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08 Jan 2018 15:06 - 08 Jan 2018 15:49 #4439 por D. Quixote de la Playa
D. Quixote de la Playa Criou o tópico Expedição Nepal. De Portugal a Kathmandu em PCX 125
EXPEDIÇÃO NEPAL


11 de Junho.
Estou a cerca de 30 Km da fronteira com o Nepal. O primeiro carro de matricula nepalesa passa por mim. Ao verem as duas bandeiras (Nepal e Portugal) abrem o vidro, gritam e acenam. Não evito as lágrimas ao mesmo tempo que rio. Com uma palmada na burrinha atrevo-me a soltar o primeiro grito: “está quase, vou conseguir”.
Desde há semanas que a viagem é feita de objetivos diários, quando não mais pequenos. Chegar ao Nepal já era uma vitória, ainda que faltasse atingir Katmandu.

O Projecto
Ligar Faro a Katmandu numa PCX125, numa viagem a solo.
11787 Km, tentando levar a ajuda e esperança às vítimas do terramoto de 2015. Havia que despertar consciências, buscar patrocínios, montar um plano de viagem. Tinha por objetivo divulgar o mais possível o trabalho da associação “Obrigado Portugal” e com isso atrair fundos para o projeto “Our Dream Village”, a reconstrução de aldeias destruídas nas montanhas perto de Katmandu. A primeira dificuldade seria obter autorização em casa. Decidi pedir a minha companheira em casamento, depois disso ela não me diria que não a nada…
O terramoto tinha sido a 25 de Abril do ano anterior. Estava assim decidida a data da partida. Um ano depois e tentaria chegar a 10 de Junho, dia de Portugal.
Uma das coisas que recordo com gratidão é nunca ter ouvido um não a todas as portas a que bati, pedindo ajuda.
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa decidiu abraçar o projecto assegurando a sua viabilidade. Isso permitiu canalizar alguns outros apoios directamente para o objectivo da viagem.
Entretanto, o roadbook estava feito, com a ajuda de um amigo, que de resto viria a ser o meu “campo base” durante a viagem. No dia que lhe pedi ajuda disse: “como não vou conseguir demover-te da ideia, vou tratar de conseguir que lá chegues em segurança”.

A viagem
Este não é o relato de belas paisagens e de sítios magníficos. É a descrição de uma viagem de gentes. Daquelas que por cá ficaram, mas que comigo viajaram, empurrando-me sempre em direcção ao destino. Dos amigos de sempre e dos que se juntaram e dos que fui encontrando, que me abrigaram, ajudaram e protegeram.
Dez países, dez nações diferentes unidas por uma mesma verdade. A de que em todo o lado existe gente boa, coisa que muitos teimam em negar. Em todos eles o viajante solitário é respeitado, em todos me fizeram sentir que mais que esperarmos ser bem recebidos, importante é deixarmos a recordação de que merecemos esse bom acolhimento.
Esta coisa de viajar em solitário não é certamente para todos. Em alguns momentos duvidei se o seria para mim.
É importante que a competição, a existir, seja somente connosco próprios. No fim de contas, só nós mesmos temos o direito e a capacidade de avaliar o resultado e o desempenho de uma viagem destas. Sinto que ganhei o “meu” prémio logo no primeiro dia em que me predispus a fazer esta viagem.
Se há testemunho que gostaria de deixar é o de que não há modelos de viagem mais válidos que outros. Não existem heróis da estrada.
A verdadeira valentia é a de sabermos reconhecer as nossas limitações e aceitá-las. O desafio é tentar andarmos perto delas.

E por fim o dia da estrada
Acabavam hoje os dias de planeamento, as entrevistas, o sururu à minha volta. Finalmente, no meio de uma pequena multidão, amigos, família e curiosos, faço-me à estrada na companhia de uma dezena de amigos que fizeram questão de me acompanhar até à fronteira. A emoção é intensa, por fim chegou o dia. As despedidas na fronteira, os últimos abraços. Sendo todos importantes, não esqueço a presença do presidente do M.C.F., o Zé Amaro. Esta viagem também será dele.
