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Algumas vezes deixo as coisas acontecerem pra ver onde vai dar.

O que vou contar foi na estrada, indo em direção ao norte, na verdade a uma cidade do nordeste encontrar alguns irmãos e amigos.

Viagem de uma semana, um mês, ou um ano, não faz a menor diferença.

Já eram por volta das 16 horas, peguei minha moto e fui em direção a BR 040. Naquela época, eu ainda era solteiro e estava de férias do serviço. Muita gente que me conhecia dizia que eu não estava nem aí para a hora do Brasil.

Quando cheguei perto de Congonhas, parei no acostamento, fiquei alguns minutos filosofando sobre o fim daquela estrada e me subiu uma vontade imensa de continuar viajando. Imaginei vários locais para conhecer e, em um surto de loucura, segui em direção a Belo Horizonte.

Quantas vezes você, ilustre leitor e motociclista, já pensou ou já ouviu de amigos "explicações" para não empreender uma longa viagem de motocicleta?

Os motociclistas experientes dizem que o momento mais apreensível de uma grande viagem de motocicleta é a partida, depois tudo é festa e complementam: o que mais frustra um motociclista de viagem é ver tolhido o sonho de realização.

Corria o ano de 2002; eu tinha 37 anos e vivia sob o risco manifesto de sofrer um infarto.

Fumava 4 maços de Charm 100’s por dia, comia compulsivamente, pesava mais de 100 Kg e vivia estressado. Dormia mal, só pensava em trabalho e não praticava qualquer atividade que proporcionasse algum prazer, além de frequentar a sauna do meu clube, onde, além de um papo mórbido com outros advogados estressados, só fazia comer, beber e dormir.

Caros amigos motociclistas, cuidado com o excesso de trabalho !!!

Para dores no peito, stress, dores de cotovelo, tristeza, melancolia, falta de amigos, existe um santo remédio que se chama "Caldo de Estrada".

Pegue uma máquina de duas rodas motorizada, também conhecida como motociclo, de preferência de médio ou grande porte.

Lave na véspera, adicione gasolina. 

Certa ocasião eu fiz um passeio de moto com um grupo de amigos, e o trajeto incluía a estrada entre Mariana e Catas Altas, cidades históricas de Minas Gerais. Em determinado trecho dessa estrada havia uma subida íngreme que era vencida ao contornar diversas curvas à direita e à esquerda, do jeito que todo motociclista gosta.

Eu tocava adiante na estrada, vendo somente os raios de sol cortarem o tronco das árvores que se punham em sequência como se fosse uma cortina natural, situada ao longo do meio fio, fazendo um jogo de luzes e sombras que desenhavam formas bastante peculiares no asfalto e que ganhavam um visual bem singular quando visto por detrás de meus óculos escuros, e a tudo isso eu cortava ao mesmo tempo em que sentia a brisa pincelando meu rosto.

Foi na Via Anhanguera, em São Paulo, em um início de tarde, há alguns anos. Dom Guina chegou com sua moto Teneré 600 roncadora, super-suja e personalizada. Chamou a atenção de frentistas e pessoas presentes por seu jaquetão preto e visual pitoresco: cabelos longos, barba no mesmo estilo e óculos Rayban. A fala mansa agradou os frentistas. Deixou a velha amiga abastecendo e foi ele mesmo se abastecer na churrascaria.

Estranho personagem, esse tal de motociclista. Difícil crer que seja possível preferir o desconforto de uma motocicleta, onde se fica instavelmente instalado sobre um banquinho minúsculo, tendo que fazer peripécias para manter o equilíbrio e torcendo para que não haja areia na estrada.

Eu peguei onda minha vida toda.

Comecei bem cedo, na faixa dos 8, 9 anos. Aos 12, 13 optei por largar a prancha e praticar o Bodysurf (um nome bonito pro que chamamos de pegar jacaré). Mandei bem trocar uma Bocão & Betão mono 7’ por um par de pés de pato, já que meu meio de transporte (que depois se tornou tão importante pra mim) acabou sendo uma moto, e carregar aquele cachorrão ia ser foda...

Já tive oportunidade de viajar por vários meios de transporte: avião, trem, automóvel, bicicleta, a pé, de ônibus, de navio. No avião eu me sinto como dentro de um charuto de metal, olhando o mundo por uma minúscula janela, quando se está ao lado de uma. Muito útil para chegar rápido ao destino, mas o que tem no caminho fica esquecido.

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