mas o relacionamento de amizade e o vínculo dado por essa experiência extraordinária permaneceram fortes entre eles e ambos desejam fortemente contar o incrível feito do qual se tornaram protagonistas, junto ao sonho, até hoje indomável, de poder repetir e pilotar novamente as duas míticas Ducati de 175cc.

Texto adaptado e traduzido do site http://www.1mapx2.com/, que prepara o lançamento da Explorer Collection, contendo um livro com documentos, cartas, telegramas, notícias surgidas nos jornais da época, incríveis fotos tiradas em todos os cantos do mundo e tudo o que os viajantes trouxeram para casa. Além do livro, a Explorer Collection também incluirá uma versão completa e restaurada do material original registrado em 16mm em 1957 e o documentário 1 MAP for 2.

As imagens abaixo são do trailer do documentário que está sendo produzido, mesclando imagens dos dois motociclistas atualmente e durante a viagem histórica.

Os motociclistas reuniram o material necessário e estão levantando fundos para editar a versão cinematográfica de um documentário sobre a viagem. Para conhecer melhor o projeto e saber como contribuir, acesse o site www.verkami.com

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