Passada a Ponte do Guadiana abate-se um silencio doce sobre mim. Em comunhão absoluta com a estrada respiro as promessas de aventuras que o vento me traz.
Portugal e Espanha eram suposto ser um cumprir de calendário. Não seria bem assim.
O segundo dia incluiu a etapa mais longa da viagem! Cerca de 500 Km entre Córdoba e Valencia. A mota começa a ter um comportamento estranho. Acelero mas não corresponde. Talvez seja impressão minha. Excesso de peso?! Em direcção a Barcelona, no 3º dia resolvo parar num concessionário e pedir uma opinião. Dizem-me que está tudo bem, mas não está…
Chego a Barcelona, já com a certeza que terei que ver melhor o problema. A isso há que juntar a necessidade de esperar por notícias de Portugal em relação ao visto do Irão. Viajo ainda sem o passaporte que mais tarde me será enviado para país a designar. Acabaram por ser 8 dias de espera em Barcelona, resolvendo o problema da mota. Montar um variador de origem. O J. Costa que tinha não oferecia garantia de longevidade para uma viagem destas. Este atraso faz com que recomece a viagem com dois overlanders da Malásia. Um deles era já um amigo que eu tinha abrigado no ano anterior na minha casa. Juntos apanhámos o ferry que liga a Civitavechia e rodámos algum tempo juntos. Bebo toda a informação e conselhos que me passam. É extraordinária a empatia e a amizade que nasce entre os viajantes.
Faizal, um deles, além dos conselhos viria a fazer com que pudesse contar com um apoio importantíssimo no Dubai: um outro overlander, numa missão humanitária. desse falarei mais tarde.
E assim passava a Itália para o outro lado, chegando a Bari, já sozinho novamente, para apanhar novo ferry para a Albania. Sentia nesse momento que a verdadeira aventura tinha começado. Nada, no entanto, me levava a prever o que vinha por aí.
Supostamente, para mim, a Albania não representava mais do que a travessia do país, durante um dia, com plano de, se possível, atingir Tessalonica (na Grécia), no mesmo dia. Isto apesar dos medos que por cá, antes da partida, me tentavam incutir e os quais sempre rejeitei assumir. Não seria possível de o fazer, tendo conseguido entrar na Grécia, isso após uma verdadeira lição sobre o que me esperava nesta viagem, a nível de dificuldades e perigos.
Descubro, logo à chegada a Durres que viajava com o documento do seguro da mota caducado. Obrigado a fazer um para atravessar o país, ponho-me a caminho. E que caminho. A rota que tinha escolhido era uma estrada que na sua quase totalidade se encontrava em obras. Depois de cerca de 80 km evitando escavadoras, cilindros, camiões, etc., chego a uma parede. Tinham construído uma barragem e de momento não havia possibilidade de passagem. Obrigado a voltar para trás os mesmos quilómetros, indicam-me as montanhas a norte como alternativa. Logo que tomo esse caminho o GPS indica-me fora de estrada…
A chuva aparece então para tornar o cenário mais negro. Viajo em caminho de pedras e lama com inclinações terríveis e curvas de montanha. A mota, não indicada nem preparada para este tipo de condições, teima em fugir de frente nas descidas e patina nas subidas. Sinto que estou a arriscar muito para além dos limites aceitáveis. Mas quero desesperadamente sair dali. Mais tarde, nessa noite, juro a mim próprio, não voltar a cometer o mesmo tipo de erros. Passam horas e não encontro vivalma. Ao cair da noite, quando já procurava um lugar possível de montar tenda e aquecer-me, sou “salvo” num episódio incrível. Ao longe, vejo um conjunto de casas e decido ir investigar, se dá para pernoitar, pois parecem desabitadas. Ao parar, surgem três crianças. Tento estabelecer diálogo mas não me entendem. Reparto um chocolate que trazia comigo e sou surpreendido quando uma delas, olhando as bandeiras na mota, me pergunta, em brasileiro, se se tratava da bandeira de Portugal. A sua avó, emigrante brasileira, morava numa aldeia a alguma distância. Chamado um adulto, serve então de tradutor para me explicarem como sair da zona. Se tivesse continuado pelo caminho que seguia, talvez não saísse no dia seguinte, dizem-me. E assim, após mais algumas horas de condução, encontro a estrada que me levaria à fronteira com a Grécia.
Sou recebido com simpatia e nem dão conta do papel do seguro caducado. Nessa noite, peço para Portugal que me enviem foto do documento em dia, para o telemóvel. Com ela tentarei entrar na Turquia. Como está combinado receber o passaporte em Istambul, com ele virá a apólice. Tudo viria a correr bem. Já bem tarde, acabo por para numa vila grega com um pequeno hotel. Nele celebrava-se um casamento. E se aquela gente canta e dança… o melhor programa para um viajante extenuado e desesperado por uma cama. A sua simpatia vence e não resisto a passar umas horas com eles. Só não cantei nem dancei.
O dia seguinte é de passagem para a Turquia e chegada a Istambul, lamentando a falta de tempo para explorar a bonita costa grega. A chegada a Istambul é simbólica. Atravessei esta cidade bonita e imensa, num trânsito caótico que me levava ao ferry que cruza o Estreito de Bósforo depositando-me no que nós chamamos de princípio da Ásia. Segundo os amigos turcos, a verdadeira Ásia começaria depois de Ankara. No entanto, já me iam avisando que dali para a frente a realidade era outra.
Dirijo-me a Kodikoy onde fica o restaurante da Mine Aydemir, uma turca bem-disposta, que me acolhe de braços abertos como convidado especial no restaurante. Tenho direito a fotografia no quadro de honra. É na sua casa que ficarei abrigado nos três dias de Istambul. Aí, via encomenda postal, recebo finalmente o passaporte com o tão desejado visto do Irão e o seguro actualizado. Aproveito também para me enviarem dinheiro suficiente para cruzar o Irão, condição necessária, uma vez que no Irão é impossível levantar dinheiro. Dólar ou euro é o ideal, sendo preferível o dólar. Para quem se aventure por estas paragens (Irão) aconselho também a instalação de VPN, de preferência mais do que um, para livre acesso à internet. Tem de ser instalado antes de se entrar. Por estranho que pareça, no Dubai acontece o oposto. O uso de VPN’s provoca-nos problemas. Tive que desinstalar.
Entrando em Istambul, é organizado um jantar pela Mine, para me ajudarem a cruzar a Turquia. São convidados os membros fundadores do EMOK (maior moto-clube da Turquia) e o presidente do AKUT (organização de busca e salvamento, com intervenções em cenários de catástrofe em diferentes partes do mundo). Juntos traçam-me uma nova rota de passagem pela Turquia, até ao Irão, estranhamente mais a sul, isto por sugestão de um elemento dos Serviços Secretos do Exército, amigo de um dos presentes. Daí para a frente teria abrigo quase todos os dias ou alguém a quem recorrer se necessário. Pelo AKUT foi-me dado um contacto de emergência, sendo-me assegurado que no espaço máximo de duas horas estariam perto de mim. Estes turcos não brincam em serviço. Aliás, coisa que aprendi, foi que por essas paragens e nos países seguintes, quando alguém te diz que podes contar com o seu apoio, di-lo de coração e não hesitará em nada para cumprir essa promessa.
Sigo então rumo a Ankara onde mais uma vez o acolhimento é fantástico.
No dia seguinte, pela primeira vez, abasteço o depósito reserva após um susto. Começo a ter problemas de viajar por uma fistula implantada no pior sítio possível, onde me sento…
Após dias terríveis de dor e algumas lágrimas derramadas, acedo aos pedidos dos amigos e mulher para que procurasse ajuda.
Recorro aos amigos turcos e em Tatvan sou levado ao hospital e o problema é resolvido. Com mais uma paragem e abrigo em VAN chegava o dia de aproximação ao Irão, pernoitando em Dogubayazt, única fronteira aberta para passagem.

Irão
Cerca de 100Km após a fronteira, paro na estrada para descansar. Perto, um grupo de professores iranianos almoçavam em redor de uma fogueira. Logo me convidaram para junto deles, e assim tenho a primeira mostra do povo especial que me espera.
Rumo a sul em direcção a Bandar-Abas tentando recuperar os dias de atraso que levo. É talvez a partir de Arak que as coisas se tornam duras a sério. O cansaço, o clima, as estradas duras e a distância de casa começam a fazer os seus efeitos. Infindáveis planaltos, onde ventos laterais teimam em pôr à prova a minha resistência. São desertos de calhau nos quais o sol não tem mercê do viajante desprotegido. O grande aliado?! Os camionistas! Raro é aquele que não me saúda com um aceno e uma buzinadela. Nas paragens veem meter conversa oferecendo-me chá quente e, por vezes, a pouca água fresca com que viajam. A poeira e o muito fumo dos camiões provocam-me uma tosse seca que, durante a noite não me deixa dormir. Na Índia isso viria a piorar. Deste país, mais que tudo, ficará a recordação de um povo muito especial, sedento do contacto com os ocidentais. Como costumo dizer, sejamos nós uma água pura, não inquinada, para sabermos merecer esta distinção.
Chegado a Bandar-Abas a prioridade é tratar da passagem de ferry para o Dubai. Processo demorado, implica que se chegue à cidade no dia anterior à partida do ferry. A quem se aventure por estas paragens sugiro que recolha o máximo de informação possível. O site “Horizont Unlimited” fornece informação vasta e precisa.

Dubai
A travessia é feita durante uma noite quente e horrivelmente húmida. Apesar de bem cara, a passagem, as condições a bordo deixam muito a desejar. Pela manhã o Dubai à vista. Depois de um processo algo demorado na fronteira, entra-se numa realidade oposta à dos últimos dias- Auto-estradas que podem chegar a ter oito vias em cada sentido, num trânsito de características bem europeias. Sob um calor abrasador procuro então a morada do Wissam, um palestiniano a viver no Dubai, o qual será o meu próximo porto de abrigo.
Wissam é um overlander em viagem de volta ao mundo, num projeto de angariação de fundos para a construção de uma unidade de queimados para crianças, na Palestina. Um dos homens de coração mais puro que conheci até hoje, este gigante barbudo, de olhar e sorriso de criança, alberga-me na sua casa iniciando comigo o processo de despacho da mota para a Índia. Complicações no mesmo, levam a que o mesmo tarde três dias.
Entretanto, no meio deste processo, acontece um episódio que poderia pôr em sério risco o sucesso desta viagem. Eu sou amputado da perna esquerda e o segundo dia de estadia parte-se o encaixe do pé da prótese que uso. Procurando encontrar solução, Wissam encontra uma clínica protésica onde me possam ajudar. Uma vez lá, a resposta é de que serão precisos no mínimo dez dias para encomendar um novo pé na Alemanha e mesmo isso sem garantia devido ao tipo de encaixe que uso. Olho para o Wissam e digo: preciso encontrar outra solução, não tenho nem dinheiro nem tempo.
Este é um dos momentos em que serei sempre grato a este homem. Com um olhar decidido, responde-me: Não te preocupes, vamos resolver isso. Saímos e de passagem compra um rolo de fita adesiva americana Gorilla. Já em sua casa conseguimos reconstruir a prótese. Em tou de brincadeira dizia: Artur, quando esta fita adesiva não resolve um problema isso só significa que não puseste fita suficiente.
Finalmente a meio da noite apanho um avião rumo à Índia. Aterro em Bombaim, são cinco horas da manhã. Mais um pulo repentino para uma outra realidade.

Índia
Pego um táxi e dirijo-me à casa do Rodrigo Canelas, um português aí residente que me ofereceu abrigo e apoio.
No alto de um confortável apartamento baixo o olhar sob uma Bombaim plena de contrastes. Disso é feita a Índia. Aos meus pés gente dorme na rua, protegendo-se do sol escaldante na sombra dos carros estacionados.
Na noite seguinte, a monção diz-me que não tenho tempo a perder e que devo seguir viagem. Desalfandegada a mota, preparo-me para abalar. Devido ao calor infernal (nos próximos dias a ultrapassar os 50 graus) tomo a decisão de viajar sempre partindo ao nascer do sol. Isso também permite que o trânsito seja menos caótico, em especial na saída das cidades. Continuo a viajar sem GPS. Faço recurso a uma aplicação no Tlm. O Here Maps. No entanto, este teima em desligar-se, pelo calor excessivo.
Contra todas as expectativas nesse primeiro dia, consigo fazer o programado para duas etapas, parando por volta das 15h, altura em que o calor torna completamente impossível seguir. Durante o dia alimento-me de bananas, bolachas e muita água.
O Camel Pack, oferecido pelo Wissam no Dubai, revela-se imprescindível. Relembro os conselhos do Faizal; o teu pior inimigo será a desidratação. Estou cansado, muito cansado. A minha mulher está a chegar a Katmandu para me receber e só penso nesse momento. A tosse nocturna passa a permanente. Provoca-me vómitos e a visão por vezes deixa de ser clara.
Como abalo sempre tão cedo, assisto todos os dias ao resultado dos acidentes da noite anterior.
Viajando pelo centro da Índia, sou o único ocidental. Sou quase sempre recusado nos hotéis, por esse mesmo facto.
Já em Baipal, sem quaisquer forças anímicas, reforço a decisão de que tenho que sair da Índia o mais rápido possível. Tento não passar para os que seguem a viagem o que se passa comigo, mas já não consigo.
Estranho que, no entanto, em nenhum momento me arrependo de ter vindo.
Não sei se o fenómeno será comum: Cada vez mais falo sozinho, em voz alta no caminho. Parece que a minha própria voz me conforta. Não tenho outra…
No penúltimo dia torna-se impossível cumprir as tais duas etapas e fico a 30 km de Lucknow. Isso obrigará a que o último dia seja deveras puxado para atingir a fronteira em Sonauli, especialmente porque o último troço será de estradas muito complicadas, atravessando aldeias, com muito trânsito.

Nepal
E por fim estou no Nepal. Como venci a corrida contra a monção, sinto que já nada poderá ser pior do que o que acabei de passar na Índia.
Adoro as montanhas ao longe, adoro a simpatia dos locais. Não consigo apagar da cara um sorriso meio tolo.
No dia seguinte o destino é a selva de Chitwan. E com isso estou a um dia de Katmandu, se as estradas, o trânsito e as chuvas o permitirem. Durante toda a noite choveu, aqui na orla da selva. Acordo ao som dos elefantes sendo preparados para mais um dia de trabalho. Um guia, o Aasish, com quem fiz amizade, acompanha-me até à estrada principal, alertando-me para ser rápido a chegar à estrada das montanhas. Devido à chuva das monções ela será encerrada dentro de uma hora para reparações só reabrindo a meio da tarde.
Para poder chegar a Katmandu ainda hoje, terei de passar antes. Eu e os milhares de camiões e carrinhas que têm a mesma intenção.
Conduzir no Nepal é parecido a conduzir na Índia com a diferença de ser em alta montanha e em estradas que em alguns pontos, já lá não estão. Deslizaram montanha abaixo.
Assim, fazendo parte de uma interminável caravana, vou-me esgueirando por entre o pouco espaço deixado pelas duas colunas de camiões que se cruzam, tentando evitar as crateras no piso da estrada.
Após um percurso de 50 Km que me leva muitas horas a percorrer, são talvez 15 horas quando finalmente chego à estrada principal que me levará a Katmandu. Curiosamente, todas elas são chamadas de highways . Estou a cerca de 120Km do destino e sinto-me cada vez mais perto. Apesar do grau de dificuldade da condução, a paisagem arrebatadora e o objetivo que está tão perto fazem com que cante e grite, em cima da moto, deitando para fora toda a tensão acumulada nas últimas semanas.
Chegar a Katmandu implica uma última subida, para descer então o vale de entrada na cidade. A chuva volta e numa das últimas curvas da subida quase tenho o acidente que durante toda a viagem tanto tinha evitado. Uma lomba no alcatrão, saída de repente de debaixo da traseira de um camião quase me atira ao chão lembrando-me que está quase, mas que ainda não cheguei.
Finalmente atinjo o check-point no alto do vale e assim inicio a descida lamacenta que me leva ao trânsito caótico desta cidade.
Já bem dentro da cidade passo por duas ocidentais, que de rosto tapado por máscaras de protecção da poluição, me gritam e acenam. Tenho dificuldade em reconhecer a minha mulher e a Francisca, representante da Associação Obrigado Portugal.
Havia chegado…
Conduzem-me então para o hotel Dwarikas, onde somos convidados a permanecer nos próximos dias. Aguardando a chegada do cônsul de Portugal, que nos acompanhará às portas do Campo Esperança, para a cerimónia de chegada, tento reunir as últimas forças para o momento.
Assim, uma hora depois, chegamos às portas do Campo Esperança. Este era o ponto de referência com que havia sonhado desde o primeiro dia.
Uma multidão recebe-me e saúda-me. Após a cerimónia de fotos, oferta de faixas tradicionais e uma música entoada pelas crianças, um momento mágico. Anuh, uma rapariga de olhar doce, sem dizer palavra, toma-me pela mão e leva-me a conhecer o Campo.
Voltarei nos dias seguintes e terei então ocasião de conhecer a rotina diária desta gente, as dificuldades por que passam e o trabalho extraordinário que tem sido feito em seu auxílio.
Entretanto, nos dias seguintes, chego à conclusão que será impossível atingir um dos objectivos desta viagem. Era minha intenção oferecer a moto a uma das famílias apoiadas pela Associação. Porém a exigência do pagamento de taxas de importação elevadíssimas, inviabilizam essa opção. Nem a intervenção do Cônsul de Portugal consegue desbloquear a situação. Restará a opção de enviar a moto de volta para Portugal por via marítima.
Tenho ainda oportunidade de visitar a aldeia de Bistagaun, nas cercanias de Katmandu, onde foram reconstruidas as primeiras 22 casas destruídas pelo terramoto.
São momentos muito especiais, sentir a gratidão destas pessoas pelo auxilio prestado.
Sou também convidado a conhecer Shanti Sewa, uma ONG alemã, com um trabalho notável em prol de vítimas de lepra e poliomielite. São todos eles oriundos da casta dos Intocáveis
E é um momento muito especial para mim quando me convidam para que fale a todos eles sobre a minha viagem e a mensagem que trazia. Sou recebido com um carinho que ficará comigo para o resto dos meus dias.
Entretanto, enquanto vai sendo tratada a questão do envio da moto, eu e a minha mulher aproveitamos para conhecer melhor o país. Voltamos à selva de Chitwan e visitamos Pokhara, tendo assim oportunidade de conhecer um pouco das maravilhas que este país tem para oferecer.
Voltamos depois para Katmandu onde finalmente consigo tratar do envio da moto, não sem antes dar uma entrevista para o The Himalayan Times que se interessou por divulgar a aventura e o seu objectivo. Voamos então via Dubai com destino a Lisboa onde apanhamos o comboio que nos leva a Faro, pondo fim a esta aventura.
Sonhar e acreditar que valia a pena tentar, levou-me a viver a maior aventura da minha vida, com a recompensa de poder contribuir para algo de maior.
“Não tem que ver com o que eu faço, mas com o que tu podes fazer também”


Link’s de artigos na imprensa:
thehimalayantimes.com/nepal/man-overcome...rides-quake-victims/
www.scml.pt/pt-PT/destaques/missao_cumprida_/
www.scml.pt/pt-PT/destaques/reconstruir_um_pais_em_duas_rodas/ [/color]
Última Edição: 08 Jan 2018 15:49 por D. Quixote de la Playa.

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